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05/02/2019 | domtotal.com

'Levaram a vida do meu filho, agora têm que devolver o corpo', diz pai de vítima da tragédia de Brumadinho

Idoso permanece no local desde o dia do rompimento em busca de notícias do filho, um dos quase 200 desaparecidos no rompimento da mina da Vale.

Wilson Caetano trava uma busca por notícias do filho, vítima do rompimento da barragem da Vale.
Wilson Caetano trava uma busca por notícias do filho, vítima do rompimento da barragem da Vale. Foto (Thiago Ventura/DomTotal)
"Campinho" da Igreja Nossa Senhora das Dores virou a base área das equipes de buscas. Foto (Thiago Ventura/DomTotal)
Clima de  tristeza e muito movimento de voluntários e ONGS no Córrego do Feijão.
Clima de tristeza e muito movimento de voluntários e ONGS no Córrego do Feijão. Foto (Thiago Ventura/DomTotal)
"Campinho" da Igreja Nossa Senhora das Dores virou a base área das equipes de buscas. Foto (Thiago Ventura/DomTotal)
Lista de mortos e desaparecidos é atualizada duas vezes ao dia.
Lista de mortos e desaparecidos é atualizada duas vezes ao dia. Foto (Thiago Ventura/DomTotal)
"Campinho" da Igreja Nossa Senhora das Dores virou a base área das equipes de buscas. Foto (Thiago Ventura/DomTotal)
"Campinho" da Igreja Nossa Senhora das Dores virou a base área das equipes de buscas. Foto (Thiago Ventura/DomTotal)
Lama prejudicou o trabalho dos bombeiros e dificulta o trânsito de moradores em Brumadinho.
Lama prejudicou o trabalho dos bombeiros e dificulta o trânsito de moradores em Brumadinho. Foto (Thiago Ventura/DomTotal)
"Campinho" da Igreja Nossa Senhora das Dores virou a base área das equipes de buscas. Foto (Thiago Ventura/DomTotal)

Por Thiago Ventura
Enviado especial a Brumadinho (MG)

BRUMADINHO (MG) - ‘Levaram a vida do meu filho, agora eles têm que devolver o corpo’. A frase forte, dita com lágrimas no rosto revela o sofrimento dos familiares das centenas de vítimas da rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho, região metropolitana de Belo Horizonte, no último 25 de janeiro. A esperança por um final feliz já deu lugar à intenção de ao menos oferecer um velório digno da vítima pela família.

Essa busca incessante, que surpreende até mesmo os voluntários é do aposentado Wilson Francelino Caetano, de 64 anos, morador de Pará de Minas, cidade distante cerca de 75 km do local da tragédia. A reportagem do DomTotal encontrou o idoso nessa segunda (4), na associação de moradores de Córrego do Feijão. Desde o dia do rompimento da barragem que ele vai todos os dias ao local em busca de notícias do filho, Luís Paulo Caetano, de 31 anos.

“Minha rotina é ficar todo o dia aqui (em Córrego do Feijão) tentando saber onde está meu filho. Eu tinha esperança que ele viesse vivo pra mim, mas eu sei que não vem mais. Ele tinha tamanho e estrutura e muita destreza; era lutador de jiu-jitsu. Mas ninguém consegue lutar contra um inferno daquele”, conta.

Luís Paulo é um dos 199 desaparecidos da tragédia (número atualizado até às 20h de 4/2). Ele era mecânico de manutenção de uma empresa terceirizada e por uma fatalidade estava no local do rompimento. Segundo Wilson, ele vinha poucas vezes nessa mina; ele e seus colegas não conseguiram terminar um reparo na quinta e tiveram que retornar ao local na fatídica sexta. Um primo de Luís Paulo também está desaparecido.

Wilson relata que acorda cedo e vem todos os dias até Córrego do Feijão acompanhar os trabalhos bombeiros; só vai embora quando o último helicóptero pousa no ‘campinho’, que virou heliporto das aeronaves de busca. “Minha esperança é que tragam ele lá”, lamenta com um olhar de tristeza muito difícil de descrever. Nessa segunda, devido à chuva, o trabalho dos bombeiros foi interrompido na parte da manhã.

“Levaram a vida do meu filho, agora eles têm que devolver o corpo para gente enterrar. Quero meu direito como pai e para dar o direito para mãe dele. Ela chora dia e noite. Eu não posso trazer aqui por que ela toma remédios. Se ela ver uma tragédia dessa, além de perder ele, vou perder ela”, desabafa Wilson, que tem outros dois filhos.

No 12ª dia de buscas, o idoso já exibe o cansaço de um busca implacável por notícias. “Sou praticamente uma pessoa vazia, sem nada por dentro, sem dormir, sem se alimentar direito e cansado”, afirma. Carinhosamente chamado de ‘seu Wilson’ pelos voluntários, ele é confortado e quase sempre recusa educadamente as ofertas para se alimentar ou ao menos sentar para descansar.

Seu Wilson promete ficar no local até conseguir recuperar o corpo do filho. “E eu vou ficar aqui. Se não me deixarem entrar, sento no meio da estrada, pois eu tenho direito de ficar. Eu quero ter uma notícia ao menos para descansar minha cabeça”, diz.

Até às 14h desta quarta-feira, 5 de fevereiro, o nome de Luís Carlos Caetano permanece entre os desaparecidos.

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Redação DomTotal

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