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08/08/2017 | domtotal.com

Os novos velhos trapalhões

Talvez tenham voltado menos anárquicos, mas voltam como artistas do tempo em que vivem.

O novo elenco do programa com os trapalhões originais.
O novo elenco do programa com os trapalhões originais. (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

Na era de remakes e revivals por que passa a TV brasileira até demorou para que acabasse acontecendo: Os Trapalhões ressurgiriam, mais cedo ou mais tarde, para o bem ou para o mal.

Não que se invista pouco em novidades, essas há aos borbotões. Novos autores nas novelas das seis e das sete da Globo (mesmo que esses recém-chegados apenas retomem didaticamente o que pode ser considerado clássico na teledramaturgia brasileira, aquele arroz com feijão bem feitinho); novas séries e programas de humor (A Fórmula, Vade Retro e o interessante Lady Night com Tatá Werneck); novas investidas no terreno do reality show para todos os gostos - sobretudo para todos os mau gostos. Sobre esse campo específico, o do mau gosto, aí estão A Casa, Dancing Brasil e a próxima temporada de A Fazenda e BBB, que não deixam e nem me deixarão mentir.

Até a Record desistiu (temporariamente, que seja) do filão já meio cansado e kitsch de novelas bíblicas de época. Avizinha-se a estreia de uma certa Apocalipse onde se abrirá mão da época, mas a Bíblia seguirá como inspiração. Afinal, não se abandona uma agenda ideológico-comercial tão facilmente assim; ainda mais nas hostes do bispo Macedo - que, como líder religioso, é de fato um grande empresário.

Mas aí resolveram mexer com Os Trapalhões e isso é terreno minado, certamente. Para quem não viveu os anos 80, é impossível vislumbrar que Didi, Dedé, Mussum e Zacarias foram o maior fenômeno humorístico que este país já viu. Com a força e o tamanho que tiveram, antes deles, apenas Mazzaropi e Oscarito; depois deles, ninguém.

A história dos Trapalhões se confunde com a história da televisão brasileira. Começaram na TV Excelsior, em 66; passaram pela Record e Tupi (sempre em São Paulo e com diferentes artistas integrando o grupo, como Ivon Cury e o cantor Wanderley Cardoso) até chegar à Globo, no Rio, em 1977, e com a formação definitiva: o cearense retirante, o galã de subúrbio, o malandro da Mangueira e o mineirinho; um recorte do país, mas também um retrato bem-humorado de gente, como nós, correndo atrás do sustento de cada dia.

Definitivamente, não era o mundo do jet set que as novelas mostravam, tratava-se de uma outra gramática. Os Trapalhões tinham que procurar emprego, preocupavam-se com atividades prosaicas como paquerar ou garantir a próxima refeição; precisavam se virar para arrumar a "bufunfa" que pagava o aluguel do mês e em seus esquetes, não era raro vê-los encarnando pedreiros, ascensoristas, padeiros ou camelôs. 

Todo domingo, às sete horas da noite, o Brasil, literalmente, parava para assistir às aventuras e desventuras do quarteto. A Globo decidiu contratá-los porque conseguiram bater recorrentemente a audiência do, até então, imbatível Fantástico. Uma vez globais, sempre entregaram o horário com o ibope lá no alto. O auto proclamado "show da vida" só conseguiu manter-se durante tanto tempo "nas cabeças" porque se beneficiava do público que já estava por ali e ia ficando. O Fantástico deve eterna gratidão aos Trapalhões.

Além do programa semanal, o olhar de empresário de Renato Aragão (o alter ego de Didi na vida real), colocou os Trapalhões em dois filmes anuais (um para as férias de janeiro, outro para as férias de julho), em revistas em quadrinhos e até em figurinhas de chiclete de bola. Nos finais de semana, atravessavam incansavelmente o país em espetáculos mambembes concorridíssimos, de norte a sul. Os Trapalhões estavam em qualquer lugar que você olhasse. E, mesmo se não olhasse, era impossível se esquecer deles. 

Mas o que eram Os Trapalhões e por que tanto sucesso? Afinal, não eram muita coisa, apenas palhaços... Traziam um humor de circo para a televisão e só faziam rir. Aos desavisados que concordam com afirmativas vagas e equivocadas como essas, só há um aviso a ser dado: nunca subestime um palhaço.

Como Joaquim Pedro de Andrade fez no cinema com Macunaíma e Zé Celso no teatro com sua montagem do Rei da Vela, Os Trapalhões foram extra-oficialmente o braço do movimento Tropicalista na televisão. No mundo estrangulante do tal "padrão de qualidade" da Globo, foram os primeiros que ousaram improvisar. Mais que isso, tiveram a audácia de desvelar aos olhos do público os truques e segredos de bastidor da televisão. Ao criticar o próprio picadeiro em que se apresentavam, democratizavam o meio de comunicação de massa a que anarquicamente também serviam, desmoralizando-o. De certa forma, faziam semanalmente o que fez Dorothy, ao desmascarar o Mágico de Oz.

Esculhambaram e carnavalizaram. Pelo caminho da despretensão e porque verdadeiros artistas, puderam ser geniais.  

Os Trapalhões versão 2017

Renato Aragão já havia tentado a retomada com o sofrível A Turma do Didi (no ar de 98 a 2010). Mesmo com todos os erros do programa, ele acertou em pelo menos uma coisa: um Didi sozinho não faz verão.

