Religião

04/01/2019 | domtotal.com

Sorrir em paz ou com sossego?

O que traz paz é nos fazermos corresponsáveis por ela.

O que traz paz, de fato, é saber que alguém está cuidando de promovê-la, o que é tanto mais efetivo quanto mais pessoas se ocupam de fazê-lo.
O que traz paz, de fato, é saber que alguém está cuidando de promovê-la, o que é tanto mais efetivo quanto mais pessoas se ocupam de fazê-lo. (Bethany Laird by Unsplash)

Por Vítor Fernandes*

Imagine: acordar pela manhã, encontrar quem você ama, receber um carinho do pet, ter o café ao alcance da mão e um dia cheio de possibilidades. Você vai estudar, trabalhar, cuidar de alguém ou exercitar os ossos e encontrar bons amigos. Está tudo em paz!

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Então a cachorra faz xixi no lugar errado, o pão queima na torradeira, você sai e esquece a carteira, o metrô ou o ônibus atrasa, tem motorista parado no cruzamento e a pontualidade sai voando pela janela. A paz voou também?

Um dos objetivos aqui é pensar a paz. Apesar dos dicionários, cada um dá o nome que prefere para o que vive, então “paz” pode significar harmonia espiritual, equilíbrio emocional e até silêncio. Nada disso é 100% realizado na vida de nenhuma pessoa. A depender de qual pessoa você seja, será necessário rever aquela sequência sossegada de acontecimentos, afinal o mal segue, mesmo quando temos uma vida “normal” e conservamos as pazes com nossa felicidade e nosso sossego.

Refletir sobre a paz poderia ser como assistir o pôr do sol ouvindo Bossa Nova, mas qual valor teria essa leitura se ela fosse apenas um romance ignorante? Vamos esticar os olhos para baixo.

Os cotidianos das pessoas são muito diferentes e ao mesmo tempo preservam algumas semelhanças. Todos e todas vivemos alguns dias de (quase) perfeito acordo entre o planejado e o realizado e outros dias de total desencontro entre uma coisa e outra. Às vezes surgem uns eventos desagradáveis: discussões, violência, roubos, demissão, traição, opressão, fome e até morte. “Que loucura” essa vida cheia de satisfações e percalços…

Na verdade não é loucura, é mais consequência, conjuntura. Somos capazes de viver a paz com a conjuntura e cotidiano que temos? Numa resposta despretensiosa, a rotina da vida cria paz quando consegue fazer as pessoas serem livres. Serem livres e ouvidas. Tanto os que têm uma “vida sossegada” quanto os que vivem no Rio Grande do Norte onde as taxas de homicídio cresceram mais de 200% nos últimos anos ou quanto os que vivem na Colômbia ou na Bolívia, onde as taxas de homicídio foram as mais altas do continente nos últimos anos observados1.

Aquela cena de alguém que acorda e vai trabalhar, passa um ou outro “perrengue” (e até algumas grandes infelicidades, para não dizer desgraças) durante a semana, que briga, chora e sofre, mas que está acompanhada e caminha para realizar-se como pessoa que sonha na vida, esse cotidiano pode ser pacífico se proporcionar liberdade e der voz ao seu protagonista, seja a mulher, o negro, a imigrante, a lésbica, o potiguar ou o refugiado.

Não tem só silêncio, nem tanto ruído, tem voz e ação que superam os medos e os conflitos para aqueles que têm uma “vida normal” e também para a transexual, o indígena, a pessoa com deficiência, a travesti, o desempregado, o estudante, o órfão.

Imagine o cotidiano novamente. Agora com menos anestesias emocionais das telas. Imagine a maioria de nós com as almas acordadas, felizes e atentas ao contexto, informados sobre a mortalidade infantil, sobre os movimentos migratórios, sobre a evasão escolar e as leis, sobre a superlotação dos presídios e as inovações em tecnologia e trabalho, sobre direitos humanos e segurança. Informados e comprometidos. Que sonho lindo!

O que traz paz é nos fazermos corresponsáveis por ela. O que traz paz, de fato, é saber que alguém está cuidando de promovê-la, o que é tanto mais efetivo quanto mais pessoas se ocupam de fazê-lo. Essa paz não é muito romântica, afinal é difícil sorrir enquanto se pensa na fome ou doença de tantos. Não tem problema, ninguém precisa fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Mas não deixemos nenhuma delas para trás.

Uma paz saudável sorri, silencia, dança e solta fogos enquanto mantém a alma armada (de conhecimento) e apontada para a cara do sossego.

[1] Fonte: Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA), Atlas da Violência 2018.

*Vitor Júnio Félix Fernandes é cofundador e analista de diversidade e inclusão na Astarte Educa, professor de Português para estrangeiros e filosofia.

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