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29/01/2019 | domtotal.com

Brumadinho: o reality show da lama

A tragédia de Brumadinho, cujos detalhes e desdobramentos acompanhamos em tempo real pela TV, não difere dos realities porque tem até patrocinador: a Vale.

Não é de hoje que autoridades dos executivos, da justiça e dos parlamentos mineiro e federal abrem mão do papel de Big Brother e deixam de exercer a supervisão e fiscalização das mineradoras.
Não é de hoje que autoridades dos executivos, da justiça e dos parlamentos mineiro e federal abrem mão do papel de Big Brother e deixam de exercer a supervisão e fiscalização das mineradoras. (Ricardo Stuckert)

Por Alexis Parrot*

O final de semana trágico vivido pelos moradores da mineira Brumadinho, funcionários da Vale e seus familiares é o assunto principal de todas a emissoras e canais de TV Brasil afora. Até agora são 65 mortos e quase 300 desaparecidos. De certeza, apenas a lama e a revolta.   

Não é de hoje que autoridades dos executivos, da justiça e dos parlamentos mineiro e federal abrem mão do papel de Big Brother e deixam de exercer a supervisão e fiscalização das mineradoras. Todo mundo sabe que o rastro que estas deixam por onde passam é de destruição, mas quem tem o poder para quebrar o ciclo e cobrar responsabilidades deixa tudo como está - quando não em troca de algumas estalecas de propina.

No momento, assistimos atônitos a uma prova do líder na vida real; a disputa entre bombeiros e a força-tarefa enviada por Israel, para ver quem é mesmo o bamba do resgate. No mundo da defesa civil transnacional, quem domina é o ego da corporação, acima do interesse de salvar vidas. Quando se entenderem, só resgatarão cadáveres.

Mas se até a Procuradora Geral veio para visitar os escombros da cena do crime (uma atitude inédita na história do Ministério Público Federal), resta claro que todo mundo quer tirar uma casquinha e se aproveitar dos holofotes que miram a tragédia. Meu voto de eliminação vai para ela, por falta total de afinidade com a compostura que seu cargo demanda.

Enquanto isso, o presidente se encastela em um quarto do Albert Einstein, com a desculpa da retirada da famosa bolsa de colostomia - o subterfúgio que vem usando a torto e a direito para escapar de entrevistas e fugir de responsabilidades. Já mandou avisar que sua recuperação pode durar até dez dias, tempo em que se manterá distante de Minas e da coordenação de qualquer reação ao desastre criminoso.

Como todo participante de reality que se preza, estará presente apenas no twitter, apelando para a simpatia de seguidores, mais uma vez vestido com a camisola hospitalar - seu uniforme favorito depois da farda verde oliva.

A tragédia de Brumadinho, cujos detalhes e desdobramentos acompanhamos em tempo real pela TV, não difere dos realities porque tem até patrocinador: a Vale, mineradora portentosa, cuja missão consiste em: "transformar recursos naturais em prosperidade e desenvolvimento sustentável" - esta verdadeira piada está disponível em seu site na internet. Fora da web, a história é bem outra.

Podem me chamar de "velho do Restelo", o personagem agourento dos Lusíadas, mas não era difícil imaginar que, mais dia, menos dia, algo como o rompimento desta barragem aconteceria. É bom lembrar do que houve em Mariana, em 2015, e que pouco ou nada aconteceu com os responsáveis pela desintegração da comunidade de Bento Rodrigues e pelas consequências ambientais monstruosas; a mais perigosa, o emporcalhamento do rio Doce - que levará um século para se recuperar.

O rompimento da barragem em Mariana foi também um oferecimento da Vale, vejam só... Estamos vivendo um verdadeiro All Stars, aquele tipo de reality onde retornam participantes que se destacaram em edições passadas do programa.

É a Vale de novo no ar - destruindo a vida em todas as formas e matando pessoas. Até quando? 

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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