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10/02/2019 | domtotal.com

Um leão na jaula

Seu certo grau de decadência despertava mais curiosidade do que interesse pela sua imperial condição felídea.

Os jovens se foram e ficamos só nós dois, ainda lucubrando sobre a senectude que nos recolhe, como ao leão, a uma jaula
Os jovens se foram e ficamos só nós dois, ainda lucubrando sobre a senectude que nos recolhe, como ao leão, a uma jaula (Pixabay)

Por Evaldo D' Assumpção*

Domingo de sol, saí com um amigo a passear. Ambos aposentados e octogenários, tínhamos tempo de sobra para o “dolce far niente” que aprendemos dos italianos em férias. Por acaso passamos pela porta do Zoológico da cidade em que estávamos e resolvemos entrar. Nossa conversa girava em torno das benesses, dos ônus, das alegrias e das dificuldades que a senectude nos proporcionava. Ambos estávamos razoavelmente bem, física, mental e aparentemente. Procurávamos, na medida de nossas possibilidades, aproveitar o que os muitos anos de luta e trabalho nos proporcionaram, para gozar, em tempo ignoto, o que nos restava.

Paramos diante da jaula de um leão também idoso, e ficamos contemplando-o com a mesma pachorra com que ele nos contemplava. Olhávamos para ele, e ele nos olhava. Nada falávamos, e ele sequer rosnava. Só olhares cúmplices, na certa trocando saudades. Nós, na aparente liberdade das ruas, e ele, soberbo animal em imponente postura, mas denotando enfado por sua casa engradada e sem maior espaço.

Nesse instante, chegou um grupo ruidoso de novos e jovens espectadores que o ficaram contemplando. Seu certo grau de decadência despertava mais curiosidade do que interesse pela sua imperial condição felídea. 

Numa quase telepatia, eu e meu amigo fomos identificando-nos com aquele leão, também aposentado. Sem articulação de palavras, imaginamo-nos semelhantes a ele. Os jovens que o contemplavam, contemplavam também àqueles dois senhores – nós –, imaginando-nos como o leão: todos depressivos, provavelmente necessitando de geriatras (será que existem veterinários geriatras?...) para nos prescrever suplementos vitamínicos e resgatadores da memória, como se nossa alimentação não nos fosse suficiente. Certamente haveria a administração também de estimulantes, antidepressivos, qualquer coisa para nos dar ânimo e disposição para o que ainda pudéssemos fazer. Com isso, o leão talvez conseguisse saltar nas grades, dando urros apavorantes, e fazendo a todos tremer de medo. Claro que as barras de ferro iriam contê-lo, mas a plateia extasiada teria descargas de adrenalina, indispensáveis aos humanos da modernidade, sempre tensos, ansiosos e necessitados de fortes emoções. Quanto a nós dois, os discretos anciãos que contemplavam toda a cena, quem sabe poderiam e deveriam entrar no grupo de maratonistas urbanos que, naquele exato momento, passava correndo próximo da jaula, disputando taças, medalhas e prêmios. Depois, certamente esperavam que fossemos todos para o centro da praça comemorar com os vitoriosos, dançando freneticamente o hip-hop, o breaking, o locking, o popping ou, quem sabe, um rock-and-roll, ou o twist, mais afins à nossa distante juventude.

Entretanto, não mais que de repente, saímos de nossas fantasias, sentindo-nos fora do contexto, no meio daqueles jovens que se divertiam fazendo comentários jocosos sobre o leão. Que alheio à tudo, quase dormitava. Imóvel, modorrento, não tomava conhecimento da nossa existência naquele canto do gradil, tampouco da algazarra juvenil, imerso que estava em suas próprias recordações de “pantera leo” – belo nome científico do outrora temido rei da selva.

Eu e meu amigo continuamos em nossa conversa silenciosa, pensando em questionar àqueles jovens como percebiam aquela situação: eram eles que contemplavam o leão, ou era o leão que os contemplava? O espetáculo era aquele garboso animal, ou era ele o espectador, enquanto nós, os humanos, éramos o espetáculo com que ele se divertia todos os dias?

Em seguida ficamos elucubrando como aqueles jovens eram o que já fomos, e nós, sem que eles sequer pensassem nisso, éramos o que eles serão amanhã. Caso cheguem até lá... O tempo passa como as águas que correm no rio: fazem curvas, seguem retas, rolam calmas ou desabam em cachoeiras e corredeiras, mas sempre buscam o mesmo destino: o mar. Assim são os idosos: já experimentaram muitos cursos, já passaram por pedras e florestas, já formaram e admiraram lagos enormes, já foram admirados pela sua impetuosidade. Depois, virá a placidez que antecede a chegada ao mar, quando deixarão de ser o rio, para se tornar parte do todo.

Os jovens se foram e ficamos só nós dois, ainda lucubrando sobre a senectude que nos recolhe, como ao leão, a uma jaula. Nossos familiares, nossos amigos bem mais jovens, quem imagina nossas reais necessidades? Dão-nos afeto, mas nunca nos perguntam, nem se preocupam em saber, que afetos desejamos. Cobram-nos atitudes, sem questionar se queremos ter tais atitudes. Observam-nos como os observadores no zoológico, nos idealizam, e decidem, com sugestões e conselhos, o que precisamos e o que devemos fazer. Como se esperam rugidos e saltos do leão, também de nós esperam coisas que não temos nem queremos mais fazer, tampouco dar. A vida que vivem, já vivemos, e a que nos resta, é outra que eles não conseguem compreender. Alguns supoem ser depressão – e tomem antidepressivos! – outros dizem ser pessimismo, e até exageram afirmando ser derrotismo. Mas que derrota é essa, se tantas vitórias conseguimos, talvez bem mais do que aqueles que tanto nos cobram? Permitam-nos ficar como o leão: sossegado em sua jaula, onde ele contempla e se diverte com os que param à sua frente, iludidos de que são eles os observadores a se divertirem....

* Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

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