Religião

08/06/2018 | domtotal.com

O medo (as mudanças) e a fé

Vivemos tempos de transformações importantes e a Igreja não está isenta delas

Dentre as coisas que mais assustam, a mudança é provavelmente a primeira na lista.
Dentre as coisas que mais assustam, a mudança é provavelmente a primeira na lista. Foto (Reprodução/ Pixabay)

Por Javier Celedón Meneghello*

Nos Evangelhos é muito recorrente perceber que o medo e a fé são antagonistas.  Para Jesus, o contrário da fé não é a incredulidade, mas o medo (por ex. Mc 4, 38-40; Jo 14, 27; Mt 14, 26-27; etc).  Os textos bíblicos nos mostram que Jesus intuía, inclusive antes de sua morte, que o medo pode ser o maior obstáculo para viver uma fé ao modo de seu entendimento.  De fato, não foi essa razão a que fez com que os poderosos matassem Jesus? Não foi a perplexidade perante o desconhecido e o “não permitido” que levou os poderes religioso e político a se aliarem para eliminar àquele que abalava a ortodoxia religiosa? Foi o medo, e o medo institucionalizado, que levou Jesus à cruz.

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Como crentes devemos voltar uma e outra vez a ouvir as palavras de Jesus: “não tenhais medo”. E devemos fazê-lo justamente porque o medo é algo frequente e comum nas nossas vidas. Ele, em si, não é algo ruim; inclusive, poderíamos pensar que é necessário: o medo é um instinto que nos mantém atentos e alertas perante coisas que experimentamos como inseguras. O problema não é “ter medo”. A dificuldade e o perigo estão em que este pode levar-nos a ter atitudes inconvenientes e tomar decisões erradas.

Dentre as coisas que mais assustam, a mudança é provavelmente a primeira na lista.  Isto se deve ao modo em que os seres humanos estamos no mundo: a diferença dos animais, que estão quase inteiramente regidos pelos instintos, os seres humanos precisamos criar “lugares seguros”.  Hábitos, normas e costumes são o resultado desse esforço criador, de onde surgem também as instituições que orientam e governam nossa vida em todas as dimensões.  Precisamos destas estruturas que nos permitem crescer, aprender, amar e viver.

Entretanto, o ser humano muda. Ao longo da vida pessoal, estamos sujeitos a experimentar transformações. Elas fazem parte do que somos: evita-las é não estar abertos à vida ou a ação do Espírito, pois, como disse Jesus, “o Espírito sopra onde quer” (Jo 3,8).  Aliás, acaso não foi esse um dos aspectos principais do ministério de Jesus? Mostrar que, de fato, em determinadas circunstâncias é necessário mudar as próprias perspectivas e se abrir a novas possibilidades de compreensão?  Para Jesus, um dos problemas dos homens de fé de seu tempo era que estes tinham enrijecido a mensagem sagrada, atrevendo-se a dizer o “que era de Deus” e o que “não era de Deus”.  Como aparentemente a mensagem de Jesus “não era de Deus”, foi necessário executá-lo.

Pois bem, vivemos tempos de transformações importantes, e a Igreja não está isenta delas. Inclusive, quem conhece sua história sabe que sua sobrevivência tem sido possível em parte graças ao fato de que, em determinadas circunstâncias, soube se adaptar e flexibilizar. Não sem grandes tensões e lutas (pois sempre existiu a turma do “sempre foi assim” e do “isso não é de Deus”), a Igreja consegue, embora tardiamente, se adaptar.

Para concluir, dois exemplos. A semana passada Dom Total publicou que um grupo de leigos católicos LGBT teriam seu segundo encontro nacional. Publicou, também, a notícia de que o cardeal Ladaria – prefeito da congregação para a doutrina da fé - considera que o “não” à ordenação de mulheres é definitivo.  Depois de ler os comentários no Facebook de ambas notícias fica em evidência que tais assuntos despertam reações e opiniões que ultrapassam a racionalidade. Parece que secundar os paradigmas tradicionais do que significa o amor e a sexualidade e do lugar da mulher na Igreja assusta.

Ter medo não é ruim; ele faz parte da vida pessoal e da coletiva.  No entanto, à luz do que foi pregado por Jesus, sabemos que este pode ser um grande obstáculo para a chegada do Reino. Estamos fadados a sentir e experimentar medo e provavelmente todos, em alguma ou outra ocasião, tenhamos tomado decisões embasadas neste instinto. Todavia, o exemplo de Jesus mostra um caminho: fé, não medo; coragem, não desânimo; abertura, não teimosia.

*Javier Celedón Meneghello é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia e mestrando em Sociologia e Antropologia

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