Saúde

09/12/2018 | domtotal.com

Médicos, há 55 anos

No dia 10 de março, exatamente a cinco dias para eu completar 20 anos de idade, ganhei o meu melhor presente: fui aprovado em 11º lugar, entre apenas 51 aprovados.

Por 50 anos tivemos encontros anuais, revivendo e fortalecendo as amizades.
Por 50 anos tivemos encontros anuais, revivendo e fortalecendo as amizades. (Pixabay)

Por Evaldo D' Assumpção*

Era o ano de 1958. No dia 19 de fevereiro daquele ano, 878 jovens vindos de várias partes do Estado e do País, subiram as escadarias do imponente edifício do Instituo de Educação de MG, para disputar as 60 vagas disponibilizadas pela Faculdade de Medicina da então Universidade de Minas Gerais, conhecida como “Federal”. Nome que posteriormente foi incorporado à sua denominação oficial. Começava o temido exame Vestibular que determinaria o futuro de tantos jovens, entre os quais predominavam os rapazes. Naquele tempo, eram raras as moças que se habilitavam aos cursos de Medicina e Engenharia. 

Durante todo o ano anterior, eu, como a maioria dos demais vestibulandos acumulamos, com o terceiro ano científico nos colégios, as aulas vespertinas dos cursinhos pré-vestibulares, dos quais o do Prof. José Guerra era, disparadamente, o melhor para quem sonhava ser médico.  Suas aulas eram dadas no prédio que, graças ao seu tombamento, até hoje existe na esquina da Av. Augusto de Lima com Rua da Bahia. Sempre me emociono quando passo diante daquele vetusto, porém imponente casarão de dois pavimentos. Muitos ainda tinham que se desdobrar em trabalhos diversos, boa parte por necessidade de sua própria manutenção. Alguns dos meus contemporâneos trabalharam em compensação bancária noturna, ou como propagandistas de laboratórios farmacêuticos, e havia um que foi faxineiro vespertino de colégio. Eu trabalhei, desde os 18 anos, como porteiro no turno da noite, do Hospital de Pronto Socorro, conhecido como HPS, mas o fiz porque queria minha independência financeira, pois meus pais tinham uma boa condição. Querer essa autonomia, era uma atitude comum entre os jovens daquele tempo, que procuravam, desde cedo, ter um trabalho remunerado.

As provas, sucessivamente de Química, Física, Biologia e Português, foram realizadas nos dias 19, 20, 21 e 22 de fevereiro, e em seguida veio o período de maior ansiedade, angústia e medo, aguardando a divulgação dos resultados. Afinal, era nosso futuro que estava em jogo.

No dia 10 de março, exatamente a cinco dias para eu completar 20 anos de idade, ganhei o meu melhor presente: fui aprovado em 11º lugar, entre apenas 51 aprovados. Nessa época não havia a admissão por classificação, mas exclusivamente por aprovação. Com isso, nove vagas ficaram em aberto, por falta de vestibulandos aprovados. Logo em seguida, porém, três vagas foram ocupadas por sul-americanos, vindos em razão do convênio internacional havido com a Fundação Rockfeller, que na época dava enorme contribuição material e técnica para a nossa Faculdade, tornando-a uma das melhores do país. Como um dos aprovados nesse exame optou, por razões pessoais, fazer o curso na outra única escola de medicina então existente em Belo Horizonte, a Faculdade de Ciências Médicas, esta particular e ligada à Universidade Católica de MG, ficamos com um grupo de 53 alunos, dos quais três eram moças, aprovados no vestibular. Em 13 de março de 1958, fizemos as nossas matrículas, seguindo-se o trote dos calouros, que então era dado sem qualquer violência, tornando-se numa excelente oportunidade para a formação de amizade com os veteranos. Começava aí nossa longa jornada, realizando um sonho maravilhoso, anelado nos muitos anos de colégio. Para alguns, como eu, desde a infância. 

Logo nos entrosamos, e nos seis anos do curso médico, estabelecemos uma amizade sólida entre todos. Tivemos uma vida universitária muito participativa, muitos ocupando cargos no Diretório Acadêmico da Faculdade, e também no DCE e na UNE, órgãos que congregavam os estudantes de todas as Faculdades. Depois da formatura, ocorrida em 8 de dezembro de 1963, quase todos se destacaram na medicina, e em diferentes áreas de atuação. Um dos nossos colegas veio a se tornar Diretor da Faculdade em que estudamos; outro enveredou-se pela política, tendo sido Senador por Goiás e Ministro da Saúde; tivemos diretores do Instituto Médico Legal e do Hospital de Pronto Socorro; outro criou, e foi o chefe do Serviço de Cirurgia Plástica e Queimados desse hospital, quando ainda funcionava na rua dos Otoni. Com a construção do Hospital João XXIII, esse serviço transferiu-se para lá, e veio a se tornar referência nacional no tratamento das queimaduras. Vários colegas tiveram papeis essenciais na organização do INPS, quando de sua instituição em 21 de novembro de 1966; outros fundaram e dirigiram grandes hospitais particulares de cardiologia e pediatria, depois hospitais gerais; alguns optaram por se tornar médicos em cidades do interior mineiro, tornando-se verdadeiros benfeitores de grandes áreas interioranas. Tivemos brilhantes especialistas, e um de nós transferiu-se definitivamente para os EUA, tornando-se um neurocirurgião respeitado. Alguns tornaram-se autores de vários livros em diferentes áreas, inclusive com a história de nossa turma nos anos de Faculdade. Outros livros foram de memórias pessoais, onde a turma, batizada de “Os 53 de 63” frequentemente aparece como personagem marcante. Alguns se tornaram membros da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, foram dirigentes da Associação Médica de MG, e também da Academia Mineira de Medicina, inclusive ocupando a presidência dessas instituições.

Ainda na Faculdade, fui eleito presidente da Comissão de Formatura, e com outros colegas formamos uma Comissão Permanente para manter a turma unida, no máximo tempo que nos fosse possível. Por 50 anos tivemos encontros anuais, revivendo e fortalecendo as amizades. Mas o tempo é implacável e aos poucos alguns colegas foram “se encantando”, como disse Guimarães Rosa. A idade foi limitando as atividades de tantos outros, e nossos encontros tornaram-se virtuais, porém muito mais de memória e coração. Nunca nos esqueceremos dos “53 de 63”, que agora completam 55 anos de uma fecunda e generosa existência. Dei gratia.

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Mais Lidas
Instituições Conveniadas