Religião

04/01/2019 | domtotal.com

A paz como revolução

Ser arautos da paz é, em ultima análise, ter amor próprio e, concomitantemente, viver a alteridade.

Celebrar o dia mundial da paz no Brasil é em última análise ser uma pessoa revolucionária que tem o amor em seu horizonte para que a paz tenha a palavra definitiva e não as violências.
Celebrar o dia mundial da paz no Brasil é em última análise ser uma pessoa revolucionária que tem o amor em seu horizonte para que a paz tenha a palavra definitiva e não as violências. (Sunyu by Unsplash)

César Thiago do Carmo Alves, FMI* 

Em 1968 celebrou-se o primeiro dia mundial da paz. Esse dia foi sugerido pelo Papa Paulo VI (1897-1978). A proposta desse santo bispo de Roma de dedicar à Paz o primeiro dia do ano novo não tinha a pretensão de ser exclusivamente religiosa ou católica.  A intenção da instauração desse dia era para que todas as pessoas, amigas da paz, aderissem e tomassem como iniciativa própria. Em sua primeira mensagem para esse dia, Paulo VI observa que é necessário defender a paz diante dos perigos que a ameaçam. Diz ele:

o perigo da sobrevivência do egoísmo nas relações entre as nações; o perigo das violências, a que algumas populações podem ser arrastadas pelo desespero de não verem reconhecido e respeitado o próprio direito à vida e à dignidade humana; o perigo, hoje tremendamente aumentado, do recurso a terríveis armas exterminadoras, de que algumas potências dispõem, despendendo com isso enormes meios financeiros; cujo gasto é motivo de dolorosa reflexão; diante das graves necessidades que dificultam o desenvolvimento de tantos outros povos; o perigo de fazer crer que as controvérsias internacionais não podem ser resolvidas pelos meios da razão, isto é, das negociações fundadas no direito, na justiça e na equidade, mas só por meio de forças aterradoras e exterminadoras.(Paulo VI, 1968)

Leia também:

A paz, indubitavelmente, consiste numa tarefa a ser perquirida. Ela não vem por aves de arribação. É nessa busca constante que a própria arte, servindo-se de sua forma de expressar, reivindica-a. Nesse sentido, um dos grandes compositores e cantores, o poeta e tropicalista soteropolitano Gilberto Gil compôs a música A paz. A história da composição parece ser simples, no entanto revela toda uma mensagem de resistência verso ao caminho da pacificação. Vale recordar que o compositor foi preso por conta do AI-5 e exilado no período da ditatura civil-militar (1964-1985). A canção foi escrita sob a inspiração da magnífica obra de Liev Nikoláievich Tolstói (1828-1910), intitulada Guerra e Paz. A situação concreta para a composição foi a de que o cantor e compositor João Donato, em um certo dia, fora na casa de Gilberto Gil com várias canções, todas elas chamadas Leila. Era no total de quinze ou dezesseis. João Donato entregou-as para Gilberto Gil e cochilou. Foi a imagem dele cochilando sossegado à luz do dia e a lembrança do livro Guerra e Paz que constituíram o marco inspirador para a canção. Tanto o é, que A Paz também se intitula Leila 4.

A Paz composta e cantada por Gilberto Gil consiste numa experiência que chega ao coração.  Ela invade o interior da pessoa e a coloca numa atitude de ação. Portanto, não é uma paz passiva. Ela é ativa. A paz ativa é revolucionária: “A paz fez um mar da revolução”. Ela é fruto das circunstâncias históricas. O desejo e a luta pela pacificação provêm de situações em que a violência quer se impor: Como aquela grande explosão, uma bomba sobre o Japão fez nascer o Japão da paz”. Os bombardeios atômicos de agosto de 1945 realizados pelos Estados Unidos contra o império do Japão em Hiroshima e Nagasaki, posteriormente se mostraram, a duras penas, que atentados como esses deixam sequelas inenarráveis na história da humanidade. Colocar-se contrário a essas formas de violências consiste num verdadeiro imperativo. Hiroshima e Nagasaki sempre voltam simbolicamente quando, em nome do poder ou das ideologias de morte, alguns querem se impor em detrimento dos direitos humanos anunciando-se como messias.

Ser arautos da paz é, em ultima análise, ter amor próprio e, concomitantemente, viver a alteridade: “eu pensei em mim, eu pensei em ti”. É desejar o bem para a humanidade que padece por conta da violência. Nesse sentido, o choro é a expressão simbólica de que a guerra, a violência não trazem nada de saldo positivo, enquanto elas estão acontecendo: “eu chorei por nós”. Porém, é nessa contradição que se assume a paz como verdadeira bandeira e luta contra os desmandos dos poderosos que querem impor suas ideologias por meio das agressões físicas, verbais ou simbólicas. A pacificação é associada ao amor humanitário. Diante dos “lamentos de tantos ‘ais’” o amor, indubitavelmente, se torna o horizonte referencial para os promotores da paz.

