Religião

06/07/2018 | domtotal.com

Feliz quem acredita na fé do 'ver para crer' de Tomé

A demonstração de Jesus do lado aberto aos discípulos é uma alusão à fonte da vida de onde jorra o Espírito que é comunicado.

O 'ver' não é o único caminho nem o mais importante para levar à confissão e anúncio de Jesus ressuscitado.
O 'ver' não é o único caminho nem o mais importante para levar à confissão e anúncio de Jesus ressuscitado. Foto (Reprodução/ Pixabay)

Por Flávia Gomes*

No evangelho de João (20,19-31) lemos a narrativa pormenorizada sobre Tomé, um dos doze discípulos de Jesus, na continuidade à descrição dos acontecimentos do mesmo dia, o primeiro da semana, em que Maria Madalena vai ao sepulcro e vê que a pedra que o fechava está removida. Simultaneamente nasce a fé na ressurreição quando João não apenas constata o túmulo vazio, pensando na retirada do corpo por algum jardineiro como Maria, mas vendo os panos mortuários, o discípulo amado crê. O leitor do evangelho, nesse momento, lembra-se de que Lázaro se levantou do túmulo amarrado nas faixas mortuárias, das quais os circunstantes deviam desatá-lo para que pudesse caminhar (cf. 11,44). No caso de Jesus a situação encontrada no túmulo deixa transparecer a plena soberania daquele que “tem poder de retomar a vida” (Jo 10,17-18). O discípulo que mais compartilhou o amor de Jesus vê e crê. Até então não tinham compreendido as Escrituras que anunciam a ressurreição de Jesus dentre os mortos.

Leia também:

Maria Madalena, que enquanto ainda está escuro vai ao túmulo para derramar suas lágrimas no sepulcro do Mestre amado, agora sem saber o que os discípulos viram e concluíram, após avisar Pedro e João, encontra-se com Jesus, e apenas depois que ele a chama pelo nome, ela o reconhece exclamando “meu grande Mestre”, “meu Mestre querido!”. Jesus adverte Maria para que não o segure, mas anuncie à comunidade que ele “sobe” – não pensando somente na trajetória de Jesus enquanto descida-subida, mas também na entronização, subir ao trono - à glória do Pai. Instada a não segurar Jesus é levada a compreender que a ressurreição é “sinal” - e não maneira de Jesus continuar entre nós como antes - de que Jesus, em virtude de sua irrevogável morte por amor fiel, é agora o Senhor que vive, participa da glória de Deus e derrama sobre nós a paz, o Espírito, a remissão do pecado (20,19-23), que são dons de Deus. A partir dessa compreensão, do desafio de não segurar Jesus, isto é, de não ficar olhando para o dedo e sim para o que ele aponta, Maria, a primeira mensageira da nova comunidade, é enviada a transmitir a realidade da ressurreição aos discípulos. Ela anuncia que viu o kýrios, o Senhor, dando ao termo a mesma força do nome de Deus no Antigo Testamento: aquele que está aí, o “Presente”! Ela vê o Mestre e anuncia Jesus ressurreto.

João passa a descrever um novo episódio deste mesmo dia que já não está escuro como quando Maria se dirige ao túmulo de Jesus, – o que insinua ausência de entendimento, da luz plena – agora, porém, já entardeceu e isso sugere que os cristãos já estavam dedicando todo o “primeiro dia” à memória do Senhor, distanciando-se completamente do sábado judaico. Como o do sepulcro vazio, também este episódio é desdobrado em duas cenas, uma envolvendo o grupo dos doze, sem Tomé, e outra com a presença de Tomé.

Neste dia da nova Páscoa da comunidade cristã, o mesmo primeiro da semana de tardinha, o lugar do novo episódio não é o sepulcro, mas o espaço da comunidade. Os discípulos estão reunidos e João enfatiza as portas trancadas para fazer referência ao medo de perseguição por causa da relação com Jesus, o sentenciado à morte de cruz. Esse tema do “medo” evoca a situação da comunidade joanina em relação à sinagoga (9,22). A aparição de Jesus (20,19-23) é uma mensagem de reconforto para a comunidade do fim do século I e de todos os tempos. Os apóstolos reunidos com as portas trancadas por medo dos judeus e de repente Jesus entra e se coloca no meio deles e diz: “A paz esteja convosco”, que para além de uma saudação comum tem conotações da manifestação da realidade divina. Jesus mostra as mãos e o lado perfurados (cf. 19,35) se identificando como aquele que passou pela morte de cruz, isto é, mostra a identidade entre o crucificado e o glorificado recordando o sentido salvífico da cruz. Os discípulos se “alegram” (cf. 16,21) ao ver o Senhor e, em João, é dado o mesmo sentido da paz à alegria como dom escatológico anunciado nos discursos de despedida (cf. 14,27; 15,26; 16,7 etc.). A paz e a alegria contrastam com o medo dos discípulos e implica também em realização das promessas anunciadas por Jesus na hora da despedida: os seus haviam de revê-lo (14,19;16,16s) com alegria (16,21s.24; cf. 15,11), e ele lhes daria a sua paz (14,27). Com um gesto que lembra a ação de Deus na criação, Jesus sopra, insufla sobre eles (cf. Gn 2,7) comunicando-lhes “espírito” (sem artigo) da parte de Deus. É sopro divino, vida nova que recebem. É uma nova criação, a vida que tem outra força que antes. A comunicação do Espírito está, em João, intimamente relacionada com a morte de Jesus, - entendida como “enaltecimento” - pois sugere essa ligação quando diz que Jesus vai embora para vir seu substituto e ao declarar que o Espírito é como a água que sai da fonte da vida, presente no Jesus enaltecido na cruz, que ao ser ferido por um soldado que lhe abriu o lado com um golpe de lança jorra sangue e água (19,34). A demonstração de Jesus do lado aberto (20,20) aos discípulos, além das mãos, não tem apenas o sentido de constatação da identidade do ressuscitado, mas é uma alusão à fonte da vida de onde jorra o Espírito que agora é comunicado.

