Direito Direitos Humanos

29/09/2018 | domtotal.com

'Não me envolvia com política, mas fui preso e torturado pela ditadura'

Jornalista Patrícia Paixão apresenta o relato inédito de seu pai, Cesar Pinto Paixão, sobre os momentos de terror vividos no Dops em 1970.

Vítima sofreu torturas para dizer onde estava o irmão, procurado pela polícia.
Vítima sofreu torturas para dizer onde estava o irmão, procurado pela polícia. (Arquivo Pessoal)

Por Patrícia Paixão

Nunca fui impedida de me expressar, nunca fui presa ou torturada  por expor o que penso. Apesar disso, cresci com um enorme aperto no  peito causado por algo que não vivi. Ao longo da minha infância e  juventude, ao som de “Cálice” e outras canções emblemáticas de Chico  Buarque, papai sentava ao nosso lado para contar sério e entristecido  sobre os dias em que ficou preso no Dops-SP (Departamento de Ordem  Política e Social), braço da repressão da ditadura militar de 1964 na  capital paulista.

As lembranças eram dele e meu avô sendo empurrados com  agressividade para dentro da viatura modelo Veraneio da GM (General  Motors), usada pelos agentes do órgão. Relatava as torturas que sofreu  para dizer onde estava meu querido tio Walter, este sim ativista  político contra o regime militar — ele era considerado “subversivo” — ,  da cela apertada, onde 18 pessoas se espremiam para encontrar um espaço  pra sentar (o local tinha um único buraco no chão, improvisado como  banheiro, onde todos faziam suas necessidades). Relembrava de pessoas  que gemiam e outras que apareciam muito machucadas após as sessões de  tortura, aumentando o clima de tensão. Os presos estavam ali há meses  sem que suas famílias pudessem ter noção de seu paradeiro.

Quando comecei a aprender sobre a ditadura nos livros escolares,  me sentia extremamente chocada por saber que meu pai, meu avô e meu tio  passaram na pele a violência daquele regime de exceção. Meu peito  queimava e eu sentia as pancadas que nunca levei. Lamentava muito que  meus familiares tivessem passado por aquilo. Já adulta, passei diversas  vezes em frente ao prédio da rua Siqueira Bueno, nº 35, no Belém, na  zona leste de São Paulo, onde papai e vovô foram presos. Parava em  frente ao edifício e ficava tentando reconstituir aquela cena tão  repetida por papai. Pensava: “Não é possível que um dia isso  aconteceu!”.

A democracia sempre foi uma bandeira inquestionável em casa e,  sinceramente, nunca pensei que pudesse ouvir o discurso da volta dos  militares como solução para qualquer coisa, como acontece hoje em dia.  Achei que estivéssemos livres disso… Hoje, em pleno século XXI, um  candidato a presidente e seu vice lideram as pesquisas de intenção de  voto, ancorados em um passado tenebroso. Falam com orgulho da ditadura.  Exaltam torturadores que causaram imensas tragédias nas vidas de muitas  famílias. Desvirtuam os direitos humanos, questionando sua validade.

Muito do que me levou para o jornalismo foi essa indignação  constante no peito. Não posso e não devo me calar diante do que estamos  observando nesse país. Em 2015, voltei com papai ao Memorial da  Resistência e ele passou muito mal ao adentrar as celas que estão  expostas para os visitantes. Lembrou de tudo o que passou ali. Aquele  museu é um retrato impactante do terror que representou a ditadura  militar e do que pode acontecer quando os direitos humanos são violados.

A seguir, apresento o relato de papai (na íntegra) sobre os dias  em que ficou preso. O mesmo texto serviu de base para a indenização que  ele ganhou do governo federal, em 2002, por ter sido torturado e ter  ficado mais de um ano sem trabalhar — ele teve que ficar escondido, na  casa de uma tia, pois tinha medo de ser pego novamente, já que essa era  uma ameaça feita textualmente pelos agentes do Dops. Detalhe: papai era  de uma família muito pobre e meus avós dependiam da renda obtida pelos  seis filhos.

César, durante visita do Memorial da Resistência | Foto: Arquivo pessoal

Convido a todos a lerem esse relato verídico e recomendo, aos que  ainda não foram, que visitem o Memorial da Resistência. É preciso, sim,  conhecer o passado para não repetirmos erros que podem custar nosso  futuro.

