Cultura TV

06/08/2017 | domtotal.com

O mundo novo e as velhas mazelas

O Mundo Novo, que ainda espera tornar-se o país pujante e justo que merece ser.

A novela ainda deverá se prolongar por poucos meses.
A novela ainda deverá se prolongar por poucos meses. (Divulgação)

Por Evaldo D´Assumpção*

Confesso que durante muitos anos recusei-me a ver novelas televisivas. Talvez para justificar minha impossibilidade de vê-las, menosprezava seus conteúdos, ignorava seus intérpretes e até mesmo ironizava aqueles que as seguiam religiosamente. Todavia era uma atitude um tanto quanto paradoxal, pois sempre gostei de teatro, cinema e especialmente da leitura de romances, os mais variados, e as novelas não deixam de ser mais um elemento desse grupo de entretenimentos. Mas a verdadeira razão da minha recusa estava no acúmulo de atividades que não me deixava tempo para, todas as noites e num mesmo horário, ficar diante da televisão, acompanhando os acontecimentos que eram interrompidos nos momentos de maior suspense ou quando alguma verdade essencial estava para ser revelada. A simples ideia de que no dia seguinte teria outro compromisso quando o novo capítulo fosse ao ar, deixando-me sem poder ver, pessoalmente, o desenlace esperado, levava-me à radicalidade de simplesmente desprezar as novelas. Hoje confesso isso como uma espécie de pedido de desculpas às pessoas a quem privei de ver tais espetáculos, em função das críticas que a elas fazia. Mas o tempo é inexorável, levando-nos a mudanças radicais. E afirmar isso não me envergonha. Pelo contrário, fico feliz por ser capaz de reconhecer minhas falhas, e retomar novos caminhos.

Completando 50 anos de prática médica, aposentei-me, conforme já havia decidido anteriormente. E fui mais radical: resolvi mudar de Belo Horizonte, onde com certeza minha aposentadoria seria atropelada por solicitações irrecusáveis. Transferi-me então, com minha esposa Edite, para um lugar sossegado e distante. Aqui, nessa bucólica praia dos Castelhanos, passei a ter a liberdade para continuar fazendo muitas coisas, contudo sem compromissos de lugar e horário. Assim pude voltar a ler os romances, e também “vê-los” em formato de novela. Obviamente sem permitir que isso se tornasse um vício, e de repente me transformasse em vegetal de poltrona, preso por horas e horas diante da tela mágica e multicolorida. Estabeleci um horário que não iria interferir com outras atividades e começamos a assistir, eu e a Edite, a novela no final da tarde, quando aproveitamos para tomar nosso café vespertino. A escolha foi muito feliz, pois é um horário onde os temas não são pesados para nos causar desconforto, nem atrapalhar o sono noturno. Além disso, quase sempre trazem fortes traços de comédia, que serve para desopilar o fígado e aliviar as naturais tensões do dia a dia. E em que pese as muitas restrições que faço à linha mestra da Rede Globo, especialmente em questões morais, éticas e políticas, não posso deixar de reconhecer sua superioridade técnica e artística, especialmente na produção noveleira, razão inclusive dos muitos prêmios internacionais que ela tem recebido. É verdade que no horário das 18:30 horas, alguns – não todos – abusos nas questões acima referidas, são razoavelmente atenuados, ainda que vez ou outra ocorrem deslizes mais ou menos graves.

Atualmente, e esta a razão desse meu texto, estão apresentando uma novela que classifico de excelente, não só pelas qualidades comuns já referidas, mas pelo tema que selecionaram. Mundo Novo, este o seu nome, iniciou com a vinda de D. João VI para o Brasil, fugindo da ameaça napoleônica, prosseguindo com a ocupação da regência por D. Pedro I, quando da volta do imperador português para a pátria lusitana. Mostrando a atuação do príncipe regente –mulherengo, voluntarioso, bastante autoritário e chegando à irresponsabilidade – cercado pelo ardiloso Chalaça, da fascinante e muito prendada princesa Leopoldina, talvez a grande responsável pela independência do Brasil, do inteligentíssimo e culto José Bonifácio, da sedutora Domitila, futura marquesa de Santos e quase demolidora da identidade nacional que se formava, levou-nos a recapitular toda a história do Brasil, remetendo-nos aos textos da literatura clássica, comparando os acontecimentos oficiais com os da fantasia novelesca. Constatamos uma muito hábil e inteligente fusão de história com a ficção, mesclando personagens reais com imaginários, criando uma trama que, ao mesmo tempo que prende o telespectador, nos desperta para o conhecimento de nossa história. E nessa mescla o autor soube, com muita perspicácia, seguir o que dizia o poeta francês neolatino Jean de Santeuil (1630-1697): “Castigat ridendo mores” (Rindo castiga os costumes), usado como lema inscrito em vários teatros do mundo. Na novela, o autor cria uma taberna e hospedaria que é a mais frequentada no centro do Rio de Janeiro, apesar de toda a sua desorganização e sujeira. Dirigida por um casal totalmente amalucado, Germana (Vivianne Pasmanter) e Licurgo (Guilherme Piva), eles formam os personagens mais hilariantes da estória. Num determinado momento em que se pretende formar a primeira Assembleia Constituinte brasileira, Licurgo, em toda a sua ignorância e simploriedade, é induzido por um oficial inglês, de péssimo caráter, a se candidatar a deputado constituinte para usá-lo se vier a ganhar. E como tal, Licurgo reproduz com perfeição e mordacidade os atuais deputados e senadores brasileiros, planejando tudo o que poderá fazer se for eleito: corrupção, oportunismo, enriquecimento ilícito, criação de leis à custa de propinas e benefícios pessoais. Sua interpretação é impecável, levando-nos a crer que estamos assistindo cenas de hoje, nos desvãos brasilianos.

A novela ainda deverá se prolongar por poucos meses, mas vale a pena ser vista como uma espécie de lição de como começou a classe política em nosso estropiado mas resistente Brasil. O Mundo Novo, que ainda espera tornar-se o país pujante e justo que merece ser.

* Evaldo D´Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas