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12/09/2017 | domtotal.com

Twin Peaks - vanguarda e mitologias

A série é uma fábula contemporânea sobre como a maldade pode se apoderar de nossas vidas.

Cooper e Laura trocam segredos no Quarto Vermelho.
Cooper e Laura trocam segredos no Quarto Vermelho. (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

Através da escuridão do passado futuro

O mago espera enxergar.

Alguém recita entre dois mundos:

- Fogo, caminhe comigo.

...

A chave para se começar a entender toda a rede intrincada de pistas que tecem a narrativa de Twin Peaks está nestes versos declamados por Mike, o homem de um braço só, já na primeira temporada da série, levada ao ar há mais de vinte e cinco anos: o tempo.

Para que algo comece a fazer sentido, é fundamental que todo o conjunto do universo Twinpeakeano, criado e desenvolvido por David Lynch e Mark Frost, seja levado em conta; as duas temporadas originais da série e, principalmente, o filme de 92, Fire Walk With Me - que no Brasil ganhou o título bobo de Os Últimos Dias de Laura Palmer.

Tendo já assistido aos 18 episódios deste retorno e pensando em retrocesso, a trama principal da série nunca foi o assassinato de Laura, muito menos a investigação desse crime. Twin Peaks vê o mal como uma entidade de existência independente. É uma fábula contemporânea que discorre sobre como a maldade, em estado puro, pode se apoderar de nossas vidas. Uma força sobre a qual, ao fim, ou sucumbimos ou nos rebelamos.

No mundo de hoje é um grande alento poder imaginar a presença de uma Brigada Blue Rose dentro das fileiras do FBI, com agentes dedicados a erradicar não o crime, mas o mal que gera todos os crimes. Não é coincidência que Lynch tenha escolhido escalar a si mesmo para dar vida ao federal Gordon Cole, o líder da cruzada em que Dale Cooper funciona como reencarnação de um cavaleiro andante - com um código de honra incorruptível, o senso do dever acima de si mesmo ou de seus interesses próprios.

É lícito que, ao criar uma nova mitologia, bebamos de lendas antigas. Por isso o Cooper revivido aterrissa no condomínio Lancelot Court e a mulher que ganhou (Naomi Watts) ao assumir a identidade de Doug Jones vai ao encontro de credores na esquina das ruas Merlin com Guinevere; tudo acontecendo em Las Vegas - uma espécie de Eldorado, oásis no meio do deserto, para todos aqueles que sonham. Uma possível reinterpretação para Camelot? E também por isso, na parede do escritório de Cole, ao lado de uma foto emoldurada de um cogumelo de explosão atômica, está pendurado outro quadro com um retrato de Kafka.

Na nova teia mitológica criada pela dupla de autores nada é aleatório e está muito presente o princípio de expansão da consciência, pilar da meditação transcendental da qual Lynch é adepto há quase 40 anos.

Todas as pistas apresentadas nas fases anteriores da obra acabam desembocando na nova temporada. A loja de conveniências; uma certa Senhora Chalfont e a presença dos lenhadores; a verdadeira identidade de Judy; a eletricidade como meio de viagem espaço-temporal; a revelação feita para Cooper no Quarto Vermelho pelo homem de lugar nenhum - o anão em que se transformou o braço arrancado de Mike - que promete voltar sob outra forma, e volta.

No primeiro episódio da retomada, Laura Palmer é quem dá o salvo conduto para Cooper finalmente deixar o Salão Negro. Ele se espanta ao vê-la e diz: - Mas Laura Palmer está morta. Ao que ela responde, suave como apenas os fantasmas conseguem ser: - Eu estou morta e ainda assim viva. (A resposta para essa charada foi parcialmente elucidada no último capítulo dessa nova série.)

Tudo é relativo e essencial na mesma medida. Não existem peças que não encaixam nesse quebra-cabeça meticulosamente arquitetado; apenas peças ainda por descobrir - apesar de já estarem todas à vista.

Neste sentido, é difícil acreditar que os diálogos, ao final de vários episódios, travados por gente desconhecida no lounge do Roadhouse Bar, não venham a ter importância em algum momento da trama - se a série ganhar mais uma temporada.  

Na esteira destes interlúdios, éramos brindados com pequenas apresentações musicais (suspensão dramática e comentário ao que acabamos de assistir); uma canção de ninar oferecida a nós pelo diretor, como se dissesse: - Sonhemos juntos até nosso próximo encontro, vamos nos preparar para o que está por vir. (Mesmo entendendo o contexto específico do campo de atuação de cada um, é correto afirmar que antes de Lynch, só Jung respeitou tanto o poder dos sonhos.)

O futuro está no passado

Se em 2016 a cena mais marcante do ano foi a Batalha dos Bastardos de Game of Thrones, o episódio 8 dessa retomada de Twin Peaks é a única opção possível para ser entronada como o grande momento do ano na televisão. Provavelmente, o grande momento da década.

É no episódio 8, um flashback assumido, que testemunhamos a gênese de tudo; o nó dramático que justifica toda a existência da série. Radical e sem precedentes, Lynch nos assombra com uma sinfonia de imagens inimagináveis até então, ao som da música única do compositor polonês Krzystof Penderecki. É prova definitiva que todo limite existe para ser extrapolado e que muito há ainda para se experimentar na TV.

Se desejássemos nos esquecer de todas as qualidades do retorno, este episódio sozinho já justificaria a volta de Twin Peaks depois desses vinte e cinco anos de pausa.

Uma quarta temporada está na ordem das especulações do dia. Os canais Showtime e ABC, que bancaram a volta de Cooper & Cia., já deram o sinal verde para que a aventura continue. Some-se a isso o entusiasmo ensandecido dos fãs (novos e antigos). As redes sociais abarrotadas com teorias explicativas, experimentos de edição de imagem em sync dos dois últimos episódios que foram ao ar um seguido do outro e vlogs dedicados a comentar detalhadamente cada passo dos personagens, demonstram que, mesmo com alguma frustração - porque afinal, muitas perguntas ficaram no ar enquanto várias novas foram lançadas - a sede por mais Twin Peaks só tende a crescer. A esta altura, só faltaria o aceite de Lynch para a produção de uma nova fornada de episódios.

E a sede dos fãs é mais que justificável. O salto no escuro que Twin Peaks deu revoluciona a maneira com que estamos acostumados a ver uma história ser contada. Nenhuma outra experiência de manipulação do tempo na narrativa arriscou ir tão fundo. Com este novo avanço na trama, está cristalizado o que até então podia ser apenas uma desconfiança: Twin Peaks é prequel, sequel e spin-off de si mesma.

David Lynch, criador de mitologias, subverteu o arquétipo de Ariadne. Enquanto a princesa apaixonada por Teseu defendia a segurança do amado segurando a ponta de um fio (metáfora  ancestral para a linearidade da vida), o diretor costura aqui vários fios simultaneamente, embaralhando - sem se perder - toda cronologia imaginável.

A pergunta, sobre o tempo já passado e o porvir, com que Cooper encerra esta etapa da história não poderia ser mais coerente com o espírito de toda a obra. Ele finalmente entendeu que é o tempo o verdadeiro condutor da vida, além de ser também como funciona nossa memória.

Onde e porque não fazem tanta diferença, assim como qualquer resposta que ele venha a obter. Não serão as respostas que o levarão a algum lugar seguro porque perguntar, em última instância, é o que nos mantém vivos.

Em Twin Peaks só as perguntas importam.

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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