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08/09/2018 | domtotal.com

Milagre em Juiz de Fora

Bolsonaro estaria morto não fosse a competência dos médicos que o atenderam.

O episódio Bolsonaro é exemplo de que não existe milagre quando não há competência.
O episódio Bolsonaro é exemplo de que não existe milagre quando não há competência. (AFP)

Por Carlos Eduardo Leão*

Bolsonaro chegou à Santa Casa de Juiz de Fora com uma facada no abdome que perfurou vários segmentos do intestino e vasos sanguíneos calibrosos que o nutrem. Em medicina cirúrgica trata-se de um quadro muito grave que chamamos de abdome agudo.

Para os leigos que me leem, as circunstâncias dramáticas do caso que o fizeram chegar ao primeiro atendimento em anemia aguda, chocado, lesão de intestino grosso com fezes livres na cavidade, resumem um quadro quase irreversível. E digo "quase" pois existe ainda algo transcendental que move os crentes, que se chama milagre. Milagre é a materialização do que parecia impossível e cuja explicação está ancorada na fé.

Para nós médicos, o nosso pensamento em relação a quadros dessa gravidade, não difere muito dos leigos e, apesar de todos os nossos esforços técnicos, existe sempre o imponderável que se explica no limite humano da atuação médica que, quando presente em nossos atos, a esperança de sucesso recai na nossa crença por um milagre. Somos humanos tais como os leigos.

E foi assim com Bolsonaro, como é assim com tantas outras vítimas, incógnitas e desafortunadas, de qualquer tipo de violência, sinal mais do que evidente dos tempos em que vivemos. Entretanto, não existe milagre quando não há competência, quando não há disponibilidade e quando não há compromisso com a medicina séria e bem exercida.

Dificilmente Bolsonaro estaria entre nós se não fosse levado, imediatamente após a agressão, para um Hospital que se mostrou extremamente comprometido com a medicina. Como toda entidade do SUS, certamente passa por todas as dificuldades para manter um atendimento digno. Falo de cátedra pois, por 35 anos, atuei como cirurgião plástico do Hospital João XXIII de Belo Horizonte, atendendo todos os tipos de traumas e queimaduras, portanto conhecedor do sistema e do grau de dificuldade que passamos na lida diária que travamos com o tênue limite entre a vida e a morte. Não conheço pessoalmente a Santa Casa de Juiz de Fora mas, pelo exemplo que deu à nação e à medicina aqui exercida, tenho a máxima convicção de que lá não se reúne apenas uma grande concentração de médicos extremamente competentes e preparados para os mais diferentes e complexos atos da medicina de emergência. Suas ações heroicas, como as de ontem com Bolsonaro, caminham lado a lado com a segurança que todos têm, firmemente alicerçada no conhecimento científico.

Pelo que acompanhei nos noticiários e redes sociais, chego à conclusão que os colegas juiz-foranos não complicaram. Fizeram o clássico. Não titubearam, não inventaram. Convictos na sua conduta, optaram pelo simples, seguro e prudente. Como manda o figurino da medicina de urgência. Pelos vídeos e fotos do candidato no pós-operatório imediato, pudemos ver marcas da simplicidade, típicas de um Hospital do SUS, que se superou pela competência, pelo compromisso científico e pelo comprometimento de seus profissionais médicos e paramédicos que, num notável exemplo, relevaram qualquer dificuldade pela manutenção da mais sublime das missões humanas - a luta incessante pela vida. Vocês são um verdadeiro apanágio da saúde mineira. Representam um orgulho para a classe, tão desprestigiada, desrespeitada, mal remunerada e aviltada pela classe política que, volta e meia, nos compara com um saco de sal - branco, barato e fácil de encontrar.

E o que mais me encanta e orgulha, é que, após longa cirurgia, os cirurgiões, anestesistas, enfermeiros e outros profissionais da saúde, artífices desse grande feito pela vida de um político e, indiretamente, pela pátria, em função do que ele representa no nosso atual contexto político, deixam o Hospital com a simplicidade que caracteriza os grandes, que exerceram, sem nenhum tipo de afetação ou convencimento, mais um dia de trabalho, digno de todas as condecorações por ato de competência e heroísmo. Vão para casa, após cada plantão, apenas com a consciência tranquila do dever cumprido dentro da mais sublime missão que lhes conferiu o Criador.

Luíza, esta é a medicina que sonho para você. Siga o exemplo de seus conterrâneos mineiros e aquele juramento, saído da ilha de Cós, jamais terá sido em vão. Siga essa trilha, minha filha, e a vida se encarregará do sucesso.

*Carlos Eduardo Leão é médico e cronista.

EMGE

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