Religião

06/07/2018 | domtotal.com

Fé e dúvida: Fundamentos opostos ou caminhos para o conhecimento?

É por ter como objeto de estudo 'questões intangíveis' que as narrativas sobre o divino cada vez mais se tornam pulverizadas, fracas e 'questionáveis'.

Fé e dúvida não são inimigas ou antagônicas, mas forças da natureza humana que impulsionam para a busca da verdade das coisas.
Fé e dúvida não são inimigas ou antagônicas, mas forças da natureza humana que impulsionam para a busca da verdade das coisas. Foto (Reprodução/ Pixabay)

Por Daniel Couto*

A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade.
(Fides et Ratio, São João Paulo II, 1998)

Na história do pensamento ocidental, a querela entre fé e dúvida aparece como um dos tópicos fundamentais para o desenvolvimento das teorias filosóficas e para a determinação dos paradigmas que serão utilizados na constituição das ciências diversas. Na liberdade de questionar as teorias apresentadas e no movimento constante de revisão dos próprios métodos, tendo a dúvida como impulso, é que alcançamos um elevado índice de desenvolvimento tecnológico a partir da idade moderna. A própria filosofia nasce do movimento crítico do mundo, questionando as respostas apresentadas e tomando a dúvida como ferramenta metodológica primaz.

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Quando retomamos a caminhada da dúvida na história da filosofia, encontramos nas escolas gregas dois movimentos em constante diálogo: os céticos e os dogmáticos. Enquanto os céticos questionavam os saberes estabelecidos e tinham como máximas a suspensão do juízo e a tese da inapreensibilidade das coisas, os dogmáticos acreditavam que existiam verdades primeiras sobre as quais poderiam construir todo o seu sistema filosófico. Mesmo que essas verdades fossem alcançadas a partir da própria filosofia, os céticos acusavam os dogmáticos de ingênuos, da mesma maneira que estes acusavam os primeiros de hipócritas. Este conflito se ameniza um pouco quando filósofos ecléticos começam a intercalar teses de ambas as escolas e propor uma divisão entre aquilo que se pode conhecer como verdadeiro tal como são de fato (âmbito ontológico e epistemológico), e os assentimentos que damos, com impulsões de ação, na vida cotidiana. Em outras palavras, determina-se uma categoria de dúvida que está no âmbito do intelectual e conceitual, e uma dúvida sobre a vida comum, que diz respeito à ética, linguagem, costumes e crenças.

Quando o pensamento cético é retomado na idade média, principalmente na transição para a modernidade, a separação passa a incluir, também, as questões relacionadas a fé. Aqui percebemos que uma categorização da “fé” como objeto de estudo que não pode ser questionado, afasta a teologia do novo método cientifico que se estabelece, mas, ao mesmo tempo, preserva uma fundamentação cultural que proporciona a própria possibilidade do “ceticismo”. Falando especificamente do cristianismo ocidental, no contexto da reforma protestante, o ceticismo ganhou muita força, partindo da supervalorização da razão, dentro da formulação teológica dos protestantes. Se o cristianismo romano tinha a seu favor a tradição, a vida da Igreja e a interpretação colegiada da “revelação divina”, os protestantes desenvolviam teses a partir da letra dura da sagrada escritura, com argumentações críticas e “racionais”. Em resposta, os apologetas católicos assimilaram o ceticismo em sua teologia, colocando o discurso divino em um patamar diferente das investigações racionais que a mente humana era capaz de desenvolver. O ceticismo que Montaigne, Charron ou Descartes, por exemplo, propõe deixar de fora os assuntos ligados à revelação da fé.

A partir desse resgate histórico, podemos nos perguntar como a dúvida e a fé se relacionam em nossa concepção hodierna. A postura cética prevaleceu no método cientifico contemporâneo, mas se revestiu de um dogmatismo velado que nos faz esquecer que em quase todos os casos se tratam de teorias. Vivemos tempos de confiança irrestrita nas ciências e, com isso, conseguimos guiar nossa vida cotidiana a partir do desenvolvimento e da pesquisa dos “cientistas”. Não somos céticos sobre a possibilidade de um avião voar, ou de que o processo de filtragem da água que chega em nossas torneiras seja suficiente. Seguimos nossas vidas e depositamos na tecnologia o nosso assentimento irrefletido. Por outro lado, cresce cada vez mais o número de céticos em relação aos “saberes transcendentes” sobre os quais as respostas não são tão diretas ou palpáveis quanto às outras ciências. É por ter como objeto de estudo “questões intangíveis” que as narrativas sobre o divino cada vez mais se tornam pulverizadas, fracas e “questionáveis”. É neste ponto que a dúvida fortalece a fé, em uma espécie de refino da experiência para que as respostas sejam assumidas como fruto de um processo e não “pré-estabelecidas” por um grupo “técnico”.

