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26/09/2017 | domtotal.com

Star Trek: Discovery - o cânone renasce

A força com que a franquia tem habitado o nosso imaginário é sem igual.

Sonequa Martin-Green: à altura da tradição de Star Trek.
Sonequa Martin-Green: à altura da tradição de Star Trek. (Reprodução)

Por Alexis Parrot*

É muito comum quando nos referimos a filmes que geram continuações (no cinema ou mesmo na televisão), usar o termo franquia. Primeiro, porque faz sentido adaptar o princípio para qualquer coisa que abarque uma produção em série. Depois, porque, mesmo se tratando de produtos com aspiração artística, ao fim e ao cabo, são investimentos comerciais como qualquer outro.

Mas houve um tempo em que não existiam "franquias" na indústria da cultura. Só havia uma: Star Trek. Foi durante o desenvolvimento dos primeiros filmes que o apelido pegou e logo o conceito expandiu-se. Hoje, todo produtor cinematográfico sonha com uma continuação de sucesso. Há inúmeros motivos para que uma franquia dê certo ou não, todos eles muito específicos: o que funciona em uma não vai, necessariamente, vingar em outra. 

A longevidade de Star Trek deve-se sim a personagens muito carismáticos e a um universo fictício muito bem amarrado (e de compreensão simples na mesma medida) mas principalmente a um fator: a escolha de usar a ficção científica para falar de política com uma mensagem humanista.

A série original, criada pelo visionário Gene Roddenberry, foi lançada no auge da guerra fria entre EUA e União Soviética e a tripulação da mítica Enterprise já contava com um russo na função de navegador. Junto a ele na ponte de comando, também se destacava a figura de Uhura, uma mulher negra, oficial de comunicações da nave. O primeiro beijo interracial da TV mundial foi entre Kirk, o capitão, e Uhura. Isso só foi possível porque as aventuras da nave se passavam no ano de 2265.

Treze filmes e seis séries de TV depois (contando com a série de desenho animado), 51 anos após o primeiro encontro com Kirk e companhia e doze após o final melancólico da série Enterprise (a última investida na televisão do universo Roddenberryano), o símbolo da Federação dos Planetas Unidos brilha novamente no espaço com a estreia de Star Trek: Discovery. (Criada para ser exibida pelo serviço de streaming da emissora norte americana CBS e exibida fora dos Estados Unidos pelo Netflix, fico me perguntando quem foi o gênio que escolheu o título da série. Ninguém se deu conta da propaganda gratuita que estão fazendo para o Discovery Channel?)

A força com que a franquia tem habitado o nosso imaginário no último meio século é sem igual. Com engenhosidade e muito cuidado, poucas vezes a ficção científica foi tão levada a sério. O universo ficcional que dá base para as séries e filmes é rico e coerente. Portanto, o termo "franquia" não parece ser o mais exato para ser empregado aqui - e a nova serie é a prova mais cabal da tese: Star Trek é um cânone.

O Renascimento

Ao contrário da pobreza franciscana visível na série Enterprise (2001-05), a julgar pelo visual (maquiagem e efeitos especiais) do primeiro e segundo episódios da nova série, não houve economia na produção. O design das naves e as sequências no vácuo são quentes, com um tom alaranjado predominante. O metal das naves parece metal e tudo lembra uma forja, caldeira em combustão contínua. O espaço nunca foi tão bonito.

Dentro da cronologia da franquia, Discovery está posicionada apenas dez anos antes dos acontecimentos da série original e cem anos depois do que vimos em Enterprise. 

Uma nave da Frota Estelar, a Shenzhou, esbarra com antigos rivais da Federação (os selvagens e beligerantes klingons), e precipita o que parece ser um dos arcos principais da temporada: uma guerra já inevitável com esse pessoal de maus bofes.

(O nome da nave é o mesmo de uma das cápsulas espaciais já lançadas pelo programa espacial chinês - significa "mecanismo divino". A grande polarização entre capitalismo e socialismo dos nossos dias é entre EUA e China. O fato da primeira capitã a surgir em Discovery ser chinesa não é mera coincidência e também ecoa o espírito da série original.)

