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25/07/2017 | domtotal.com

Nudez e televisão

Por que a nudez - sobretudo a nudez masculina - ainda causa tanto alvoroço?

Pelado com a mão no bolso, a abertura da novela Brega e Chique causou sensação em 87.
Pelado com a mão no bolso, a abertura da novela Brega e Chique causou sensação em 87. (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

Reverbera ainda a desastrosa e arbitrária ação da PM de Brasília contra o artista Maikon K que, há duas semanas atrás, recebeu voz de prisão enquanto apresentava publicamente sua premiada performance DNA de DAN, levada ao Distrito Federal pelo projeto Palco Giratório do SESC. Porque se apresentava nu, dentro de uma grande bolha de plástico e com o corpo coberto com um líquido que aos poucos vai ressecando sua pele, o artista foi acusado de atentado ao pudor.    

Esses policiais militares, arvorando-se de defensores da moral e dos bons costumes, do alto da corriqueira ignorância que grassa no seio da corporação, acharam-se no direito de mandar em alto e bom som o célebre "teje preso" para Maikon K. A performance foi interrompida, o cenário danificado e o artista violentamente jogado para dentro de um camburão.  

Alguém pode argumentar em defesa dos policiais que eles não têm a obrigação de saber patavina sobre arte ou performance e nem que estavam abordando um dos mais respeitados artistas performáticos do país. De fato, ser ignorante não constitui crime mas crimes não podem ser justificados em nome da ignorância. E como defender uma prisão por atentado ao pudor decidida por gente que não tem pudor nenhum para cometer arbitrariedades?

Para além da óbvia discussão sobre o direito à livre expressão e a censura, o episódio nos lança outra questão, não menos importante: por que a nudez - sobretudo a nudez masculina - ainda causa tanto alvoroço?

Logo no início de Liberdade, Liberdade, Rubião - personagem de Mateus Solano - protagonizou uma cena nu em pelo. As redes sociais foram ao delírio, pouco importando que se travava de uma cena de tortura, onde a nudez deveria estar em segundo plano.

Foi em 1975 o primeiro nu masculino da televisão brasileira. Pedro Paulo Rangel como o estudante de direito Juca Viana, logo no início de Gabriela, é flagrado na cama com Chiquinha, a amante de coronel Coriolano (Rafael de Oliveira). Ele passa um corretivo nos dois que fogem nus de Ilhéus sob os olhares inquisidores de toda a cidade.

Dois anos depois, Tony Ramos, no enorme sucesso O Astro, de Janete Clair, também aderiu à moda. O rico herdeiro da família Hayala, fazendo cover de São Francisco de Assis, despiu-se e saiu pelado da mansão da família, deixando dinheiro e mordomias para trás.

Nos anos 80, quem engrossou o cordão dos peladões foi Chico Anysio, em uma participação especial hilária na série do Bem Amado, de Dias Gomes. O rei de Chico City chegou a Sucupira encarnando um psicanalista que instalava seu consultório no bravo município baiano. Odorico (repetindo o que havia feito na novela, quando grampeou o confessionário do Padre Honório) mandou seus jagunços roubarem as fichas dos pacientes que frequentavam o divã do Simão Bacamarte da hora.

Com os segredos mais secretos de toda a cidade nas mãos, o prefeito de Sucupira começou uma onda de chantagens entre seus inimigos políticos - que nunca foram poucos. Desmoralizado, o personagem de Chico Anysio sofre uma tentativa de linchamento em praça pública e só consegue escapar por sorte, correndo igual a um louco e completamente nu para fora da série e da cidade.

Não dá também para esquecer da abertura de Brega e Chique, a divertidíssima comédia de Cassiano Gabus Mendes que Jorge Fernando dirigiu homenageando a estética do lindo filme O Fundo do Coração, do Coppola. Ao som de "pelado, pelado, nu com a mão no bolso", a música impagável da banda Ultraje a Rigor, um modelo caminhava para longe da câmera com o bumbum de fora, antes que a logo da novela ganhasse a tela.

A polêmica foi tão grande que a Globo mandou cobrir os glúteos do moço com uma folhinha de parreira digital, para acabar com a discussão. Ganhou mais uma vez a hipocrisia e o falso moralismo.

As porteiras foram abertas irreversivelmente com Pantanal, onde Juma, Jove e companhia praticavam a nudez (e o sexo) livremente, debaixo de grandes árvores e ao som dos tuiuiús. De todo o elenco, apenas o Velho do Rio foi provavelmente o único a não aparecer com a pele arrepiada do corpo ao relento.

Mas a nudez não precisa ser só auê ou marketing; em alguns momentos constituiu importante e criativa ferramenta dramática - como a revelação do corpo nu de Diadorim (Bruna Lombardi) morta ao final de Grande Sertão: Veredas, para espanto de Riobaldo (Tony Ramos) ou a nudez fantasmagórica de Vadinho (Edson Celulari) em Dona Flor e seus Dois Maridos. Fica provado que o nu pode servir muito bem tanto à tragédia épica quanto à comédia rasgada de costumes.

Membros de uma sociedade que desde sempre objetificou o corpo da mulher, não conseguimos ver com naturalidade ainda o homem pelado invadindo nossas casas no horário nobre. Tão acostumados que já estamos, a cada carnaval, quando surge feito fosse uma versão atualizada das mulatas do Sargentelli, a Globeleza não nos causa nada. Mas à primeira vista de um peladão na TV, é fatal que se ouçam risinhos nervosos ou grunhidos de indignação.

Paolla Oliveira fez história com a já antológica cena da garota de programa de luxo nua em frente àquela janela de cortinas esvoaçantes em Felizes para Sempre. E se fosse o Enrique Diaz? Ou o João Miguel? Qual teria sido a repercussão? Não veremos nem no Silvio Santos um pianista nu ou um maestro nu. Mulher pode. Homem não.

O governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, telefonou pessoalmente ao artista Maikon K., pedindo desculpas pela ação truculenta e desastrosa da polícia que obedece o seu comando. Me pergunto quem vai ligar para nós, para se desculpar sobre outro pelado famoso, este sim muito indecente.

O fato é que o corruptor Joesley Batista, o dono da Friboi (que não é e nunca foi sócio do Lulinha), desnudou aos olhos de todo o país o presidente de mentirinha que ocupa hoje o Palácio do Planalto. Este sim é que deveria estar preso.

De toda a nossa experiência com a nudez (com a conclusão óbvia de que não sabemos mesmo como lidar com ela), acabamos por descobrir a verdade que não pode mais ser escondida: Na TV ou na vida real, nu, Temer é mais feio ainda.

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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