‘Um breve relato de um momento único da minha vida’

Por César Paixão

Meu nome é César Pinto Paixão, nascido em 1951. No dia 18 de maio de  1970, tive uma experiência amarga e única que marcou minha vida: fui  preso pelo Dops-SP, órgão de repressão da ditadura militar brasileira.  Eu estava com meu pai, Maurílio Pinto Paixão, nascido em 1915, porém,  ele foi liberado algumas horas depois da nossa prisão — após ter sido  humilhado e com o coração em frangalhos por ter deixado um filho preso, e  ter que procurar por outro. Ele não sabia onde encontrar meu irmão,  Walter Roberto Pinto Paixão, para me livrar da prisão. Essa era a  condição imposta pelo delegado para a minha soltura.

Antes de iniciar meu relato quero deixar claro: eu não era um  subversivo e ativista político como meu irmão Walter. Era apenas um  simpatizante de suas ideias, não entendia precisamente as doutrinas  socialista ou comunista, porém as aceitava. Em primeiro lugar, por  confiar no meu irmão e em seus ideais e também por ele ter sido meu  orientador educacional. Em segundo, por acreditar que essas doutrinas  poderiam melhorar a qualidade de vida da sociedade e de nossa família,  meus pais e meus cinco irmãos.

Posto isto, a experiência que passei ocorreu como relato a seguir:  meu irmão, Walter, estava envolvido ativamente em um dos movimentos  contra a ditadura militar (1964 a 1985), mas a Justiça não tinha certeza  disso. Ele foi levado para depor no Dops para averiguação. Após um  determinado tempo de conversa não agradável com os agentes e chegando  perto do horário de encerramento das atividades burocráticas do órgão, o  delegado combinou com meu irmão que ele poderia ir embora, mas deveria  retornar no outro dia para que eles pudessem dar prosseguimento à  investigação. A partir deste ponto, começaram os problemas que viriam a  marcar nossas vidas. Sim, porque meu irmão, com razão, decidiu não  voltar para falar com o delegado. E mais: traçou um plano de fuga.

Ele avisou meus pais que iria fugir para não ser preso e os instruiu,  em particular ao meu pai, para aguardar por pelo menos um mês antes de  pedir o encerramento do contrato de aluguel e retirar os móveis do  apartamento onde morava com a esposa, Neusa Cardoso Paixão, no bairro do  Belém, em São Paulo. Esse prazo que ele pediu tinha como objetivo fazer  o Dops esquecer do caso, algo bem improvável uma vez que eles, de  alguma forma, iriam vigiar por algum tempo o apartamento. Pediu também  ao Sr. Euclides (amigo da família) para esconder os livros proibidos  pela censura da época. Euclides os enterrou no quintal da casa de  Rosário (seu irmão). Finalmente, disse que não iria dizer para onde iria  com sua esposa por uma questão de segurança e para evitar que  eventualmente falássemos, pondo em risco eles e nós. Assim, os dois  desapareceram.

Modelo da cela em que César permaneceu preso no DOPS | Foto: Divulgação

Meu pai, preocupado com o aluguel e outras despesas do apartamento  que iriam vencer, ficou ansioso e decidiu não esperar os 30 dias.  Seguimos então eu, ele, minha mãe (Odette Cunha Paixão, nascida em  1918), que por sua vez levou junto meu irmão José Maurilio (12 anos na  época), meu tio “Negrinho” e também chamou meu tio “Nine” (Ermínio  Ceroni, que possuía uma perua Kombi) e o senhor Rosário, todos como  possíveis ajudantes. Fomos todos para o apartamento no segundo andar do  Edifício Luzia Costa, localizado à Rua Siqueira Bueno, 35.  Meu pai  falou com o zelador que prontamente nos autorizou a entrar e fazer o que  fosse preciso. Deduzimos posteriormente que aquela gentileza foi devido  ao fato de que os investigadores do DOPS já haviam ido até lá atrás do  meu irmão e, como não o encontraram, deixaram uma ordem expressa ao  zelador que, se ele ou alguém da família aparecesse por lá, eles  deveriam ser comunicados imediatamente. E assim aconteceu.

Entramos no apartamento, retiramos os móveis e os levamos para a  perua. Por garantia, eu e meu pai voltamos para verificar se havia mais  alguma coisa para ser retirada do apartamento. Constatando que estava  tudo certo. Ao retornarmos para a perua, no hall do prédio, fomos pegos  por três investigadores, bem armados, e jogados com muita selvageria e  ferocidade (empurrões e coronhadas) para o porta-malas de uma perua  Veraneio dos agentes do DOPS, que vieram a nos conduzir para o órgão.  Meu pai, com a idade de 54 anos e que aparentava ser bem mais idoso por  já ter passado por muitas cirurgias, ficou com seu aspecto ainda pior,  porque quando nos colocaram no porta-malas ele tirou e escondeu suas  dentaduras.