Por natureza, a fé religiosa estabelece uma relação entre os seres humanos e Deus[1], pressupondo uma abertura de ambas as partes para o diálogo. Esse diálogo, porém, não segue a mesma lógica adotada pela racionalidade da linguagem humana, uma vez que o divino supera em tudo, por sua própria definição, aquilo que é natural dos seres humanos. O contato acontece a partir das categorias humanas que, também em suas capacidades sensoriais e cognitivas, é impactado pela “manifestação divina”. Uma dessas capacidades é a razão, que vai organizar o discurso sobre a divindade a partir da sua limitação e, dessa maneira, exprimi-lo para os outros a partir da linguagem. Deus não está condicionado à linguagem e à razão humana, por isso essa sempre estará aquém da verdadeira natureza divina e todo discurso será insuficiente para dizer a “verdade” sobre o divino. Como os argumentos da fé não são suficientes, o espaço para a dúvida é mais do que claro, e os seres humanos o encontrarão pelo movimento da razão ao se questionar sobre os “discursos da fé”.

Com a razão tendo ação fundamental no estabelecimento do ceticismo em relação à fé, é somente através dela que o caminho reverso pode acontecer, levando o cético a acreditar nas proposições religiosas consciente de que elas não conseguem exprimir a “verdade” sobre Deus. É neste caminho de volta que a maioria dos discursos religiosos perde o vigor, pois precisam de uma adesão “cega” aos seus fundamentos e dogmas para sustentar sua postura. No exórdio da carta encíclica Fides et Ratio, de São João Paulo II, temos essa dupla natureza da alma humana em busca da verdade, que se configura como um impulso onde a dúvida e a fé trabalham juntas no jogo dialético interno da nossa alma. A razão do discurso religioso leva à contemplação da sua própria incapacidade de responder todas as questões do mundo e fundamenta no seu terreno sólido os argumentos que, posteriormente, serão abraçados conscientemente em um “salto de fé”. Desta maneira, reconstruímos a narrativa da fé a partir da perspectiva da universalização da razão e da contribuição de diversos logos que se debruçaram sobre a questão (trazendo a perspectiva da tradição e da comunidade), elencando na vida, no cosmo e na revelação aquilo que podemos dizer sobre o divino e o explicitando da “melhor maneira possível”.

Fé e dúvida, neste sentido, não são inimigas ou antagônicas, mas forças da natureza humana que impulsionam para a busca da verdade das coisas materiais, imediatas e palpáveis e das coisas que estão para além da nossa capacidade sensorial. Elas se complementam no processo investigativo e fortalecem o assentimento de uma “crença”. Os que aderem a fé pelo argumento de autoridade, pela simples tradição ou pela sensação epidérmica estão em um campo diferente dos que a depuraram pelo processo da dúvida, que se encontraram sem referências, que questionaram a possibilidade do próprio discurso da fé, mas que retomaram o caminho de forma racional para assentirem à “fé” de maneira mais genuína. Não há uma distinção de importância entre ambas, porque estão instaladas em lugares diferentes da psikhé humana. É por isso que podemos encontrar pensadores céticos, que colocam a dúvida como eixo da sua investigação intelectual, mas que conseguem aderir à fé de maneira autêntica. Aquele que nunca duvidou provavelmente não está, em seu processo de adesão, consciente do que assente, mas provavelmente encontra-se ludibriado pela força contagiante da idolatria.

[1] Neste artigo, tratamos a fé no recorte da experiência cristã ocidental. Sabemos que, em outras culturas e tradições religiosas, a sistematização do problema fé e dúvida pode se dar por outro caminho.

*Daniel Couto é mestrando em Filosofia UFMG/FAPEMIG

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