Em tudo isso que acontece mediante a aparição de Jesus aos discípulos, Tomé não está presente, nada vê. Ele é mencionado como “um dos Doze”, identificação que João não faz nas cenas anteriores com os demais e, além disso, no resto do evangelho só Judas é designado como pertencendo aos Doze e isso igualmente em relação com o crer (6,70s.). Com a nova cena, sobre Tomé, João aprofunda o sentido da fé daqueles que são chamados os Doze, as testemunhas da primeira hora.

Neste viés, os outros discípulos contam a Tomé sua visão do Ressuscitado. Ele afirma que precisa verificar e tocar as marcas dos pregos nas mãos de Jesus bem como colocar a mão no seu lado para crer. Ao contrário do que imediatamente se pode pensar, a exigência de Tomé não é algo abominável. “Oito dias depois” do primeiro dia da semana (v. 19) – o que confirma que para a comunidade joanina esse dia já é uma instituição – no mesmo lugar e diante do mesmo público, enriquecido agora com a presença de Tomé, novamente Jesus entra apesar das portas trancadas e se coloca no meio dos discípulos e saúda-os igualmente com “a paz esteja convosco”. Ele, então, convida Tomé para fazer a constatação que havia exigido aconselhando-o a não ser incrédulo, mas a acreditar. Geralmente entende-se que Jesus mostra suas chagas para que Tomé acredite, mas, na cena narrada em Lucas, nem mesmo vendo e apalpando os apóstolos creram. Isso confere ao “teste” de Tomé uma conotação de inutilidade, aliás, ele não o executa. Tomé não apalpa as chagas de Jesus como este mandou (isso seguiria à lógica do “não segurar” dito a Maria, pois o ressuscitado é mero sinal), mas dá ouvidos à última parte da sua fala que pode ser traduzida assim: “Opta pela fé, não pela incredulidade”. Tomé expressa sua fé com a mais plena profissão de fé que o Quarto Evangelho contém: “Meu Senhor e meu Deus”. Porém, nesta cena com a presença de Tomé, evidencia-se que o “ver” não é o único caminho nem o mais importante para levar à confissão e anúncio de Jesus ressuscitado. “Porque me viste, creste (frase assertiva ou interrogativa); felizes os que não viram, e, contudo creram”, é o que Jesus diz a Tomé. Antes que censurar, aprova-se quem crê pelo sinal que vê, afinal, a compreensão das Escrituras e o anúncio primeiro da ressurreição se conformou pelos que proclamaram do que viram. Ver para crer tem o seu valor (em outros momentos Jesus afirma que mesmo vendo-o não acreditavam cf. 6,36), porém, um valor relativo e provisório por ser possível apenas aos daquele tempo específico. Decerto, também o discípulo amado viu e creu. O “ver e crer” é algo concedido às primeiras testemunhas. No entanto, objeto de bem-aventurança, ao invés, é a fé sem ter visto, isto é, os leitores do evangelho de qualquer tempo recebem uma mensagem de esperança na possibilidade de encontrar Jesus ressuscitado através do testemunho dos que viram, creram e anunciaram. João usa o termo makários (“feliz, bem-aventurado”), que não lhe é costumeiro; sugere o olhar favorável de Deus sobre alguém, aqui especificamente, sobre quem crer sem ver, isto é, é o crer que é possível para os fiéis das gerações ulteriores, depois das testemunhas da primeira hora. A palavra de Jesus, ao invés de repreender Tomé, é estímulo, conforto e promessa para os que não podem ver os panos, o ressurreto, os das futuras gerações. Não são fiéis de categoria inferior, pois também a eles (a nós) pertence a plenitude do dom escatológico, a bem-aventurança.

O discípulo amado viu e creu, Madalena quis segurar Jesus e também anunciou depois de ver e ouvi-lo, Tomé é um dos Doze, o autor de 1Jo 1,1 se respalda no ter visto e apalpado. Este “ver” essencial, que inclui a exigência de Tomé, serve para a missão de anunciar a ressurreição e de formular a fé pascoal, como Tomé faz de modo exemplar. Mas, a todos das gerações ulteriores também uma dádiva especial: a bem-aventurança é para os que crerão sem este privilégio de ver! Somos bem-aventurados, temos o olhar favorável de Deus por crermos no testemunho dos que viram, creram e anunciaram. Portanto, alegremo-nos e anunciemos o sopro da nova vida em nós por Jesus ressuscitado!

*Flávia Gomes é especialista em teologia bíblica, mestre em ciências da religião e graduanda em filosofia.

TAGS




Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outras Notícias

Não há outras notícias com as tags relacionadas.