Outro detalhe e de muita sorte foi que no momento em que eles nos  colocavam dentro da viatura, minha mãe, que estava também saindo do  prédio com algumas coisas, viu a situação que estava se passando  conosco, pegou meu irmão e saiu do edifício, sorrateiramente. Caminhou a  passos largos e nisso ela encontrou meu tio “Negrinho” e lhe disse para  ir embora sem fazer alarde.

Meu Tio “Nine”, que possuía a perua e era o motorista, e o nosso  amigo, Rosário, que nos auxiliava na mudança, foram também abordados  pelos investigadores, porém, alegaram que eram somente transportadores,  ou seja, não tinham nenhum vínculo de parentesco ou amizade conosco. Meu  tio, meses após o acontecido, sentia-se envergonhado, contudo sem  razão, porque não dava para assumir uma situação de verdade ou de  heroísmo com aquelas pessoas irracionais.

Depois de todo este “rebu” que se passou no início da tarde, os três  investigadores e nós partimos em direção à nossa residência na Vila  Formosa, também na zona leste de São Paulo. Isso em grande velocidade.  Eu acredito que esta pressa foi porque o zelador deve ter falado que  tinham acabado de sair de lá outros parentes. Como queriam encontrar meu  irmão Walter e seus pertences que o qualificariam como criminoso,  seguiram rapidamente para a nossa casa, localizada, então, à Rua Ituri.

Ao chegarmos lá, ficamos no porta-malas sob a observação de um  investigador, enquanto os outros dois desceram e foram vasculhar a casa.  Reviraram tudo, deixaram a casa de “pernas para o ar”, mas não  encontraram nada. Os indícios que indicariam que meu irmão era um  subversivo, tais como livros e jornais, já não estavam mais lá.

Saímos de lá, novamente em velocidade e fomos diretamente para o  DOPS. Durante o caminho não podíamos nem falar e nem se entreolhar que  eles já gritavam para ficarmos quietos. Dentro da minha cabeça acontecia  um turbilhão de pensamentos de todos os tipos de sentimentos: ódio e  revolta por não poder me manifestar e ser maltratado; por não poder  dizer “deixa o meu pai fora disso, porque ele não tem nada a ver com  essa história!”; impotência por não poder fazer nada pelo meu  pai; tristeza por saber que minha mãe iria passar uma situação difícil.

Enfim chegamos. Meu pai foi encaminhado para um lado e eu para  outro.  Fiquei aguardando e remoendo minha raiva. Eu penso que este  tempo de espera foi para que o delegado conversasse primeiro com meu pai  que, como nos disse depois, foi liberado para ir buscar meu irmão,  enquanto eu ficava como refém.

Chegou, então, minha vez de falar com o delegado. Fui levado à sua  sala por um dos investigadores. O delegado foi direto e interrogou:  “Onde está seu irmão?”. Eu respondi que não sabia – e realmente não  sabia. Como já disse, meu irmão não nos informou para onde havia fugido  ou se escondido. O delegado dissimulando certa calma, talvez para não me  assustar, pediu para este investigador me levar para outro lugar onde  eu pudesse refletir melhor. Esse outro lugar era uma pequena sala onde  estava escrito na porta “Diligências especiais”.

Na visita, César esteve ao lado da filha Patrícia, hoje professora de jornalismo | Foto: Arquivo pessoal

Dentro da sala já se encontravam os dois outros investigadores, foi  quando percebi que um deles era japonês. Este, inclusive, foi quem  amarrou minhas mãos para trás. Depois de amarrado, os três começaram a  me bater alternadamente com socos, tapas e chutes nas pernas. Batiam e  perguntavam: “Onde está seu irmão?”, ao mesmo tempo em que diziam:  “Vamos fazer o mesmo com seu pai”. Repetiam que, se não falássemos,  iriam desaparecer conosco. Foi muito sofrimento e pavor. Meu heroísmo  acabara após duas sessões como esta. Por volta das oito horas da noite,  fui levado para outro local onde acabei fichado e encaminhado para a  cela.

Neste andar havia quatro celas. Fiquei na de número 3, que possuía 3  por 5 metros, aproximadamente, e continha 18 presos contando comigo.  Dentre eles, um em especial me ajudou muito, me dando apoio moral e me  explicando com gentileza as regras que eles se impuseram para conviver  em harmonia. Seu nome era Oliver Simioni. Uma das regras da cela era:  quem usasse o banheiro (um buraco no chão) tinha que limpar. Não havia  camas, os colchões pareciam mais panos para forrar o chão. Também não  havia chuveiro.  A comida era muito ruim, normalmente serviam uns  torrões de arroz com água de feijão e uns fios de couve. Segundo eles,  isso era bom demais em se tratando de comunistas.

