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10/10/2017 | domtotal.com

O autismo está na moda na TV

A imagem estereotipada que Rain Man nos ofereceu do autismo faz parte de um tempo que já passou.

O ator Keir Gilchrist vive o autista Sam na série Atypical.
O ator Keir Gilchrist vive o autista Sam na série Atypical. (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

Shaun é um médico recém formado fazendo residência em cirurgia no Hospital Saint Bonaventure, em San Jose, cidade da ensolarada Califórnia.

Sam é um jovem de 18 anos, estudante do colegial, que só pensa em emplacar o primeiro namoro, o primeiro beijo e a primeira transa.

Shaun é o protagonista da série The Good Doctor, do canal ABC norte americano; enquanto Sam é a estrela de Atypical, comédia seriada do Netflix.

Já vimos histórias como estas inúmeras vezes - mas um detalhe torna a experiência completamente diferente: Shaun e Sam são autistas; e sua condição é o que conduz a narrativa de ambos os programas. Com alegria, percebemos que a imagem estereotipada que  Rain Man nos ofereceu do autismo faz parte de um tempo que já passou. Mas, ainda assim, não escapamos de algumas sérias discussões que estão no cerne dos dois programas.

Ao assistir à primeira temporada de Atypical e aos três primeiros episódios já levados ao ar de The Good Doctor, surge uma pergunta para todos aqueles que não são autistas ou que não convivem com pessoas diagnosticadas dentro do espectro do transtorno: estas séries constroem um retrato fidedigno do autismo?

Aferir se há ou não verossimilhança na maneira com que ambas as séries apresentam do autismo é tarefa complicada. Mesmo dividindo algumas características (repetição de movimentos, dificuldade de comunicação e de raciocínio abstrato, por exemplo), o nível com que estas condições vão afetar cada indivíduo é único e pessoal.

Inicialmente, seria possível que um portador do transtorno com alta capacidade funcional fosse como Shaun ou Sam - mas, talvez esta não seja a questão chave. Os autistas da vida real se identificam com a maneira como são representados ali? Ou trata-se apenas de um exercício dramatúrgico que usa do autismo como alegoria para uma discussão rasa e casual sobre o que significaria ser "normal" na sociedade contemporânea?

Em The Good Doctor, apesar do autismo ser o grande protagonista, a escolha politicamente correta por um elenco multiétnico (com negros, asiáticos e latinos) gera o risco de acabar jogando o transtorno na vala comum da tão em voga "diversidade".

Já em Atypical, o problema é outro: todos os membros da família principal da série apresentam alguma característica associada ao autismo.

O pai, (o ator Michael Rapaport em uma versão de meia idade do parvo bem intencionado que viveu magistralmente em Poderosa Afrodite de Woody Allen), com sua dificuldade de relacionar-se emocionalmente com a mulher e os filhos; a mãe, (Jennifer Jason-Leigh de volta à cena depois de um grande período de reclusão, certamente espelhou-se no sucesso do renascimento de Wynona Ryder em Stranger Things para aceitar esse papel de pouca empatia) e sua obsessão pelos detalhes de superproteção relativos ao filho autista; e a irmã (com interpretação mais que especial da atriz Brigette Lundy-Paine - torçamos para ver muito mais dela daqui para frente) dada a rompantes e pouca habilidade ou interesse pelo convívio social.

Dentro desta ótica, todos acabariam, cada um à sua maneira, encarnando um paralelo perigoso com o autismo, no que pode acabar por banalizá-lo.

Além disso, em ambos os casos, a discussão acaba sempre no limiar entre a empatia e a condescendência com que cada um dos programas quer que vejamos o autista - menos em Atypical, por se tratar de comédia; mais em The Good Doctor, pelo tom de melodrama barato. Desde o primeiro episódio é dito textualmente que aceitar Shaun nos quadros do hospital mandaria uma mensagem de superação a todos que vivem em situação parecida. Inspiração a fórceps.

The Good Doctor é baseado em uma série homônima da Coréia do Sul e foi desenvolvida nos EUA por David Shore, o mesmo criador de House. Sai o médico genial e misantropo viciado em analgésicos e entra em cena um médico genial autista que só pensa em "salvar vidas". O princípio de aparente inadequação é o mesmo mas a personalidade que transbordava no doutor Gregory House de Hugh Laurie foi aposentada para nos oferecerem uma visão bem unidimensional do autismo.

A dificuldade que muitos autistas apresentam em firmar contato visual ganha interpretação over de Freddie Highmore (o jovem Norman Bates da finada Bates Motel) que mais parece um cego tateando no escuro do que qualquer outra coisa.

Mesmo admitindo a inegável importância da iniciativa - a desmistificação do transtorno aos olhos do público leigo - os dois programas ganharam críticas severas e legítimas nos EUA e Europa justamente por não terem se envolvido com a comunidade autista para desenvolver tramas e personagens. Afinal, quem melhor que um autista ou aqueles que convivem com o autista para falar sobre autismo? Por mais que tenha contado com uma consultoria médica, com certeza não a mesma roteirista que criou How I Met Your Mother - o cérebro por trás de Atypical.

Um olhar externo, por mais carinhoso e bem intencionado, não pode ser páreo para quem vive a situação nos seus mínimos detalhes cotidianos - com todas as dificuldades mas também com alegrias e pequenas e grandes vitórias.

Para quem se interessar em conhecer uma visão mais aprofundada (mas nem por isso pesada ou entediante) da questão, indico com vigor uma passeada por dois canais do Youtube - que também é televisão - mantidos por autistas e ativistas da causa. O Canal Mundo Asperger, do estudante de jornalismo mineiro Victor Mendonça e sua mãe Selma; e também o Diário de um Autista, do catarinense mestre em design gráfico Marcos Petry.

Ao assistir o testemunho destes dois jovens percebe-se o que talvez tenha faltado tanto em Atypical, quanto em The Good Doctor: não basta tentar dar voz ao autista - é necessário ouvi-lo.

(Atypical: primeira temporada disponível no Netflix;

The Good Doctor: ainda sem previsão de exibição no Brasil.)

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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