Religião

20/07/2018 | domtotal.com

Um tipo de amor raro

Ama-se (philia) o amigo pelo que ele é e não pelo que ele possa dar ou despertar.

A amizade (philia) se encontra na ordem das escolhas, daquilo que se constrói a partir de uma racionalidade e de um trabalho que envolve querer.
A amizade (philia) se encontra na ordem das escolhas, daquilo que se constrói a partir de uma racionalidade e de um trabalho que envolve querer. (Reprodução/ Pixabay)

Por Patrícia Simone do Prado*

Amor. Uma palavra, um significante com distintos significados.

Ao pensar sobre esse significante, tomamos emprestado dos gregos seus significados e encontraremos três formas ou manifestações:  ágape, philia e eros. No diálogo entre Jesus e Pedro (Jo.21:15-21) por exemplo, encontramos exemplos de duas dessas formas: o ágape e a philia. Mas, o que seriam essas formas e como elas dizem sobre nossas relações com o outro, com o mundo, com o Sagrado?

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Nesse texto, nossa busca será especificamente por uma dessas formas de expressão: a philia (ϕιλια ). Sobre essa, Aristóteles, em seu livro Ética a Nicômaco, aborda como algo ligado à ética que conduziria à felicidade. Nesse sentido, a amizade fala de relações sociais, sendo encontrada em formas distintas: a amizade que procura o útil, o prazer ou o bem.

Há, portanto, três espécies de amizade, em número igual às qualidades que merecem ser amadas [...], e quando duas pessoas se amam elas desejam bem uma à outra referindo-se à qualidade que fundamenta a sua amizade [...]. Logo, as pessoas que amam as outras por interesse amam por causa do que é bom para si mesmas, e aquelas que amam por causa do prazer amam por causa do que lhes é agradável. Sendo assim, as amizades desse tipo são apenas acidentais, pois não é por ser quem ela é que a pessoa é amada, mas por proporcionar à outra algum proveito ou prazer. Tais amizades se desfazem facilmente se as pessoas não permanecem como eram inicialmente, pois se uma delas já não é agradável ou útil a outra cessa de amá-la [...]. Portanto, desaparecendo o motivo da amizade esta se desfaz, uma vez que ela existe somente como meio para chegar a um fim. (E.N., VIII, 3, 1156 a, 8-28)

No livro Os quatro amores, C.S.Lewis aprofunda mais essa análise sobre o significante amor e nos apresenta um elemento a mais: o storge (στοργη) que estaria ligado à  ideia de afeto. A análise de C.S.Lewis leva-nos à conclusão de que o amor philia seria a forma mais nobre de manifestação, pois não depende de um outro ou de algo, como depende storge, ou nem de um amado, como no caso de eros, para que esse seja direcionado.

A Amizade, num sentido que não a deprecia de modo algum, é o menos natural de todos os amores; o menos instintivo, orgânico, biológico, gregário e necessário. Ela tem menos a ver com nossos nervos; não há nada de gutural no que lhe diz respeito, nada que acelere o pulso, faça você ficar vermelho ou empalidecer. Acontece essencialmente entre indivíduos. No momento em que duas pessoas se tornam amigas, elas de uma certa forma se isolam das demais. Sem Eros nenhum de nós teria sido gerado e sem a Afeição ninguém teria sido criado; mas podemos viver e procriar sem a Amizade. (LEWIS, 1960, p.88, tradução nossa).

Independente da forma como esse se apresenta, fato é que o amor carrega em si algo de necessidade, de procura e de doação. Ao pensar no amor, talvez as imagens que nos tomam a consciência sejam de algo sublime e virtuoso, capaz de mover o mundo em ações de desprendimento e abnegação. Mas, para cada uma dessas ações não estaria envolvido uma ausência? Para cada abnegação não haveria uma necessidade?

Interessante que aquele pelo qual o Amor se revelou nos convida, através de um chamado, a saciar uma necessidade: “vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados” (Mt.11:28). Vemos nesse chamado o amor sublime, tão bem exposto pelo escritor da 1ª Carta aos Coríntios (13). Mas, o que poderia ser dito sobre aquele amor chamado amizade, esse a qual Aristóteles classificou como uma virtude?

Se eros e ágape surgem em nós como algo próprio da natureza que aguarda o momento para o despertar, philia não seria algo tão natural, por isso poderia ser colocado entre um dos mais raros e difíceis de ser conquistado, pois diz respeito a algo que não se relaciona ao desejo, como seria o caso de eros, ou a uma necessidade saciada, como pode ser encontrado em ágape: philia se encontra na ordem das escolhas, daquilo que se constrói a partir de uma racionalidade e de um trabalho que envolve querer.

Talvez por isso seja tão raro encontros humanos que possam, de fato, serem classificados como philia, amizade. Imersos em uma forma de construção social que nos impulsiona a saciar nossas necessidades imediatas, seguimos em movimentos de procura por aquilo que nos satisfaz e não por aquilo que nos leva à descoberta do eu ao colocar individualidades como espelhos a se refletir.

Philia leva ao encontro, em primeiro lugar, de si para si e, somente depois, para o outro em um combate que envolve renúncias, aceitações, novas construções. E talvez seja por isso que esse tipo de amor seja tão raro: não se ama (philia) porque há uma atração, um desejo (eros) pelo que o outro desperta, não se tem o saciar que o amor (ágape) oferece, mas o amor (philia) se apresenta como sendo ele mesmo. Ama-se (philia) o amigo pelo que ele é e não pelo que ele possa dar ou despertar. E é justamente pelo que ele é que o outro permanece, caminha, doa-se.

 E nesse caminhar, o amor vai se tornando, pois não se deve pensar philia em uma via de mão única. Pensar assim nos levaria de encontro a storge, o amor de afeição. Philia é mais que storge: philia diz respeito ao andar juntos, ao construir juntos, ao participar dos combates que a vida nos apresenta diariamente juntos. É sobre ser e estar. É sobre um querer estar.

*Patrícia Simone do Prado é doutora em Relações Internacionais, mestra em Ciências da Religião, pedagoga e teóloga.

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