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28/11/2018 | domtotal.com

O último tango de Bertolucci

Volta à discussão a icônica cena do tablete de manteiga usado em cena erótica do filme do diretor italiano.

Cena de 'O último Tango em Paris' com Marlon Brando e Maria Schneider.
Cena de 'O último Tango em Paris' com Marlon Brando e Maria Schneider. Foto (Reprodução)
Cena de 'O último Tango em Paris' com Marlon Brando e Maria Schneider.
Cena de 'O último Tango em Paris' com Marlon Brando e Maria Schneider. Foto (Reprodução)

Por João Lucas Vieira Saldanha*

É possível divorciar o artista de sua obra?

Não sou o primeiro a fazer este questionamento e certamente não serei o último. Numa sociedade cada vez mais voltada para a significação, estamos desenvolvendo, para o bem ou para o mal, uma dificuldade crescente em exercitar a objetividade desapaixonada.

Morreu, nesta segunda feira, o cineasta Bernardo Bertolucci, considerado por muitos como o último dos grandes mestres do cinema italiano, e, como não podia deixar de ser, ressurge, na superfície da vox populi, uma das maiores polêmicas do cenário artístico internacional: O Último Tango em Paris.

Como já é de conhecimento geral, o cineasta ganhou repercussão negativa quando, em 2016, surgiu um vídeo gravado três anos antes em que confessa ter dirigido a icônica cena do tablete de manteiga sem o consentimento ou mesmo a ciência da atriz Maria Schneider. Menos de um ano depois o caso Weinstein tomou a mídia de assalto e deu início ao que viria a ser um movimento de virada no cinema e na produção artística em geral, em especial no que diz respeito ao combate à violência contra as mulheres no meio do show business.

Casos recentes como o do ator norte-americano Kevin Spacey, e outros menos contemporâneos como o do rei do pop Michael Jackson, despertam em nós um questionamento moral desconfortável, mas certamente necessário, acerca da intangibilidade moral da arte. Afinal, a arte pode ser corrompida pelas ações do seu criador?

Decerto é difícil estabelecer que há resposta correta para um questionamento tão profundo, afinal, a própria ideia de consumo da arte tange em esferas extremamente subjetivas e pessoais. Ora, se nem mesmo o conceito de “boa arte” é objetivo, menos ainda seria a sua imunidade ao labéu da imoralidade do artista, mas mesmo assim é possível traçarmos alguns paralelos que ajudam a diferenciar as noções de consumo da arte e de endosso do artista.

Primeiro devemos partir do pressuposto que a mácula moral do artista é inquestionável e incurável, ou seja, o objetivo não é discutir se o artista é ou não imoral, mas sim, se a sua imoralidade é capaz de ferir de morte a sua arte, além disso, é preciso, sempre que possível, evitar o vício do anacronismo.

Alguns defenderão que o mero consumo da arte, especialmente da arte como produto comercial, implica, necessariamente, no endosso do artista, já que, invariavelmente, do consumo daquela arte decorre o enriquecimento direto ou indireto do artista. Ainda, haverá quem defende que arte e artista são independentes entre si, e que até o mais imoral dos seres humanos é capaz de produzir obras de beleza absoluta.

A arte produzida pode se prestar a promoção de uma faceta moral específica, mesmo que o artista objetivamente viole uma outra faceta moral? O diretor norte-americano Nate Parker ganhou notoriedade no final de 2016 quando produziu e dirigiu o longa “The Birth of a Nation”, que chegou a ser apontado como candidato ao Oscar. O filme retrata a quasirrealista história de um escravo que se rebela contra seu senhor na esperança de guiar seu povo à liberdade, mas pouco antes do seu lançamento o diretor se envolveu em um escândalo referente a uma acusação de estupro que enfrentou na faculdade em 1999.

Não há dúvidas de que o filme trata de tema cuja visibilidade é fundamental e acerta na representatividade, além, é claro, de trazer o deleite pelo seu caráter de arte, per se. Por outro lado, o endosso do artista por trás da obra poderia significar o suporte à imoralidade, dada a situação da acusação enfrentada mais de dez anos antes. É fácil ver a contradição.

O juízo, por fim, recai sobre cada um de nós. É evidente que não podemos desnaturalizar obras de arte em decorrência de desvios morais de seus criadores, sob pena, ironicamente, de trilharmos melindroso caminho na direção da censura. A inviabilidade de estabelecimento de uma linha a ser traçada decorre de uma incompatibilidade de naturezas entre os códigos legais e o próprio conceito de arte, já que se aquele tem como princípio norteador a legalidade prévia e sua consequente objetividade, e este não pode ser restrito dada à sua inerente subjetividade, torna-se praticamente impossível estabelecer critérios objetivos para absolvição ou condenação da arte pelas ações do artista.

Ao que tudo indica o tema ainda será patrocinador de incontáveis discussões filosóficas, profundas e complexas que passam por temas como o próprio conceito de moralidade, subjetividade da arte e até mesmo coparticipação do endossante.

É possível admirar as obras de grandes artistas ignorando as suas ações pessoais, políticas ou sociais? Difícil dizer, e provavelmente tal façanha está mais atrelada à capacidade individual de desvinculação de significação do que à lei moral em si. Fato é que, como dito alhures, numa sociedade cada vez mais voltada para a significação, pode ser impossível atingir a objetividade desapaixonada necessária à admiração da arte sem se levar em consideração o artista.

*João Lucas Vieira Saldanha é formado em Direito pela PUC e pela Newton Paiva e pós-graduando em Advocacia Cível pela Escola Superior de Advocacia da OAB-MG.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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