Religião

05/08/2018 | domtotal.com

Pão de vida eterna

Reflexão sobre a liturgia do 18º Domingo do Tempo Comum - João 6,24-35

Jesus apresenta-se como
Jesus apresenta-se como "Pão de vida eterna". (Reprodução/ Pixabay)

Por José Antonio Pagola*

Por que continuar a interessar-nos por Jesus depois de vinte séculos? Que podemos esperar Dele? Que nos pode contribuir aos homens e mulheres do nosso tempo? Irá, acaso, resolver os problemas do mundo atual? O evangelho de João fala de um diálogo de grande interesse que Jesus mantém com uma multidão na margem do lago Galileu.

No dia anterior partilharam com Jesus uma refeição surpreendente e gratuita. Comeram pão até saciarem-se. Como o vão deixar partir? O que procuram é que Jesus repita o seu gesto e os volte a alimentar gratuitamente. Não pensam em outra coisa.

Jesus desconcerta-os com uma abordagem inesperada: «Esforçai-vos não para conseguir o alimento transitório, mas o permanente, o que dá a vida eterna». Mas como não nos preocuparmos pelo pão de cada dia? O pão é indispensável para viver. Necessitamos e devemos trabalhar para que nunca falte a ninguém. Jesus o sabe. O pão é o primeiro. Sem comer não podemos subsistir. Por isso se preocupa tanto com os famintos e mendigos, que não recebem dos ricos nem as migalhas que caem da sua mesa. Por isso amaldiçoa os latifundiários insensatos que armazenam o grão sem pensar nos pobres. Por isso ensina os seus seguidores a pedir cada dia ao Pai pão para todos os seus filhos.

Mas Jesus quer despertar neles uma fome diferente. Fala-lhes de um pão que não sacia só a fome de um dia, mas a fome e a sede de vida que há no ser humano. Não temos de esquecê-lo. Em nós há uma fome de justiça para todos, uma fome de liberdade, de paz, de verdade. Jesus apresenta-se como esse Pão que nos vem do Pai não para nos enchermos de comida, mas «para dar vida ao mundo».

Este Pão, vindo de Deus, «dá a vida eterna». Os alimentos que comemos cada dia nos mantêm vivos durante anos, mas chega um momento em que não podem defender-nos da morte. É inútil que sigamos comendo. Não nos podem dar vida para além da morte.

Jesus apresenta-se como «Pão de vida eterna». Cada um deve decidir como quer viver e como quer morrer. Mas a quem nos chamamos seguidores Seus temos de saber que acreditar em Cristo é alimentar em nós uma força imperecível, começar a viver algo que não acabará com a nossa morte. Simplesmente, seguir Jesus é entrar no mistério da morte, sustentados pela Sua força ressuscitadora.

Ao escutar suas palavras, aquelas pessoas de Cafarnaum gritavam-lhe desde o fundo do seu coração: «Senhor, dai-nos sempre desse pão». Desde a nossa fé vacilante, por vezes não nos atrevemos a pedir algo semelhante. Talvez só nos preocupe a comida de cada dia. E, às vezes, só a nossa.

*José António Pagola é padre e tem dedicado a sua vida aos estudos bíblicos, nomeadamente à investigação sobre o Jesus histórico. Nascido em 1937, é licenciado em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma (1962), licenciado em Sagradas Escrituras pelo Instituto Bíblico de Roma (1965), e diplomado em Ciências Bíblicas pela École Biblique de Jerusalém (1966). Professor no seminário de San Sebastián (Espanha) e na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha (sede de Vitória), foi também reitor do seminário diocesano de San Sebastián e vigário-geral da diocese de San Sebastián.

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