Após a morte de Mussum e Zacarias e o fim do programa clássico, tentou-se reeditar na nova atração um time que tivesse conexão com Os Trapalhões originais. Convocaram um negro (Jacaré, ex-dançarino do grupo É o Tchan!), um ator com caracterização infantilizada (Tadeu Mello) e alguns galãs genéricos (todos esquecíveis e já esquecidos) que se sucederam enquanto o programa durou.

A ideia era óbvia: emular os trapalhões falecidos e substituir Dedé Santana - que, durante anos, foi impedido a voltar à tela da emissora dos Marinho por um processo na justiça que a Globo levava contra ele. Mesmo tendo durado tanto tempo no ar, o brilho havia se esvaído; Didi estava velho e sozinho e essa turma era apenas um decalque esmaecido de um tempo mais glorioso.

Mas o sucesso do recente retorno da Escolinha do Professor Raimundo com elenco renovado aparentemente animou os executivos do canal e decidiu-se colocar o novo padrão à prova com Os Trapalhões. Relançar uma franquia de sucesso da maneira certa é como ressuscitar uma galinha de ovos de ouro (e não há nada que um executivo de televisão mais preze que uma galinha de ovos de ouro).

Após assistir aos nove programas produzidos nesse espírito de revival (já levados ao ar no Canal Viva e programados para estrear no horário dos almoços de domingo na Globo, a partir de setembro) chega-se a algumas conclusões.

Desta vez, em detrimento dos estereótipos forçados utilizados na Turma do Didi, escalaram imitadores para reviver Mussum e Zacarias, o maior acerto dessa retomada. Gui Santana, ex-Pânico, foi a escolha iluminada para o papel do mineirinho de Sete Lagoas e o pagodeiro Mumuzinho (que, por causa do nome, muita gente já pensava ser filho do trapalhão original) foi uma grata "surpresis" com sua encarnação irretocável do mangueirense e flamenguista Mussum.

Didi e Dedé aparecem de quando em quando no programa. Didi continua a ser Didi e Dedé ressurge não mais como o escada do companheiro (nunca houve um escada tão especial como Dedé; único), mas assumindo os papéis coadjuvantes outrora destinados a um elenco de apoio tão inesquecível quanto os protagonistas de então (o "alemão" Carlos Kurt; Felipe Levy, Dino Santana e Roberto Guilherme, por exemplo).

A Didi Mocó, resta um lugar mais nobre. Além das ocasionais aparições, encenando quadros com os neo trapas, o fecho do programa é sempre dele, com um chiste rápido; uma espécie de homenagem - como na antiga escolinha, onde a última pergunta do Professor cabia sempre ao grande Walter D'Ávila e a seu Baltazar da Rocha.

A aposta em esquetes e não em narrativas mais longas (como em A Turma do Didi em seus anos derradeiros e no quadro Trapa Hotel que encerrava o programa original em sua penúltima fase) aproxima essa nova versão do espírito do que sempre foram Os Trapalhões: um espetáculo de vaudeville, dinâmico e variado. A recriação de quadros clássicos nem sempre funciona. Estabelecida a raiz, não faria mal trazer algo de novo para o portfólio do grupo.

Diferente de como era no passado, o Didico de Lucas Veloso não é mais o líder da trupe; talvez até pela presença de Renato Aragão, essa nova versão do quarteto prescinda de hierarquia. Veloso está muito bem: com sutileza, imitando e não imitando ao mesmo tempo a matriz que lhe cabe, porém, sem ainda ter encontrado a força que Aragão sempre deu ao personagem. Sobre o Dedeco de Bruno Gissoni, sinceramente, não há o que dizer.

Ainda sobre o elenco, é impossível não qualificar como deprimente a performance de Nego do Borel. Apenas colocar um rapaz negro, com um chapéu de plumas e dando todas as falas, indiscriminadamente, tentando mimetizar a entonação que Tião Macalé dava aos seus bordões "nojento" e "tchan!", é não reconhecer a grandiosidade do talento de Macalé. É como dizer: "qualquer um pode fazer aquilo que o Tião fazia" - quando é justamente o oposto: ninguém faz o que ele era capaz de fazer. A escalação de Nego do Borel é, sem dúvida, o maior erro desses reciclados trapalhões.

Corre uma polêmica já há algum tempo; um questionamento se o humor dos trapalhões caberia no mundo de hoje, onde avançamos no respeito às diversidades mas onde também impera o patrulhamento do politicamente correto.

Com bom humor e auto crítica, o Didi de sempre ensina aos jovens "capanheiros" que não pode mais chamar mulher de "bicho bom", que isso dá assédio... que não pode mais beber mé, para não dar mau exemplo para as crianças... Dedé explica ao novo Mussa que as mudanças fazem parte da vida: "antigamente, ninguém usava cinto de segurança, agora todo mundo usa. Não pode mais falar 'neguinho' nem no bom sentido". E Didi arremata: "tudo mudou; até aquele político mudou para Bangu 8".

Ao contrário de programas humorísticos como o Pânico, a ofensa não faz parte do repertório dos Trapalhões. Talvez tenham voltado menos anárquicos, mas voltam como artistas do tempo em que vivem; nem envelhecidos nem renovados, apenas os de sempre. Admitem que o tempo passou mas que a vida segue e nos convidam para irmos juntos com eles de novo.

E só um louco não aceitaria um convite feito pelos trapalhões.

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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