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17/10/2017 | domtotal.com

Porcaria por porcaria, que tal desligar a TV?

O melhor da TV mundial não está sendo oferecido para o telespectador brasileiro.

Silvio Santos brinca com a qualidade da televisão em seu programa.
Silvio Santos brinca com a qualidade da televisão em seu programa. (Reprodução)

Por Alexis Parrot*

No último domingo, Silvio Santos soltou mais uma de suas máximas: "Vocês que estão em casa, não troquem de canal: porcaria por porcaria, fiquem aqui no SBT."

Imediatamente, a frase repercutiu na blogosfera e nas redes sociais e já nasceu com lugar seguro no panteão de dísticos antológicos sobre a televisão brasileira. Apesar de ter falado em tom de galhofa, o patrão não poderia estar mais certo sobre a porcaria generalizada que invade nossas casas diariamente via emissoras de TV. E que ninguém se engane: o SBT desponta como um dos campeões da porcariada a que assistimos.

Mas, porcaria por porcaria, podemos ficar com as novelas da Globo. Mesmo tendo alcançado bons índices de audiência, como há muito não se via, a novela de Gloria Perez que vai terminando essa semana não pode ser acusada de ser uma boa novela.

Sensacionalista, nos contou a história de Bibi, alçada a rainha do tráfico porque amou demais um bandido... Moralista, vai castigar a Bibi no final da trama. De memória seletiva, esquece as chacinas protagonizadas pela PM no Rio ou em São Paulo para, indiscriminadamente, homenagear a corporação. No Brasil idealizado da autora, o crime não compensa. Ou melhor, apenas um certo tipo de crime não compensa.  

Cumpriu uma função social importante: a de desvelar aos olhos do grande público a trajetória de um transexual na busca por entender suas próprias questões de identidade de gênero. No país do ódio desembestado, que mata mais LGBTQs no mundo, qualquer iniciativa que ajude a quebrar preconceitos é bem-vinda. Mas é tanta fantasia em torno (sereismo, vício no carteado, falsa gravidez...) que a história de Ivan acaba se tornando apenas mais uma, diluída no meio de um furdunço que teve até boto em Belém do Pará.

Da substituta que se avizinha, não podemos esperar menos excessos - o autor é Walcir Carrasco, dado igualmente a excessos e sensacionalismos. As primeiras noticias que chegam sobre a nova trama dão conta de uma anã entre o elenco principal. Estaremos voltando aos tristes tempos da pornochanchada do cinema brasileiro dos anos 70, onde anões e gays caricatos eram presença obrigatória? A conferir.

Nas séries, de maneira geral, cada vez mais ação e melodrama. Querem nos tirar o fôlego para ver se não percebemos a falta de substância e a pobreza dramatúrgica que nos estão sendo oferecidas.

Porcaria por porcaria, escolha qualquer um dos inúmeros e dispensáveis talk shows que vicejam em qualquer canal que for sintonizado.

Ironia das ironias, é um humorístico que se destaca como o melhor de todos os programas de conversa em exibição hoje na televisão pátria: o Lady Night, no Multishow. Mesmo conduzindo uma paródia e metaprograma, Tatá Werneck logrou, entre outras proezas, deixar Neymar completamente à vontade (mesmo criticando abertamente sua duvidosa visão sobre moda e estilos de corte de cabelo). Conseguiu até arrancar dele uma quase declaração de amor para a musa Bruna Marquezine. É o oposto diametral do programa do Bial que, por se levar a sério demais, não convence - e nem decola.    

Definitivamente, o melhor da TV mundial não está sendo oferecido para o telespectador brasileiro. Primeiro, porque o melhor não está sendo feito aqui. Segundo, porque o que há de melhor não chega até nós - quer seja por incompetência dos departamentos de compras das emissoras, quer seja por pura preguiça ou desinteresse.

Como exemplo, posso citar cinco grandes séries que estão sendo solenemente ignoradas pela TV brasileira (aberta e por assinatura):

- The Handmaid's Tale: o grande sucesso do ano, vencedor principal do prêmio Emmy, baseado no livro da canadense Margaret Atwood. Uma distopia que discute o papel da mulher na sociedade e o perigo do discurso fascista que volta com força total nos dias de hoje e ganha cada vez mais adeptos no mundo;

- Unforgotten (já na segunda temporada): série policial inglesa de rara delicadeza. A partir da descoberta casual de ossadas, faz uma conexão entre passado e presente com questionamentos existenciais que não se vê em outros trabalhos do gênero. "Como alguém que cometeu um assassinato e não foi pego consegue viver uma vida inteira escondendo isso?" é uma das perguntas que surgem durante o processo de investigação. Por lidar com crimes cometidos há trinta, quarenta anos atrás, nos faz pensar em quem éramos e no que nos tornamos, além de nos ensinar que a justiça não pode ter prazo de validade. Uma espécie de Cold Case, porém, com alma;

- Fargo: baseada no espírito do filme homônimo dos Irmãos Coen, um tratado sobre o crime e o acaso. Com histórias e personagens diferentes a cada novo ano, discute em sua terceira temporada a era da pós-verdade em que vivemos hoje. Apenas a primeira temporada foi exibida no Brasil;    

- Victoria (já na segunda temporada): narra o inicio do longo reinado da rainha Victoria, apenas uma adolescente quando ascendeu ao trono da Inglaterra. Tem política, tem romance, tem intrigas dos bastidores do poder. Ganha disparado de The Crown, a série sobre sua bisneta, a Rainha Elizabeth II (por ter muitos personagens ainda vivos, às vezes a condescendência com eles acaba mascarando um pouco os fatos históricos);

- Berlin Station (já na segunda temporada): Esqueça James Bond e The Americans. Esta série apresenta com verossimilhança e inteligência o que é ser espião no mundo pós guerra fria e depois da queda do Muro de Berlim - sem as piruetas fantasiosas de Homeland;

Televisão na internet

A partir do momento em que os serviços de streaming começaram a produzir suas próprias atrações tudo ficou mais complicado para as emissoras de televisão tradicional. Se no princípio já parecia ser uma revolução a quebra do hábito da grade de programação, imagine quando além do conceito, a internet passa a concorrer com produtos exclusivos.

Já disponíveis no Brasil, Netflix e Amazon Prime estão fazendo bonito. O primeiro com programas da estatura de Better Call Saul, Black Mirror ou Narcos e o segundo com American Gods e Transparent, por exemplo. A própria The Handmaid's Tale é uma produção original do serviço de streaming ianque Hulu. O prestígio que a HBO atingiu nos anos 90 (Sopranos e Six Feet Under, entre outros) está agora nas mãos dos serviços de streaming.

Novos modelos de distribuição também estão sendo testados. Mesmo sendo produzidas por canais norte americanos, duas das mais esperadas estreias de 2017 são exibidas em outros países pelo Netflix, com uma diferença de menos de 24 horas após cada episódio ir ao ar nos EUA -  Twin Peaks e Star Trek Discovery.

A internet no Brasil é finalmente um fato irrecorrível. Em menos de dez anos, o acesso a ela conseguiu crescer consideravelmente e hoje já atinge dois terços de toda a nossa população. E é irrecorrível também que, cada vez mais, estejamos escolhendo assistir TV pela internet - inclusive para poder fugir da porcaria da TV aberta (e muito da TV por assinatura também).

Durante a ditadura militar, dizia-se que a única saída para o Brasil era o aeroporto. No caso da nossa TV, a única saída é a internet.

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

EMGE

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