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05/02/2019 | domtotal.com

Vai romper!

Qual é a diferença de princípios e valores desta situação absurda e a situação de um grande número de barragens espalhadas por todo Brasil?

Suas causas vão muito além da engenharia (dita tradicional) per se ou
Suas causas vão muito além da engenharia (dita tradicional) per se ou (Mauro Pimentel / AFP)

Por José Antônio de Sousa Neto*

Faz alguns anos um alto executivo de um banco e colega na empreitada de financiar projetos de infraestrutura no Brasil contou-me uma história interessante. Ele me disse que certo dia sua avó chegou até ele e perguntou: "meu neto, eu estava pensando em investir no Banco X (nome fictício), mas fiquei na dúvida se é uma instituição segura. O que você acha? Poderia me orientar?" A resposta dele não poderia ser mais razoável: "Vó, a partir do momento que você faz uma pergunta dessa sobre um banco é porque a priori ele já não serve!!"

Imagine, caro leitor, que você esteja querendo comprar um imóvel ou trabalhe em um prédio onde as pessoas lhe digam o seguinte: Pode ficar tranquilo. O método construtivo não é dos mais modernos e nem, reconhecemos, dos mais seguros, mas está dentro das normas e teremos um sistema de avaliação do risco de colapso da estrutura de tempos em tempos, sobretudo no decorrer dos anos quando os riscos de estabilidade tendem a aumentar.....Colocaremos inclusive sirenes de alerta e faremos de tempos em tempos exercícios de evacuação emergencial em caso de risco de colapso. Ora, eu lhe pergunto caro leitor: quando paramos para pensar, qual é a diferença de princípios e valores desta situação absurda e a situação de um grande número de barragens espalhadas por todo Brasil e que têm as mesmas características das barragens que se romperam em Mariana e Brumadinho?

É obvio que existem níveis diferenciados de risco de engenharia e assuntos desta gravidade não podem ser tratados de forma superficial. Incêndio, por exemplo, é um risco presente em edificações. Sirenes de alerta são utilizadas e exercícios de fuga necessários. Mas o caso da situação das barragens de "alteamento a montante" no Brasil  se enquadra quase em uma categoria à parte. O absurdo da situação hipotética imaginada no parágrafo anterior nos faz perceber de forma mais contundente o absurdo da situação destas barragens. Questões relacionadas ao material que as compõe e ao método construtivo, ao risco de liquefação em alguns casos, questões geológicas naturais e incidências causadas pela própria ação do homem e o próprio desgaste natural, por diversas razões, das estruturas ao longo do tempo, de forma individual, mas na maioria das vezes em uma combinação de causas, tornam muitas destas estruturas verdadeiras bombas relógio. Já não é de hoje que se sabe que, nas condições atuais e se nada for feito, o colapso de mais estruturas desta natureza não é uma questão de se, mas de quando!  Alguma vai romper! Se você me perguntar, caro leitor: será que é seguro investir em uma propriedade ou construir alguma coisa perto ou na linha de frente de uma estrutura dessas? Não poderei deixar de responder: a partir do momento que você faz uma pergunta dessa sobre uma barragem de alteamento a montante é porque a priori ela já não serve como "vizinha"!!

Este é um problema relacionado à engenharia? Certamente. Mas é obvio também que a boa engenharia vai muito além de cálculos e materiais devendo ser necessariamente precedida de valores e princípios. Dentre eles, como já falamos aqui neste espaço em ocasiões anteriores, o de que a engenharia só tem valor se for feita para servir ao homem e à natureza em seu entorno e não em detrimento de ambos. Quando não é assim, mesmo que leve um bom tempo, sempre alguma coisa vai dar errado. E em alguns casos, o custo deste errado será absolutamente inaceitável e insuportável. Quando a engenharia não é sustentável as consequências serão sempre insustentáveis.

Algumas reflexões são necessárias neste ponto. Embora o rompimento da barragem que causou a tragédia de Brumadinho seja, sob uma perspectiva técnica, uma questão eminentemente de engenharia, suas causas vão muito além da engenharia (dita tradicional) per se ou, como temos argumentado, só podem ser analisadas com a perspectiva de uma engenharia e de um desenvolvimento sustentável.  Aqui existem sérias questões de ordem econômica, de ética empresarial e de valores morais, e relacionadas ao funcionamento de nossas instituições: executivo, legislativo e judiciário. A trágica falta de efetividade (eficácia + eficiência) destas instituições em conjunto com a busca desenfreada, por parte do setor privado, pela maximização de retorno quase a qualquer custo tem sido fatal.

Seja como for, uma coisa eu considero inescapável. Não consigo parar de pensar que, no final das contas, mesmo sob a proteção de instituições e empresas, mesmo reconhecendo que há situações tão complexas que somente a Providência poderá julga-las com justiça perfeita, os vetores que tem feito parte deste enredo, nas empresas ou instituições  são e serão sempre as pessoas. Mesmo que não percebam ou não queiram perceber não escaparão da verdade de que boa ou má ação fica para quem a faz. Se há uma conta a pagar é certo que um dia ela vai chegar! Não há exceção a esta regra.

* Professor da EMGE (Escola de Engenharia de Minas Gerais)

EMGE

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