Meio Ambiente

14/02/2019 | domtotal.com

Um olhar de tristeza para Minas Gerais

O grupo de pesquisa da Dom Helder, ainda no meio de uma pesquisa de campo, em Mariana, tinha a esperança de não ter outra barragem de lama para estudar.

Não há como expressar nesse artigo toda a revolta, angustia e tristeza por mais um descaso com a vida humana...é um sentimento de desespero e impotência.
Não há como expressar nesse artigo toda a revolta, angustia e tristeza por mais um descaso com a vida humana...é um sentimento de desespero e impotência. (Isac Nobrega/ via Reuters)

Por Beatriz Souza Costa*

Ao ouvirmos novamente sobre outra barragem que se rompe em Minas Gerais, ficamos paralisados sem querer acreditar, e assim é melhor pensar: quem sabe seria somente um pesadelo, mas não foi. Esta tragédia não poderia  se repetir.

O grupo de pesquisa da Dom Helder, ainda no meio de uma pesquisa de campo, em Mariana, sobre o resgate do patrimônio cultural imaterial perdido de Bento Rodrigues, tinha a esperança de  não ter outra barragem de lama para estudar. Lá, em Bento Rodrigues, vivemos momentos angustiantes, com o acesso a tantos pertences que foram encontrados na lama. Pertences daquelas pessoas que perderam tudo... até a esperança de continuar vivendo...

Não há como expressar nesse artigo toda a revolta, angustia e tristeza por mais um descaso com a vida humana...é um sentimento de desespero  e impotência. O choro é copioso, pois sabemos que é uma tragédia, com a dor humana e ambiental. É o extermínio do ambiente que nos acolhe, que nós dá o sustento e a vida. Como mensurar o valor da água, da terra, da floresta e das vidas humanas e animais perdidas? Jamais chegaremos próximo de um valor real. Pensem: Como mensurar o amor de uma mãe por um filho? Qual o valor de peixe que ainda não foi conhecido? Ou de uma bactéria? Sim, estamos falando de algo que desconhecemos.

A verdade é que a nossa terra, o nosso ambiente, as nossas cidades não podem mais conviver com o  lixo e rejeito. Há muito que o Planeta Terra pede socorro. Em Minas Gerais ela vomita lama envenenada... Não conseguiremos controlar o incontrolável.  Sabemos que a engenharia tem suas técnicas para desenvolver uma barragem corretamente, mas o homem conseguiu, de forma inescrupulosa, uma forma de ganhar mais e utilizar a técnica a favor da economia e do ganho sem nenhuma responsabilidade. Por isso, a política ambiental tem que ser repensada, redefinida e aplicada. Por isso, que não há meios de se fazer um licenciamento rápido para que a economia se desenvolva e cresça rapidamente. Sim, o princípio da prevenção está em vários artigos da Constituição Federal de 1988, e deve ser respeitada e utilizada em tudo que o homem venha desenvolver economicamente. Mas o princípio maior, da Constituição Federal de 1988, que devemos nos guiar é o da “dignidade da pessoa humana”.

Essa dignidade é aquilo que nos é mais valoroso, nobre de uma pessoa; ao abrirmos dicionários, e textos que falam da dignidade, podemos ver a grandiosidade deste substantivo. Van Rensselaer Potter, em vários momentos de seu livro: “Bioética: A Ponte para o futuro”, descreve o que seja essa dignidade. Ele foi um pesquisador americano na área de oncologia. Potter cita que, o autor Norman Berrill, observou em vários momentos de sua pesquisa: “...Até o momento, como a natureza é considerada, nós somos como um câncer, como células estranhas que multiplicam-se sem controle, incansavelmente consumindo todo o alimento necessário ao corpo”.[1] Potter finaliza essa analogia com a pergunta: “É o destino do homem ser para a Terra o que o câncer é para o homem?”[2]

Devemos fazer o possível e impossível para não sermos a doença  que consome a vida. Afinal, não é esse o destino que queremos para nossas gerações presentes e futuras. Vamos ser a cura, a solidariedade e o amor para as pessoas de Brumadinho e Bento Rodrigues, não deixemos que caiam no esquecimento. 


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[1] “So far as the rest of nature is concerned, we are like a cancer whose strange cells multiply without restraint, ruthlessly demanding the fetched for cancer cells no more than whole organisms know when is starved fo support and dies”. POTTER, Van Rensselaer Potter. Bioethics: Bridge to the Future. Prentice-Hall: N.J. 1971. p. 03. Tradução da autora. 

[2] Idem.

*Pós-Doutora em Direito, Doutora em Direito Constitucional. Professora de Direito Ambiental na Graduação e do Programa de Mestrado e Doutorado em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável da Escola Superior Dom Helder Câmara.

EMGE

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