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05/02/2019 | domtotal.com

Boneca Russa - o aprendizado pela repetição

Os oito episódios são na verdade capítulos de uma bem amarrada e intrigante minissérie que faz rir, assusta e nos deixa com algumas pulgas atrás da orelha.

Dentro da boneca maior tem outra, e outra dentro dessa, e outra, e outra, e outra... Alfa e ômega se encontram contínua e eternamente.
Dentro da boneca maior tem outra, e outra dentro dessa, e outra, e outra, e outra... Alfa e ômega se encontram contínua e eternamente. (Netflix)

Por Alexis Parrot*

Ao completar 36 anos, a protagonista Nadia (a atriz Natasha Lyone, de Orange is the New Black e co-criadora da série) morre atropelada e volta para o momento exato em que começou a festejar o aniversário naquela noite. Tão intrigados quanto ela, assistimos à situação se repetir inúmeras vezes; um labirinto que leva sempre de volta ao ponto de partida - como em um jogo de videogame, em que se "morre" ao não ultrapassar uma fase para ser atirado novamente ao início, sob o veredito implacável de Game Over.

Recém-estreada no Netflix, os oito episódios de Boneca Russa são na verdade capítulos de uma bem amarrada e intrigante minissérie que faz rir, assusta e nos deixa com algumas pulgas atrás da orelha (o que só pode ser um bom sinal).

Veremos a mesma cena um sem número de vezes até o último episódio. Como a personagem, não dá para saber exatamente se acompanhamos seu processo de enlouquecimento, uma aventura fantástica, uma bad trip de drogas ou se de fato ela morreu e está pagando pelo que fez ou deixou de fazer, até alcançar a paz eterna.

A estrutura não é inédita; já vimos isso algumas vezes, o filme Feitiço do Tempo sendo o exemplo mais bem acabado da ideia do personagem preso no tempo, revivendo um período da própria vida infinitamente - para ver se aprende alguma coisa. Só assim se livra do fenômeno improvável em que se vê encarcerado.

Mesmo que o filme da marmota pareça a matriz principal (não declarada) dessa Boneca Russa, com o avançar dos episódios nos esquecemos completamente de Bill Murray e seguimos com sofreguidão as aventuras de Nadia, porque as duas obras têm mesmo muito pouco em comum, além disso. (Acrescente o perfil da personagem, uma figuraça amoral, única em suas qualidades e defeitos; em suas próprias palavras, "uma mistura de Andrew Dice Clay com a princesa do desenho Valente".)

A literalidade da repetição do ponto de partida tanto no filme (o despertador tocando pela manhã) quanto na série (o olhar-se no espelho do banheiro retrô/futurista da casa onde está acontecendo a festa de aniversário) nos leva a essa primeira impressão mas, com o avançar dos episódios, descobrimos que se lá discutia-se o tempo, agora a morte ganha o posto de questão central.

E se distanciam mais ainda quando percebemos que as aspirações filosóficas e morais de Feitiço do Tempo são abandonadas para embarcamos em uma viagem puramente baseada na psicanálise (de botequim, vá lá... mas ainda assim, psicanálise).

E há também alguma correlação com as aventuras de Alice de Lewis Carroll com pitadas de Peter Pan - sim, Nadia recusa-se a crescer e toda a confusão começa porque sua mãe morreu aos 35 anos. Chegar à marca dos 36 é algo que traz alívio e peso para ela, uma espécie de segunda maioridade. O pior labirinto que temos que atravessar é sempre aquele que nós mesmos criamos.

As citações vão se acumulando e até Jodorowsky comparece. Ao usar "Duna de Jodorovsky" como senha para entrar na parte mais suspeita de um bar já suficientemente suspeito, não é difícil ligar os pontinhos e perceber de pronto que estamos no terreno do onírico, do bizarro e da obsessão.

Assim como o cineasta chileno Alejandro Jodorowsky e o maior filme de sua carreira, justamente o que não conseguiu realizar e que o assombra ainda hoje, o épico Duna, Nadia está também em uma jornada sem volta, com a construção de uma das mais interessantes metáforas da matrioshka já vista.

Dentro da boneca maior tem outra, e outra dentro dessa, e outra, e outra, e outra... Alfa e ômega se encontram contínua e eternamente; morte e vida alimentam-se mutuamente, não mais uma o oposto da outra.   

Com uma narrativa sofisticada que avança sem avançar (não o único, mas o principal mérito da série), Boneca Russa traz frescor para o mundo tão inflado, numeroso e repetitivo das séries de televisão porque vai a fundo na investigação a que se propõe, sem subterfúgios. É comédia seríssima e de primeira classe.

Ri da morte e de como não conseguimos encará-la ou aceitá-la - como se enfrentar a vida de frente não fosse o nosso verdadeiro e diário cavalo de batalha. Talvez só morrendo várias vezes mesmo conseguimos seguir adiante.   

- BONECA RUSSA: minissérie em oito episódios, disponível no Netflix.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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