Religião

17/08/2018 | domtotal.com

'Só posso rezar ao que desconheço'

A experiência particular de uma jovem com a religião pode contribuir na reflexão sobre a relação fé e vida de uma geração.

"Minha relação com a religiosidade realmente se perdeu há bastante tempo, mas isso não significou nunca desinteresse". (Reprodução/ Pixabay)

Diana Guerzoni, de vinte e quatro anos, natural de Aracati, no Ceará, concedeu-nos a seguinte entrevista, abordando sua visão a respeito da religião e da religiosidade em nossa sociedade contemporânea. Diana é graduanda em Letras, pela Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza. Numa perspectiva outside, em relação à religião oficial, Diana nos ajuda a refletir a partir de um lugar bastante marcante na contemporaneidade, bastante presente nas realidades juvenis.

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DT: De que maneira a religião apareceu em sua vida e como se deu e se dá a relação com esse aspecto?

A religião veio de nascença, por assim dizer. Nasci em berço católico, fui batizada e frequentei a igreja até a adolescência. A manifestação religiosa era, sobretudo, orar antes de dormir, tinha o costume de agradecer todas as noites por tudo que tinha acontecido. Foi uma relação que não lembro onde começou, mas terminou quando questionei a minha própria fé.

DT: Como você interpreta essa sua relação com o aspecto religioso? Ele se manifesta de alguma forma na sua vida atual?

Minha relação com a religiosidade realmente se perdeu há bastante tempo, mas isso não significou nunca desinteresse. À medida em que me afastei por não crer, me aproximei para procurar entender por meio da lógica. Talvez ainda haja um aspecto religioso me regendo, sobretudo na admiração que nutro pela fé, poucas coisas me encantam como essa entrega de corpo e alma ao divino, certo de ser ouvido e atendido. E ainda rezo, mas rezo como Clarice Lispector, que disse em um de seus livros: "Só posso rezar ao que não conheço. E só posso amar à evidência desconhecida das coisas, e só posso me agregar ao que desconheço. Só esta é que é uma entrega real."

DT: Há alguma importância para a religião nas sociedades contemporâneas?

Certamente há. Se o homem é esse monstro vivendo sob tantas cercas de religião, imagina só o que seria se não houvesse limites impostos pela fé em algo? O que eu ainda sinto falta é a integração e tolerância religiosa, apesar de no Brasil vivermos em teórico pacifismo, ainda há muita segregação e preconceitos com determinadas religiões, sobretudo em relação às que não são de matriz cristã. A fé em algum deus é, sem dúvida, um eficiente escultor de comportamentos sociais.

DT: Deus é uma ideia/realidade necessária, ainda hoje?

Sim, a ideia do divino ainda é e, pessoalmente acredito, que sempre será necessária. O homem por si só não se basta. Ainda que a ciência cresça e forme mais e mais ateus, a maioria dos homens restariam inconsoláveis sem a ideia de um ser anterior, superior, magnânimo e misericordioso. Ainda que a filosofia se amplie e torne mais suave o fardo de existir, a maioria ainda restaria coxo de um sentido superior à própria vida. Concluo com uma citação de Lispector: "Quanto mais precisarmos, mais Deus existe. Quanto mais pudermos, mais Deus teremos."

EMGE

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