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12/02/2019 | domtotal.com

Quais aspectos influenciam na resistência de uma barragem?

Atualizar nossas normas é fundamental para evitar acidentes com tais tipo de estruturas.

O que deve ser mudado tecnicamente para evitar novos rompimentos?
O que deve ser mudado tecnicamente para evitar novos rompimentos? (Reuters)

Por Plínio Santos*

A tragédia do último dia 25 em Brumadinho nos leva a várias discussões do ponto de vista técnico. Quais fatores levaram ao rompimento da barragem? Existe algum problema com o tipo de barragem utilizada? O que deve ser mudado tecnicamente para evitar novos rompimentos? 

Qualquer tipo de estrutura, como as metálicas e as de concreto, sofre um comportamento de “stress” quando submetido a algum tipo de carregamento, como por exemplo os prédios, submetidos a forças aerodinâmicas geradas pelo vento. As barragens também possuem carregamentos, que são gerados pela coluna de rejeito contida. O comportamento de qualquer estrutura vai depender das propriedades mecânicas e de resistência de cada material, e, no caso das barragens, tal comportamento pode mudar de acordo com a interação do fluído com o solo.

Solos que possuem uma drenagem inadequada, recebem muita chuva, possuem excessos de carga ou estão sujeitos a abalos sísmicos, podem estar sujeitos ao fenômeno de liquefação, que acontece quando solos carregados sofrem uma rápida transição do estado sólido para um estado onde ocorre fluidez, ou seja, as partículas sólidas perdem o contato entre si. Ressalta-se que os líquidos não resistem - ou resistem muito pouco, no caso dos rejeitos - a tensões cisalhantes (aqueles carregamentos que fazem as camadas dos fluidos se deslizarem entre si). Isto se traduz em perda da capacidade do solo em resistir as pressões geradas pela coluna de rejeito. A figura a seguir ilustra o fenômeno de liquefação, que pode ocorrer tanto no rejeito, neste caso o rejeito flui e pressiona a estrutura da barragem, ou na própria estrutura da barragem.

Como mencionado no texto do professor Romeu Thomé, da Dom Helder, existem três tipos principais de alteamento de barragens de rejeitos: o método de montante, o método de jusante e o método da linha de centro. A quantidade de material utilizada em cada método, bem como a distribuição deste material, varia de um método para o outro (o que gera uma variação no custo de cada método). Na engenharia de estruturas, sabemos que a resistência de uma estrutura depende não só da quantidade e do tipo de material, mas também da forma ao qual este material está distribuído. Neste sentido, o método usado na construção das barragens pode influenciar em sua resistência. O método de alteamento a montante (usados nas barragens que se romperam em Brumadinho e Mariana) utilizam uma quantidade menor de material, o que a torna mais barata.

Estas são algumas características e fenômenos de extrema importância para o projeto e manutenção de uma barragem de rejeitos. Mas todos os fatores a serem considerados vão muito além. Atualizar nossas normas é fundamental para evitar acidentes com tais tipo de estruturas. Para isto é necessário fazer uma profunda investigação das causas dos últimos acidentes, tais como de Mariana e Brumadinho. Fiscalizar e fazer as empresas cumprirem os requisitos necessários para garantir a segurança e integridade das barragens são essenciais para evitar novas tragédias.

Plínio Santos é professor da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE)

EMGE

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