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22/01/2019 | domtotal.com

Big Brother Brasil em noite de eliminação

Mesmo com tanto tempo de existência, ainda continuamos sem saber os critérios para a escolha dos participantes.

O que ganhamos ao assistir isso? O que aproveitamos da experiência?
O que ganhamos ao assistir isso? O que aproveitamos da experiência? (Divulgação / TV Globo)

Por Alexis Parrot*

Hoje à noite o Brasil vai conhecer o primeiro eliminado do Big Brother Brasil, a verdadeira largada para mais uma edição do programa que há 19 anos insiste em invadir nossos verões. Mesmo com tanto tempo de existência, ainda continuamos sem saber os critérios para a escolha dos participantes.

Há sempre um simulacro de diversidade entre os confinados (uma tentativa de flerte com o politicamente correto) e este ano o grupo inclui variadas cotas: de raça, de orientação sexual e de idade. Porém, ainda que diferentes no colorido ou nos sotaques, o grosso dos habitantes da casa é muito parecido em forma e conteúdo.

São moças siliconadas de biquini e rapazes bombados com o talento inato para a autoexposição. Por terem muito pouco a dizer, falam sem parar. (A falta de assunto é tão gritante que o ronco do Rodrigo virou o grande tema da primeira semana de exibição.)

Realities como De Férias com o Ex e Geordie Shore (ambos da MTV) são mais autênticos neste sentido, por assumirem o que de fato são: pura pegação entre jovens desmiolados.

Os desserviços que o programa presta começam já nesta seleção, como na cota de idade e de como ela é apresentada. No mundo do BBB, somos levados a crer que uma mulher de 53 anos é velha e o participante de 40 anos, pelo que o ambiente da casa proporciona, acaba se autodeclarando um "tiozinho". São pessoas no auge da força criativa e de trabalho, cuja experiência e trajetória de vida merecem um tratamento mais digno.

Na cota racial são cinco negros. Melhorou muito - alguém pode dizer - porque, afinal, já houve um tempo em que só entravam dois, um homem e uma mulher. A verdade é que a casa continua tão branca quanto a Bahia da novela Segundo Sol e bem diferente do que é o Brasil.

Ah! E tem também a cota dos sósias, aqueles candidatos que se parecem ou se acham parecidos com alguém famoso, ou pior, que clamam ser a reencarnação de algum antigo "brother". Nesta categoria, minha favorita de todos os tempos é a Dona Geralda, do BBB 16. Já repararam que ela é a cara do vice-presidente, o General Mourão?

Com eternas promessas de renovação, esta nova edição começou com gincanas que não empolgam ninguém, além de lembrar muito os programas de auditório do SBT. Outra das novidades prometidas e já apresentada é um certo Quarto dos Sete Desafios, na verdade uma câmara de tortura psicológica que promete deixar sequelas nos pobres coitados que nele forem obrigados a se aventurar.

Mas com ou sem o tal quarto, no fim, todo o programa não passa de uma festinha sadô-masô. Os masoquistas se exibem e nós, os sádicos, somos convidados a julgá-los e castigá-los um a um, até que se chegue não a um vencedor, mas ao último combatente de pé. Com a exceção deste primeiro super paredão, somos instados semanalmente a escolher quem deve ser atirado aos leões (e virar subcelebridade no mundo real).

Sobre hoje à noite, é impossível apostar em quem será o primeiro eliminado. São 14 concorrentes e a diferença entre os últimos colocados deve ficar muito embolada, coisa de centésimos de diferença, até o anúncio final.

Mas já arrisco um nome que deve avançar muito na competição: Carolina, que de peixinho não tem nada, está mais para tubarão. Com muita habilidade e cálculo, já consegue convencer a "sister" Isabela a fazer o que ela manda, sem perceber que está sendo manipulada. Vai repetir isso com vários, aposto, e sempre sair com imagem de boa moça. Um perigo e fortíssima candidata ao prêmio.

Consegui identificar as qualidades maquiavélicas da baiana Carolina por mero dever do ofício. Além de ter assistido a todos os programas levados ao ar até agora, me obriguei a passar a tarde de ontem e grande parte desta madrugada de olho no pay per view.

Com alguma propriedade, sou obrigado a questionar: O BBB é um enorme esforço de produção, um investimento financeiro monstro, uma logística de deixar qualquer empreiteira de obras maluca... Isso tudo para quê?

O que ganhamos ao assistir isso? O que aproveitamos da experiência? O que fica para nós, quando tudo termina? O entretenimento na televisão precisa ser tão raso, tão infame, tão vazio de sentido? Essa é a TV que queremos?

Nessa primeira semana de programa, é muito provável que um só momento tenha de fato valido a pena, quando Vanderson se ofendeu com uma brincadeira de mau gosto do oftalmologista e baladeiro Gustavo. Talvez a raiz do problema não esteja na TV ou nem mesmo no programa.  

Triste é o país que precisa de um Big Brother para nos lembrar (ou ensinar) que índio não é bicho. Acho que vou passar um zap pro Bolsonaro. Ele precisa ver isso.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

EMGE

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