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13/08/2017 | domtotal.com

Os pais atuais e os mófilos

Os pais, que agora são homenageados, ficarão contemplando seus filhos escorregando por caminhos inúteis, sem saber como resgatá-los para um futuro melhor.

Que Deus ilumine e ajude esses pais.
Que Deus ilumine e ajude esses pais. (Divulgação / Pixabay)
Por Evaldo D´Assumpção*

Aproveito a comemoração do Dia dos Pais, no segundo domingo de agosto, para refletir sobre a dificílima arte atual de ser pai.

Se em tempos passados, essa já era tarefa árdua, certamente hoje está bem mais complicada. Com o advento dos smartphones e das redes sociais, o diálogo que já era difícil tornou-se quase impossível. A meninada (mas também os adultos) aderiu de tal forma aos celulares, que até surgiu uma doença provocada pela dependência à telefonia móvel: a nomofobia. Esse termo nasceu num estudo elaborado em 2012, na Inglaterra, quando verificou-se a sua incidência em 77% dos indivíduos com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos, e em 68% dos indivíduos na faixa de 25 aos 34 anos. Ele é formado pela fusão de “no-mobile”, que define a privação de telefones móveis, com o sufixo “fobia”, que significa medo exagerado, pânico. Esta doença psicológica afeta os relacionamentos interpessoais, além de produzir um distanciamento e isolamento das pessoas, do mundo real. Basta observar os casais e grupos de amigos numa mesma mesa, cada um isolado no seu mundo virtual, digitando freneticamente mensagens para os amigos, alguns até mesmo sentados ao seu lado!

 Um dos piores resultados desse transtorno psicológico é como ele afeta a comunicação entre pais e filhos. De forma tristemente jocosa, alguns pais dizem que só conseguem falar com seus filhos, dentro de sua própria casa, através dos celulares. Eu mesmo já observei netos e seus amigos, passando férias em minha casa na praia, ocupando praticamente todo o tempo – sequer se preocupando em aproveitar o sol que brilhava intensamente – debruçados sobre seus celulares, digitando-os, sabe Deus o que... Contemplando-os, tentei imaginar que assuntos teriam para ocupar quase todas as horas do dia naquela frenética troca de mensagens. Não levaram um só livro para ler, nem filmes queriam assistir na televisão. Certamente discutiam e resolviam os problemas nacionais e internacionais, talvez até mesmo os intergalácticos... Com isso, não só se privavam de conversar e assimilar um pouco da experiência dos adultos ali presentes, como sequer observavam o jeito de ser e proceder desses mesmos adultos: uma das melhores escolas que conheço.

Veio-me então, à lembrança, um tempo da minha juventude, lá pelos anos 50, quando morava com meus pais no bairro de Lourdes, em Belo Horizonte. Nosso vizinho de lado era um desembargador aposentado, Dr. Gustavo Pena. Sempre que podia, corria a visita-lo e ficava um bom tempo escutando-o a contar histórias vividas por ele. Apesar da diferença de idade, eu me deliciava com sua fala, conteúdo e forma de se expressar, procurando assimilar tudo aquilo. Era um homem gentil, educado, culto e extremamente bem humorado. Aprendi muito escutando-o, e tenho-o sempre em minha memória. Fico então questionando-me onde esses jovens mófilos irão aprender da vida, e para a vida... Explico “mófilos”: é o nome que acabo de criar, por analogia à doença da modernidade acima referida, usando a abreviação de mobile, “mo”, juntando a ela o sufixo “filos” que significa “paixão, atração irresistível”. Mófilo é, portanto, aquele que tem uma atração avassaladora pela telefonia móvel. Aquele que é capaz até de carregar um celular sobressalente, para a eventualidade do titular deixar de funcionar...

Os mófilos, carregarão também um fardo que lhes será pesado no futuro: não gostam de ler e portanto não leem. Só gostam de textos resumidos, quase codificados, e sem qualquer esmero na linguística. E quem não lê, não aprende a escrever. Serão – e muitos já o são – analfabetos alfabetizados, incapazes de uma comunicação inteligente, incapazes de sedimentar relacionamentos (exceto com outros mófilos) e produzir bons frutos.

Nas vezes que tenho a oportunidade de conversar com alguns deles – felizmente existem exceções, e não são tão poucas assim – confesso que encontro muitas dificuldades, tanto no ouvi-los, como para comunicar-me com eles. Quando falam, apresentam enorme dificuldade em concatenar suas ideias, expressando-se de forma confusa e com pouca lógica nos pensamentos. Quando lhes falo, fico desestimulado porque não conseguem escutar sem estar, continuamente consultado seus celulares, escrevendo ou lendo mensagens. E se reclamo, dizem que estão prestando atenção no que falo. Mas, se retrucam, não demonstram ter entendido o que foi falado.

E os pais, que agora são homenageados, ficarão contemplando seus filhos escorregando por caminhos inúteis, sem saber como resgatá-los para um futuro melhor.

Que Deus ilumine e ajude esses pais, pois certamente eles precisam muito de uma luz do alto, e que esta não lhes venha por meios eletrônicos, numa das muitas redes sociais!...

*Evaldo D´Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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