A canção de Gilberto Gil é um grito para a instauração da paz. Para que ela seja vencedora diante das violências que insistem em se impor. Nesse sentido, a Palavra de Deus é iluminadora. Não existe paz sem uma luta pela justiça. Afinal, justiça e paz se abraçam (Sl 85,11). Nessa lógica, pode-se entender quando Jesus, no discurso inaugural em Mt 5-7, afirma em 5,9 a bem-aventurança dos que promovem a paz. Por estar vinculada à justiça, no mesmo discurso se pontua duas vezes, nota-se que é a única bem-aventurança a se repetir, sobre a justiça: “felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (5,6) e “felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (5,10). Interessante observar também que a paz é dom do Ressuscitado à comunidade. Nos relatos das aparições aos discípulos O Cristo Ressuscitado deseja-a (Jo 20,19; 20,26) ao encontrar com os seus amigos. Esse desejo é pleno de significado, uma vez que o desfecho da vida de Jesus de Nazaré fora marcada pela violência política e religiosa que o levou a ser preso político, sob a bênção dos religiosos de sua época; condenado e executado no madeiro romano. Com isso Ele mostra que a última palavra e definitiva é da paz. Não no sentido da Pax Romana, nem tão pouco somente na lógica da Paz Perpétua postulada por Immanuel Kant (1724-1804), mas no sentido do Shalom que é a plenitude da paz.

Mas, afinal, o que a mensagem de Paulo VI, a canção de Gilberto Gil e a iluminação bíblica nos dizem atualmente no caso brasileiro?

O Brasil é um país marcado pela desigualdade social. Essa desigualdade é que gera as violências. Busca-se cada vez mais criminalizar a pobreza. Basta ver, por exemplo, a política criminal das drogas vigente. Além do mais, tem-se buscado soluções preguiçosas para problemas complexos de violências. Há poucos dias, o presidente Bolsonaro anunciou que por meio de decreto, portanto um ato normativo infralegal segundo os moldes da pirâmide de Hans Kelsen (1881-1973), a despeito da lei 10.826/03, facilitará a posse de armas. Enquanto em 1968 Paulo VI já observava o perigo das violências e do uso das armas que exterminam. Ao invés de ir na raiz do problema da violência, que para isso depende do uso da inteligência e de colocar especialistas sérios e gabaritados para discutir a questão e encontrar saídas, busca-se, por meio de ações negativamente eleitoreiras e néscias, solucionar um problema que é macro e que perpassa pela política econômica, social e educacional dentro de uma perspectiva do Estado Democrático de Direito. Não se encontra a paz por meio da violência. O problema das violências não se origina nas bases, como por exemplo, acreditar que a raiz esteja no jovem que furta ou rouba e que o matando ou encarcerando-o dar-se-á fim a essa situação. A questão é o sistema sócio-político-econômico. Enquanto ele não mudar, as bases não mudam. Ou seja, enquanto não houver justiça e diminuição das desigualdades sociais com distribuição de renda, continuaremos a enxugar gelo e a pensar que o direito penal é que deve resolver todos os problemas de violências via pena privativa de liberdade, uma vez que as penas restritivas de direito já soam como uma aberração numa sociedade punitivista. Um equívoco pensar isso. Basta olhar as experiências positivas no mundo, como no caso holandês, que entendeu perfeitamente o direito penal como a ultima ratio e por isso teve um decréscimo agudo da população carcerária.

Para as pessoas cristãs, no sentido mais profundo desse modo de ser no mundo, celebrar o dia mundial da paz no Brasil é em última análise ser uma pessoa revolucionária que tem o amor em seu horizonte para que a paz tenha a palavra definitiva e não as violências. É lutar pelos direitos e garantias fundamentais, sobretudo nesse tempo sombrio que paira sobre nós em que o discurso de violência se fez presidência e a presidência patrocina esse modus operandi regado a açaí e suco de laranja a despeito da vida de inúmeros brasileiros e brasileiras que voltaram a figurar no mapa da fome. Não pode haver paz como shalom nessa Terra de Santa Cruz enquanto houver uma pessoa sem terra, teto e trabalho como nos ensina Papa Francisco.

Pacifistas do mundo inteiro, uni-vos!

*César Thiago do Carmo Alves pertence à Congregação Religiosa dos Filhos de Maria Imaculada (Pavonianos). É doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE.

TAGS


EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!



Outras Notícias

Não há outras notícias com as tags relacionadas.

Comentários