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21/08/2018 | domtotal.com

Políticos brasileiros alimentam xenofobia na fronteira, diz pároco de Pacaraima

'Precisam pedir aos políticos responsáveis que, por favor, parem. Tudo isso está muito manipulado'

O pároco espanhol José Lopez Fernández de Bobadilla, em Pacaraima, Roraima, em 21 de agosto de 2018
O pároco espanhol José Lopez Fernández de Bobadilla, em Pacaraima, Roraima, em 21 de agosto de 2018 (AFP)

"Forças políticas tenebrosas" exacerbam "com discursos de ódio" as tensões migratórias no Brasil, antes de complicadas eleições, afirma Jesús López de Bobadilla, pároco dessa localidade fronteiriça onde, no último sábado (18), ocorreram violentos ataques contra refugiados venezuelanos.

"O Brasil está em uma situação política, econômica e social muito delicada, às vésperas de eleições, e tudo é aproveitado", reflete o religioso espanhol, de 77 anos, que está há nove em Pacaraima.

Mais de 1.000 venezuelanos que acampavam na pequena cidade do estado de Roraima foram expulsos no sábado por grupos de moradores que atearam fogo em suas barracas e roupas, além de persegui-los com paus e facas aos gritos de "Fora!", de acordo com relatos de várias testemunhas à AFP.

"O episódio desses dias foi planejado, não foi uma ação espontânea. Não tenho a menor dúvida. Existem forças políticas tenebrosas que se empenham em passar por cima das dificuldades do povo e aproveitar a xenofobia, que a cada dia é mais forte, como elemento válido para as eleições", disse, sem querer dar nomes, Bobadilla, que de segunda a sexta-feira oferece café da manhã a centenas de migrantes na modesta paróquia local.

"Precisam pedir aos políticos responsáveis que, por favor, parem. Tudo isso está muito manipulado. São muito irresponsáveis com seus discursos inflamados de ódio", advertiu.

Eleições

O Brasil celebrará em outubro eleições gerais. O favorito à Presidência no primeiro turno, na ausência do ex-presidente Lula, é Jair Bolsonaro (PSL), de extrema direita. Em Roraima, Bolsonaro inclusive superaria Lula, de acordo com uma pesquisa do Ibope divulgada esta semana.

A governadora de Roraima, Suely Campos, que tenta a reeleição, pediu em várias ocasiões o fechamento provisório da fronteira à entrada de venezuelanos, alegando que o estado não conta com recursos suficientes para atender tamanho fluxo de migrantes.

Campos, do Partido Progressista (PP), repudiou os incidentes e ordenou reforçar os efetivos de segurança, informou a sua assessoria.

Criminalidade e prostituição

De acordo com o padre Jesús, no início a população local acolheu os imigrantes. Mas a chegada de venezuelanos "criminosos, que vêm para se aproveitar da situação", aumentou o clima de violência e o repúdio aos estrangeiros.

"Os justos pagam pelos pecadores. A população, de certa maneira, ficou cansada de tanta violência, de tanta prostituição, de tanto assalto à mão armada, inclusive homicídios. E a xenofobia cresceu, também amparada nos interesses políticos", relatou.

O religioso também apontou a responsabilidade das ONGs e da própria Igreja para chegar a essa situação.

"Abandonamos o brasileiro pobre, que existe, e assim cresceu a xenofobia também. (...) Agora dizem: 'o venezuelano é a criança mimada'. A xenofobia nasce por essa razão", analisou.

'Vergonhoso'

Assim, considera que as explicações não têm que virar desculpas para atos intoleráveis.

"É vergonhoso que Pacaraima tenha escrito essa página terrível em sua história", lamenta Bobadilla, ao se referir aos incidentes de sábado.

O religioso não tem muita esperança de que a situação melhore, mas acredita que para que alguma coisa mude é preciso um controle mais criterioso na fronteira, a fim de evitar a entrada de venezuelanos com perfil criminoso. Também recomenda aumentar a presença policial e atender os brasileiros em situação de pobreza, para que os habitantes não se sintam em "desvantagem" frente os imigrantes.

"Somos pessoas de paz", afirma à AFP um venezuelano que foi tomar café da manhã e diz viver em Pacaraima há um ano.

Não quer se identificar por medo de represálias. Depois dos ataques, já não se sente seguro e cruza diariamente a fronteira para dormir em um abrigo improvisado do lado venezuelano.

Assegura que os venezuelanos enfrentam uma "perseguição" por parte de alguns membros da comunidade, inclusive de certos policiais brasileiros.

'A fome venceu o medo'

Contrariando suas expectativas, o salão da paróquia recebeu nesta terça-feira (21) cerca de 1.000 pessoas em busca de uma porção de pão e uma xícara de café com leite.

Homens e mulheres de diferentes idades, adolescentes, crianças e idosos vão se revezando em quatro fileiras de mesas onde os colaboradores da paróquia servem o café da manhã com agilidade, liberando rapidamente os espaços para os que aguardam na fila.

Muitos deles são indígenas warao que estão alojados em um abrigo próximo, administrado por uma ONG.

Uma passagem bíblica estampada em uma das paredes tenta animá-los: "A vossa tristeza se transformará em alegria".

Normalmente a paróquia atendia entre 1.500 e 2.000 imigrantes por dia. Depois das expulsões, o número caiu pela metade. "A fome venceu o medo", declara Bobadilla com certo alívio.


AFP

EMGE

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