Religião

08/06/2018 | domtotal.com

Madonna, Heidegger e o medo de ser nas igrejas

Ninguém quer viver sob o jugo do medo e do desprazer que ele pode causar, por isso a anestesia mais rápida acaba lucrando

Objetivo do filme 'Truth or Dare' era provocar a sociedade e dar visibilidade a um tema que faz parte da vida para que ele seja melhor aceito e melhor vivenciado pelas pessoas.
Objetivo do filme 'Truth or Dare' era provocar a sociedade e dar visibilidade a um tema que faz parte da vida para que ele seja melhor aceito e melhor vivenciado pelas pessoas. Foto (Reprodução)

Por Vitor Júnio Félix Fernandes*

Te parece importante olhar sempre em direção ao que a vida tem de prazeroso e de bom? A maioria das pessoas deve acreditar que sim e tenta cumprir essa prescrição de que o bom da vida é ser feliz. Em sã consciência é difícil discordar disso. O imperativo da felicidade e do prazer é forte. Sem perder de vista essa sanidade, recuperemos um item significativo: que lugar damos ao medo? E ainda: que temos feito com o medo nas igrejas?

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A razão para o império do prazer pode estar no fato de o desagradável ser “naturalmente” repulsivo e de nosso tempo propor o reinado da alegria. Cada pessoa tem suas próprias definições do que seja prazeroso e algumas delas são excludentes entre si. Da mesma forma, o medo tem várias nuances e aspectos diferenciados entre os indivíduos. Ainda que ele habite na seara do desprazer, é importante recordar seu sentido.

Um filósofo alemão de família e história religiosas do século XX, Heidegger, afirmou que o medo está relacionado à percepção de alguma ameaça e ao estranhamento. Tememos aquilo que não dominamos e que nos ameaça e só tememos aquilo que, sem podermos dominar, de nós se aproxima. Faz sentido, não é mesmo? Pergunte-se, por exemplo, o que te causa maior sensação de medo: perder seu trabalho e ficar entre os 13 milhões de desempregados no Brasil atual ou contrair sífilis? Sua resposta será dada com base na distância (que pode ser geográfica, temporal ou social) entre você e o elemento causador do medo e com base na sua capacidade de controlar esse elemento[1]. Se você está informado sobre os métodos preventivos das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e os pratica, provavelmente terá mais medo de ficar desempregado do que doente. Ou talvez tenha algum medo latente ou mais profundo com relação a esses temas, pois sabe que a possibilidade é sempre real, ainda que com muita prevenção (seja da sífilis ou do desemprego). Temos então que o medo nos lembra o fato de estarmos profundamente abandonados às possibilidades e de sermos os responsáveis por construir o que precisamos para nos realizar na vida. Ele é um traço de humanidade a partir do qual podemos paralisar ou realizar a nós mesmos.

Diferentemente do que se costuma publicar nas redes sociais (sorrisos, beleza e coragem), o medo faz parte da vida e ocupa nosso cotidiano. Nas religiões costuma-se propor responder a ele com a fé. O budismo, por exemplo, busca praticar a meditação e a aceitação daquilo que não se pode dominar e que causa medo. Parte do cristianismo também segue a mesma linha. Para isso, é necessário discernir o que se pode compreender, dominar e transformar e o que é mistério radical ou circunstancial. Com esse discernimento, dão-se respostas de fé para crer e celebrar o indominável, o intangível que pode tanto ser Deus (para os que creem) quanto o amor, o perdão e a amizade.

Por outro lado, e infelizmente, é senso comum o conhecimento de que as instituições religiosas cristãs se utilizaram do medo por muito tempo e muitas ainda o fazem. Ao invés de uma fé que lança o sujeito na existência com seus gozos e dores, o que se fez e o que se faz nesses lugares é causar medo, consagrando-o como o centro da fé. Assim, convidam os fiéis pelo temor, propondo curá-los, libertá-los, salvá-los. E nem precisam dar nome aos temores, isso fica a cargo do próprio fiel que vai aos tais templos para ser “descarregado”, “alvejado” e “libertado”.

Nas igrejas, na política ou nas escolas, o sucesso desse marketing é certeiro! Como já apontamos, ninguém quer viver sob o julgo do medo e do desprazer que ele pode causar, por isso a anestesia mais rápida acaba lucrando. Infelizmente, como não chegam a realizar os indivíduos na compreensão de si mesmos e do que os amedronta, essas curas perdem o efeito com rapidez e precisam de manutenção constante e prolongada, donde nascem outros impérios religiosos e medrosos de nosso tempo.

Algumas figuras carismáticas responderam bem tanto ao medo em geral quanto ao medo nas religiões. Você pode estar pensando no próprio Jesus, em Buda, Gandhi, no Papa Francisco ou... na Madonna. Não a Virgem Maria, que superou o medo de assumir uma gravidez fora do casamento e com fé e boa companhia fugiu de grandes perigos para criar seu filho. A Madonna em questão é a da década de 1990, estrela do pop mundial. À época, a artista gravou o documentário “Truth or Dare” (“Verdade ou Consequência”) de uma turnê sua, na qual ela se apresenta como “deusa do sexo”. A cantora foi bastante criticada e até processada por mostrar o cotidiano de bailarinos gays durante a turnê e por propor o entendimento de que o corpo e a sexualidade, sendo homo ou hetero-afetivos, fazem parte da vida, estão próximos de nós e não são dignos de medo, mas de regozijo e felicidade. Num outro documentário, “Strike a pose”, de 2017, Madonna e um dos bailarinos afirmaram que o objetivo do filme “Truth or Dare” era provocar a sociedade e dar visibilidade a um tema que faz parte da vida para que ele seja melhor aceito e melhor vivenciado pelas pessoas.

Muitos foram os grupos paralisados pelo medo, incapacitados de se lançar na existência: mulheres em geral, “mães solteiras”, gays, lésbicas, transexuais, negros.  A fé acaba sendo uma faca de dois gumes para muitos deles, ela tanto liberta para a vida quanto amedronta e paralisa.

Madonna, Papa Francisco, pessoas gays, mulheres, mães e qualquer ser humano, na singularidade de sua existência, passa pelo medo. Isso não significa que estejamos obrigados a encará-lo de uma única forma. Em alguma religião ou fora delas, faz todo sentido o entendimento de Heidegger e Madonna de que o medo pode nos lançar à vida quando é entendido como objeto de reflexão e pode ser superado com um lembrete: somos responsáveis pela realização humana e isso inclui compreender a vida com os medos que ela nos traz.

Não seja o medo um meio para instrumentalizar a fé ou a causa dalguma paralisia. Demos a ele o lugar de oportunidade para realizar a vida e construir o abrigo de nossos sonhos.

[1] Isso pode ser a explicação para o aumento de casos de Sífilis nos últimos anos: as pessoas perderam o medo por acreditarem que poderiam controlar a doença sem se comprometer.

*Vitor Júnio Félix Fernandes, graduado em Filosofia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. É professor de Filosofia e Sociologia no Colégio Eccellente e integrante do projeto "BH de mãos dadas contra a AIDS", onde atua na educação e promação dos Direitos Humanos.

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