Tudo começa tranquilamente, desde a elegante abertura ("parece ter sido desenhada por Michelangelo", como disse o crítico Devon Ivie, da New York Magazine), passando pela música - imponente mas sem personalidade; só diz a que veio ao final da apresentação, quando reproduz os primeiros acordes do tema da série clássica. 

A título de introito, como nos filmes de James Bond, antes que a história comece mesmo, podemos ver, caminhando sobre a superfície de um planeta desértico em uma missão, a capitã Georgiou (Michelle Yeoh) e a sua "Número 1" (uma deliciosa referência a The Next Generation), Michael Burnham (Sonequa Martin-Green, ex-The Dead Walking) - para já irmos, como quem não quer nada, conhecendo as personagens.

Os klingons também já estão em cena, vestidos com couraças que lembram as armaduras de Game of Thrones, sonhando com a reunificação das 24 casas que outrora formavam o seu império e dentro de uma nave que mais parece um castelo medieval - uma interpretação orgânica do gótico de deixar arrepiado o próprio Dr. Caligari! Acreditam na superioridade de sua raça e vão impô-la à Federação.

Assistir a este discurso no mesmo dia em que a extrema direita nacionalista alemã se elege para ocupar cadeiras no parlamento, a primeira vez desde o fim da segunda guerra, é assustador. Star Trek continua política e atual como sempre foi. 

De volta à nave da Federação, outros tripulantes vão surgindo e quase imediatamente somos tomados de paixão eterna por Saru (Doug Jones); um alienígena irritante, pronto a questionar Burnham por qualquer coisa a qualquer momento. A tensão entre os dois remonta à implicância clássica que o Doutor Magro McCoy alimentava por Spock na série original. 

Não só pela espetacular maquiagem, Saru promete ser um dos personagens mais instigantes da retomada. É o primeiro kelpiano a integrar uma tripulação da Frota Estelar e, por ser de uma raça de presas, sempre à espera de predadores, desenvolveu um sentido peculiar, a sensação da morte que se aproxima. 

Nas inúmeras reportagens e entrevistas que, durante quase um ano, anteciparam a estreia da série, ele foi apresentado como uma "mistura de Spock e Data que iria além". Mas serve exatamente como contraponto aos dois veteranos personagens da franquia. Enquanto o vulcano e o androide eram incapazes de sentir, demonstrar ou até entender o significado das emoções, Saru (como toda sua raça) é a encarnação pura do medo. 

É o outro lado da moeda, nunca antes explorado pelo cânone. Do que é capaz uma criatura marcada pelo medo?

Quem revive o dilema clássico desta vez é a protagonista, humana, porém, criada por Sarek, o embaixador vulcano pai de Spock - uma antítese cultural do fardo biológico que a grande criação do ator Leonard Nimoy sempre carregou: ser filho de um pai vulcano e mãe humana. Não era compreendido pelos terráqueos e meio que desprezado pelos parentes paternos.

Como seu irmão adotivo, Burnham também vive nesse limbo: uma luta diária entre a lógica e a emoção; sem direito a abraçar por completo nem uma cultura, nem a outra; sem saber ainda quem é ou o que deseja de fato ser. 

Star Trek: Discovery traz também essa nova beleza, que não pudemos ver em nenhum outro protagonista da franquia, todos capitães de uma nave ou estação espacial da Frota Estelar. Muito diferente de acompanhar os passos de Kirk, Picard, Sisko, Janeway ou Archer, seremos testemunhas de uma jornada de autoconhecimento e transformação individual de uma personagem que não chega até nós madura ou pronta.   

"Espaço, a fronteira final. Estas são as aventuras da nave estelar Enterprise, na sua missão de explorar estranhos novos mundos, de pesquisar novas formas de vida e novas civilizações, para, audaciosamente, ir até onde ninguém jamais foi."  

O marcante slogan de Star Trek, lançado desde a primeira vez em que o programa foi ao ar, no longínquo setembro de 1966, continua valendo para Star Trek: Discovery mas, dessa vez, a viagem que realmente importa será interior. E este é o convite que nos está sendo feito: acompanhar a busca de uma mulher pela sua identidade. 

Porque cabem mesmo, dentro de cada um de nós, vários universos. 

Vida longa e próspera. 

(Star Trek: Discovery - toda segunda-feira um novo episódio no Netflix.)

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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