Meio Ambiente

13/12/2018 | domtotal.com

Incógnita sobre a futura política climática do Brasil pesa na COP24

A sociedade civil brasileira também está tomando a palavra na COP24 para advertir para as 'nefastas' consequências de uma saída do Acordo de Paris.

"Temos muito a perder, nossa economia é muito menos diversificada, depende 20%-30% do uso da terra", assim como das exportações. (Pixabay)

No pavilhão do Brasil da COP24, em Katowice, as conferências e reuniões entre empresas e representantes políticos não param. Mas esta promoção ativa da ação climática nacional é prejudicada pela questão de se o presidente eleito, Jair Bolsonaro, manterá o gigante sul-americano no Acordo de Paris.

Nesta cidade polonesa de tradição mineradora, a delegação brasileira negocia desde o início do mês com seus pares da comunidade internacional a forma como se aplicará este compromisso alcançado em 2015 para conter as mudanças climáticas.

Contatados pela AFP, seus representantes se negaram a se pronunciar sobre como o papel do Brasil - especialmente relevante por abrigar a Amazônia, "o pulmão do planeta" - pode mudar quando Bolsonaro assumir o poder, em 1º de janeiro.

"O tempo urge (...) Todos temos que aumentar nosso nível de ambição", disse nessa quarta-feira (12) o ministro do Meio Ambiente, Edson Duarte, ressaltando que o Brasil cumpriu em 2017 seus objetivos de redução de emissões.

A sociedade civil brasileira também está tomando a palavra na COP24 para advertir para as "nefastas" consequências de uma saída do Acordo de Paris - uma possibilidade aventada por Bolsonaro durante a campanha -, e mostrar que parte de suas empresas, instituições e comunidades já empreenderam a transição ecológica e não estão dispostas a voltar atrás.

"Muito a perder"

Além do impacto ambiental de abandonar as políticas climáticas, a mensagem é clara: diferentemente dos Estados Unidos, o Brasil não pode se permitir economicamente sair do Acordo de Paris. "Temos muito a perder, nossa economia é muito menos diversificada, depende 20%-30% do uso da terra", assim como das exportações, afirma à AFP André Guimarães, cofacilitador da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.

Bolsonaro "está brincando com fogo. Não podemos esquecer que a indústria agrícola o apoiou para sua eleição", afirma o porta-voz desta coalizão que reúne quase 200 empresas e associações, entre estas a Abag (Associação Brasileira do Agronegócio) e a SRB (Sociedade Rural Brasileira), mas admite que nem todo esse setor está comprometido com a preservação da Amazônia.

Se o desmatamento continuar em aumento no Brasil - +13,72% entre agosto de 2017 e julho de 2018 -, isto "impactará negativamente os esforços globais para frear o aquecimento", afirma Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima.

Uma volta aos níveis de 15 anos atrás significaria três gigatoneladas adicionais de emissões de CO2, estimou Rittl. No ano passado, as emissões de gases de efeito estufa totalizaram 53,5 Gt no mundo.

O papel do Exército

Por enquanto, a política climática de Bolsonaro é incerta. Crítico em relação à luta contra o aquecimento, o presidente eleito anunciou que o próximo ministro do Meio Ambiente será o advogado Ricardo Salles, criticado por algumas ONGs que o consideram um aliado do setor ruralista.

"Algumas declarações são muito preocupantes, mas é possível um diálogo com alguns setores. Os militares, embora se preocupem com a soberania nacional, não querem que a Amazônia seja destruída. E há um grupo de economistas que entendem perfeitamente que será ruim para o Brasil sair do Acordo de Paris", declarou Alfredo Sirkis, secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima.

Esta vontade de construir pontes com o futuro governo é compartilhada por muitos responsáveis presentes em Katowice.

O Brasil "não tem uma Califórnia"

Como reconheceu Sirkis, o Brasil é um país mais centralizado que os Estados Unidos, de modo que dificilmente poderia-se organizar uma oposição climática ao governo de Bolsonaro, como acontece com Donald Trump, depois de que este decidiu retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris.

O Brasil "não tem uma Califórnia", resumiu.

O deputado Evandro Gussi, do Partido Verde, afirma que a preocupação é infundada: "o que me importa é a questão prática, e enquanto parlamentar Bolsonaro contribuiu para que fosse aprovada a lei nacional sobre biocombustíveis", afirma à AFP, embora estes sejam criticados por muitos ambientalistas por fomentarem o desmatamento.

"Tenho um vídeo com Bolsonaro 15 dias antes da eleição, no qual me garante que continuará nos apoiando neste assunto", acrescenta, mostrando as imagens para todos que passam pelo pavilhão do Brasil questionando o que acontecerá a partir de 1º de janeiro.


AFP

EMGE

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