Eu fiquei 5 dias e 4 noites preso, porém, foi como se tivesse ficado  vários meses. Isso porque, em minha opinião, esse pequeno período foi  suficiente para eu criar muitas dúvidas e perguntas sem respostas, como:  “Onde está meu pai? Quando irei sair? Vou embora amanhã ou…” Uns amigos  diziam: “Esquece! Estou aqui há mais de 3 meses”. Outros diziam que  estavam lá há 6 meses e uns há quase um ano. E depois eram transferidos  para Deus sei lá onde.

Também era terrível ficar imaginando que a qualquer momento poderiam  me chamar para novos interrogatórios. Isso era comum acontecer a cada  vez que chegava um prisioneiro novo e que eventualmente apontasse ou  “dedasse” ou entregasse um companheiro. O clima nas celas eram de muita  tensão e pavor para todos, principalmente quando vinham presos da Oban  (Operação Bandeirante). Eles vinham muito machucados devido à tortura  recebida, estavam realmente em péssimo estado. À noite eles gemiam muito  de dor e, naturalmente, não tinha tratamento.

No segundo dia em que estava lá, vivenciei uma situação que me  emocionou muito. É até difícil descrevê-la. Foi a chegada de uns presos  da Oban de madrugada, como sempre. A maioria dos presos acordou e  começou a cantar, com o objetivo de recebê-los, o seguinte trecho da  música do Geraldo Vandré intitulada “Pra não dizer que não falei das  flores”: “Vem, vamos embora que esperar não é saber / quem sabe faz a  hora não espera acontecer”. Foi um momento especial para nós que  estávamos lá e para os presos que chegavam. Isso também criou em mim e  nos outros um sentimento de raiva e impotência, não só por ver aqueles  caras maltratados, quebrados pela tortura, mas por ter consciência de  que vivíamos em um sistema injusto a ponto de não permitir a liberdade  de expressão. Ou melhor, a ponto de ter que sofrer torturas para se  expressar livremente.

Finalmente, graças ao esforço incansável de meu pai e mãe, incluindo  pedir a Deus com toda sua fé através da nossa comunidade espírita e  fazer plantões na porta do Dops, recebi a notícia de que iria ser solto  em 22 de maio de 1970, dia do meu aniversário. Eu acredito, piamente,  que sair num curto espaço de tempo do Dops foi um milagre para a  situação da época.

Contudo, os problemas para mim não acabariam com a notícia que iria  ser solto, pois algumas pessoas que estavam comigo naquela cela viram em  mim uma oportunidade única de avisar seus parentes que estavam presos.  Sim, porque o Dops não informava às famílias dos prisioneiros sobre o  paradeiro deles. A forma que os detentos usaram para passar estas  informações foi também humilhante. Eu tinha que escrever no meu pênis  alguns números de telefone, escolhidos por eles, para que eu ligasse  após estar fora de lá. O problema é que eu fiquei aterrorizado com esta  ideia, porque se no momento da minha saída o carcereiro decidisse me  revistar, pedindo que eu tirasse a roupa, eu estaria perdido. Teria que  voltar para a cela e perderia o direito de sair. Como eu disse: eles  eram irracionais, principalmente em se tratando de “comunistas”.

Bem, eu saí daquele inferno e naquele dia mesmo comemorei meu  aniversário, ainda com muito medo. Foi uma alegria imensa para meus  pais. Depois de um determinado tempo — não me lembro de quanto ao certo —  telefonei para os números indicados e informei às pessoas o que havia  ocorrido com aqueles que me pediram para ligar.

Passado a euforia, de estar livre, veio um medo terrível de que eles  pudessem voltar. Sim, o delegado falou que, se meu irmão não aparecesse,  eles iriam voltar e meu irmão até aquele momento não tinha retornado  ainda. Com medo de ter que passar por aquela situação de novo, fui viver  um tempo na casa da minha Tia Olívia Ceroni (tia “Fiica”, mulher do meu  Tio Nine). Um ano foi o tempo que fiquei escondido e totalmente  inativo…

Em resumo, somente em 2002 foi promulgada a Lei nº 10.559/2002 –  Artigo 2º, inciso VI, que me permitiu ser indenizado em razão de  perseguição política e afastamento de atividade remunerada.

(*)César Pinto Paixão, autor deste relato, hoje tem 67 anos. Ele é formado em Projetos para Criação de Máquinas pela Unesp


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