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09/02/2019 | domtotal.com

'Guerra Fria' traz a história de um casal numa época de ebulição política

Mais que filme político, Guerra Fria deve ser visto como uma história de amor difícil, prejudicada pelas circunstâncias históricas.

O casal do filme, Zula e Wiktor, é inspirado nos pais do diretor.
O casal do filme, Zula e Wiktor, é inspirado nos pais do diretor. (Neue Visionen Filmverleih/ Divulgação)

Talvez seja arriscado dar a um filme o título de um período histórico. É o que faz Pawel Pawlikowski com seu Guerra Fria, sugerindo que vai abordar esse período extenso, de 1945 a 1991, quando o mundo esteve à mercê das batalhas estratégicas entre Estados Unidos e União Soviética. No entanto, mais que filme político, Guerra Fria deve ser visto como uma história de amor difícil, prejudicada pelas circunstâncias históricas. Uma espécie de Doutor Jivago, ambientado não nas estepes da Revolução Russa, mas no Leste Europeu cortado da Europa ocidental pelos acordos que puseram fim à 2ª Guerra Mundial.

Zona de influência da então União Soviética, a Polônia tornou-se stalinista, isto é, sujeita a um regime político que deixava pouco espaço às liberdades individuais. Nesse ambiente minado, se movem, se encontram e desencontram Zula (Joanna Kulig) e Wiktor (Tomasz Kot). Ele, um professor de música, ela uma promissora cantora vinda do interior e cuja voz singular e beleza estonteante a colocam em destaque entre as outras concorrentes a uma vaga na escola de música. Eles se conhecem em Varsóvia, depois perambulam por Paris, pela antiga Iugoslávia e Berlim. Nesse mundo em transe do pós-guerra, o homem e a mulher mantêm um romance igualmente tumultuado, cheio de encontros e separações, brigas e compreensão, acertos e desarranjos, como se simbolizassem, como indivíduos, o balé desencontrado das potências militares em litígio.

Conta o diretor que fez o filme em homenagem ao pai e à mãe, cujos nomes são os mesmos dos protagonistas, Zula e Wiktor. Talvez essa referência doméstica transmita calor extra à história, mas não beneficia tanto a perspectiva histórica, que parece um tanto turva. Não que Pawlikowski não cuide desse aspecto. Apenas, a costura entre o âmbito pessoal e o painel histórico resulta às vezes mal-acabada. Não falta também certo ar melodramático, que dá ao filme atmosfera meio retrô. Isso não é defeito em si, mas suga intensidade à obra.

Por outro lado, Pawlikowski usa uma série de expedientes de direção que tentam colocar o filme num escaninho à parte. A começar pela "janela" de exibição, em formato quadrado e não panorâmico, como seria o usual. Depois, pela fotografia em preto e branco, a sugerir um tempo antigo no qual aquele tipo de coisa vista na tela acontecia pelo mundo. Quer dizer, num mundo anterior a 1989, queda do Muro de Berlim, e 1991, dissolução da União Soviética. Mundo no qual as pessoas podiam ser controladas pelos governos (como se hoje não fossem...), tinham dificuldade em se deslocar de um país a outro, eram expostos ao suplício das fronteiras, etc.

Esses expedientes parecem colocar Guerra Fria naquele nicho específico dos "filmes de arte", daqueles que fazem questão de exibir essa marca registrada, signo de prestígio cultural que, se não dialoga muito bem com o público, em compensação habilita-se a prêmios artísticos e dignidade intelectual. "Filme de festival", costuma-se dizer, de maneira depreciativa.

De resto, se assim for, surtiu efeito. Guerra Fria deu a Pawlikowski a Palma de direção no Festival de Cannes. Justificável, pois a direção é virtuosística, embora haja quem valorize uma certa discrição de métodos. O diretor polonês prefere exibir seus dotes. Ostentar, diriam os mais maldosos.

Se esse reparo cabe, deve-se também dizer que essa bonita história de amor é conduzida sem qualquer obviedade. Sem autopiedade, Zula e Wiktor sofrem, porém parecem conscientes de que seus desencontros se dão tanto por circunstâncias da época em que vivem como por suas carências pessoais. Nada se pode fazer, a vida é assim, parecem dizer.

Joanna Kulig e Tomasz Kot têm interpretações marcantes, em especial pelas diferenças de personalidade dos personagens. Ela é uma força da natureza, talentosa e sexualmente audaz. Ele pende para uma certa melancolia introspectiva. Pelo contraste de personalidades, completam-se. Mas esta completude é incapaz de mantê-los juntos, e essa é sua tragédia. Ao longo do período abordado, 15 anos, eles expressarão no rosto não apenas o passar do tempo, mas a soma de sofrimentos e desilusões que a vida lhes impõem. É bonito, e é triste.

Confira outros filmes em cartaz:

Uma Aventura Lego 2 (The Lego Movie 2 - The Second Part, Estados Unidos/2019, 107 min.) - Animação. Dir. Mike Mitchell (V). Com Chris Pratt, Elizabeth Banks, Will Arnett. Continuação de um grande sucesso dos cinemas, mostra o que acontece quando novos personagens, os invasores Lego Duplo, chegam do espaço e destroem tudo o que veem pela frente, causando grandes transtornos para Emmet e sua turma. Livre.

Escape Room (Escape Room, Estados Unidos/2018, 100 min.) - Suspense. Dir. Adam Robitel. Com Taylor Russell McKenzie, Logan Miller, Deborah Ann Woll. Seis jovens que não se conhecem são convidados para um experimento inusitado. Eles são trancados em uma sala repleta de enigmas e armadilhas. O prêmio, caso consigam escapar, é de 1 milhão de dólares. Mas logo eles vão perceber que os perigos são mais reais do que eles imaginavam. 14 anos. 

O Galã (Brasil/2019, 97 min.) - Comédia. Dir. Francisco Ramalho Jr.. Com Thiago Fragoso, Luiz Henrique Nogueira, Fiuk. Júlio é um ator que faz de tudo para se firmar na carreira, porém, a maioria de suas tentativas costuma dar errado. Quando se vê disputando o papel de galã em uma novela com um jovem ator, decide recorrer ao irmão, um conhecido e recluso roteirista, com quem teve pouco contato durante a vida. 12 anos.

Jovens Infelizes ou um Homem que Grita Não É um Urso que Dança (Brasil/2017, 125 min.) - Ação. Dir. Thiago B. Mendoça. Com Nani de Oliveira, Kiko Dinucci, Carlos Francisco. Um grupo de artistas politicamente engajado vive em constante contestação de uma sociedade cada vez mais dividida. Morando na mesma casa, eles enfrentam dificuldades financeiras e tentam criar uma arte revolucionária capaz de enfrentar o sistema. 18 anos.

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Se a Rua Beale Falasse (If Beale Street Could Talk, EUA/2018, 120 min.) -
Ação. Dir. Barry Jenkins. Com KiKi Layne, Stephan James, Regina King. Tish, uma jovem de 19 anos, luta para livrar da cadeia o amor da sua vida, Fonny, preso injustamente, acusado de um terrível crime. Grávida e lutando contra o racismo, ela espera vê-lo livre a tempo do nascimento de seu filho. 14 anos.

Vergel (Vergel, Argentina/2017, 86 min) - Drama. Dir. Kris Niklison. Com Camila Morgado, Maricel Álvarez, Daniel Fanego. Uma brasileira espera o corpo do marido morto durante as férias do casal na Argentina. Na longa espera, ela começa a perder a noção do tempo e passa a viver fora da realidade. Ela encontra na vizinha alguém com quem dividir sua dor. 16 anos.


Agência Estado

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