Brasil

23/11/2017 | domtotal.com

Muito além da nuvem cigana

E por que me ocupo de Charles e Chacal principais expoentes da "Nuvem Cigana", o grupo que fundaram?

Charles Peixoto tornou-se um dos nomes mais expressivos da dita poesia marginal brasileira
Charles Peixoto tornou-se um dos nomes mais expressivos da dita poesia marginal brasileira (Reprodução)

Por Ricardo Soares*

Charles Peixoto ou simplesmente Charles é um poeta e roteirista brasileiro. Charles, ao lado de Ricardo de Carvalho Duarte, conhecido como Chacal, tornou-se um dos nomes mais expressivos da dita poesia marginal brasileira que começou ali pelos idos do começo dos anos 70 e teve grande força até o final dessa década e começo da de 80.

E por que me ocupo de Charles e Chacal principais expoentes da "Nuvem Cigana", o grupo que fundaram? Para dizer que atrás dessa história tem outra história a ser contada e que nunca foi. Em virtude da arte de fazer amigos e influenciar pessoas o grupo "Nuvem Cigana" que surgiu em meados dos anos 1970, como uma editora de poesia e arte se desdobrou em encenações , ambientações e ações desenvolvidas em torno da palavra falada, se espalhou pela cidade maravilhosa, através de partidas de futebol e até blocos de carnaval, trazendo irreverência e ocupando espaços públicos em plena vetusta ditadura militar. Seus feitos já foram contados em prosa e verso e no filme “As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana" . 

A capilaridade e a doce irreverência que embutia com a presença inclusive de letristas da MPB ( como Ronaldo Bastos e Bernardo Vilhena) emprestou ao grupo uma notoriedade e um holofote que faz supor que eles e apenas eles foram o movimento de poesia marginal no Brasil. Um mito que foi sedimentado por gente da Universidade como Heloísa Buarque de Hollanda que escreveu "Impressões de Viagem"  (CPC, vanguarda e desbunde :1960/70) e principalmente o "26 poetas hoje" uma antologia parcial dos poetas e poemas daquele tempo. Com indefectível sotaque carioca em tudo isso.

Sem nenhum bairrismo embutido nessa crônica devo dizer que a poesia marginal dos anos 70 foi muito além da "Nuvem Cigana" e de Torquato Neto, Chico Alvim e Ana Cristina César. Fosse em Brasília onde atuava com força e inventividade o poeta Nicolas Behr (aquele do livro "Chá com Porrada") ou fosse em São Paulo o fenômeno "poesia marginal" corria solto e não teve a sua história completa contada até hoje.

Diante dos meus amáveis leitores quero antecipar pois que ao lado da poeta e editora Thereza  Rocque da Motta inicio  um lento e gradual movimento de restauração-  iconográfica inclusive- daquele período  a bordo da organização de uma antologia que cubra o que fizeram os poetas fora do universo gravitacional da Nuvem Cigana naquele período. Não é pois um movimento de negação ao que eles fizeram e sim uma complementação. Não pode ficar no esquecimento a efervescência poética daquele período  (fundamentalmente entre 1977 a 1982) onde grupos em São Paulo  como Pindaíba, Sanguinovo e Poetasia ( do qual fui um dos fundadores) causaram alvoroço com chuvas e passeatas poéticas, lançamentos de dezenas de livros e antologias , recitais, happenings e montagem de estandes de autores independentes nas Bienais Internacionais de livros. Há registros disso em arquivos de jornais , revistas, rádios e tvs. Mas pouco ou quase nada isso é lembrado no universo livresco. Só quero reparar assim, digamos, uma "injustiça histórica".

 As nuvens poéticas daquela época não eram apenas ciganas. Iam além e inspiraram até outros grupos como Poeco que surgiu dentro do ventre da baleia conservadora que era a Universidade Mackenzie . A irreverência e  a poesia sem freios de boca cabia em qualquer lugar. Nas universidades conservadoras ou mesmo na Baixada Santista onde outro grupo , Picaré, também lançou suas redes em busca de peixes poéticos. Foi ,é bom que se diga, uma bela pescaria à época. Muito além das praias cariocas . 

Aconteceram com força em São Paulo e em muitos outros estados do Brasil. Recebíamos como catalisadores do movimento contribuições de todos os recantos. Fatos que são necessários de se recuperar para provar que a poesia alternativa brasileira não surgiu hoje como acreditam muitos jovens poetas e como crêem muitos acadêmicos com os faróis voltados apenas para as reluzentes luzes da "Nuvem Cigana". Era uma época singular, cheia de vagalumes e lusco fuscos  e estou pessoalmente empenhado em fazê-la mais lembrada. Voltarei ao tema. Saudações poéticas.

*Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários. Foi um dos fundadores do Grupo Poetasia em 1978

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