Meio Ambiente

14/02/2019 | domtotal.com

Brumadinho e a destruição da memória coletiva

Tudo dá lugar a destruição e daí deve surgir uma nova paisagem, a paisagem da destruição, que em muito se aproxima da paisagem de conflito definidas por Donaudieu e Périgord.

A paisagem da destruição deve ter seu canto resguardado, para que seja lembrado e assim não se repita.
A paisagem da destruição deve ter seu canto resguardado, para que seja lembrado e assim não se repita. (REUTERS/ Washington Alves)

Por Maraluce Maria Custodio*

A paisagem é um elemento essencial para a composição da vida e pertencimento das pessoas a uma comunidade. É nela, e com ela, que as relações são construídas. A paisagem é formada pelo olhar ao meio ambiente natural e/ou artificial, gerando uma percepção cultural que cria as raízes de pertencimento do sujeito ao seu meio, querendo protegê-lo, viver nele. Ela não precisa ser bonita ou monumental, apenas representativa para a comunidade que a vê e por isso importante o suficiente para ser protegida.

Quando em janeiro deste ano, em Brumadinho, a barragem de mineração da Vale do Rio Doce rompe, ela não destrói apenas vidas ou natureza. Ela conduz à perda daquele local que representa para as comunidades e todas as formas de vida, o lar, quebrando esta relação de pertencimento.

Quando a lama desceu comunidades, como os indígenas Nao Xohã, em São Joaquim de Bicas, perderam o rio e o que ele representa, moradores outros perderam locais de representação de sua infância, de relações que construíram a sociedade e formaram a comunidade naquele local.

Tudo dá lugar a destruição e daí deve surgir uma nova paisagem, a paisagem da destruição, que em muito se aproxima da paisagem de conflito definidas por Donaudieu e Périgord. Dela se distinguindo porque esta tem a ver com conflitos armados, enquanto aquela tem a ver com poder destrutivo, mas ambas funcionam como marcas que lembram fatos ocorridos, as vidas que ali se perderam, aquela paisagem pré-existente, que ali se perdeu.

A tragédia ocasionado pela Vale do Rio Doce, em Brumadinho, bem como o da Samarco, em Bento Rodrigues, distrito de Mariana não devem ser encobertos. Recuperar o rio, a natureza de entorno, o patrimônio histórico é essencial, mas a paisagem da destruição deve ter seu canto resguardado, para que seja lembrado e assim não se repita. Que resguarde ali a lembrança do que foi perdido, tanto memórias quanto vidas.

Deve ser aberto, visitado, mapeado e explicado, pois, essa paisagem deixa marcas indeléveis na comunidade atingida, para além das vidas perdidas, perde-se o patrimônio imaterial, a memoria coletiva que um dia ali existiu, e essa perda e sua existência não devem ser esquecidas.

Toda vez que se recupera totalmente uma área assim, num mundo de mudanças tão rápidas, fatos são esquecidos e acabam por se repetir.

A mineração faz parte da vida de todos nós. Não há como viver sem seus frutos, basta olhar ao redor... Mas isso não significa que deve ser a qualquer custo e sem freios legais ou administrativos, para isso existem as normas ambientais. Deve ser lembrado que o meio ambiente uma vez perdido não retorna ao status anterior, ele se perde e em seu lugar surge um novo meio ambiente, que pode não ser capaz de abrigar a vida como antes. Não esquecer, e ter marcas para relembrar, é uma necessidade que conduz à consciência de que o desenvolvimento deve ser responsável, pois temos muito a perder.

*Professora da Graduação em Direito Ambiental e Pós-Graduação, Mestrado e Doutorado, da Escola Superior Dom Helder Câmara.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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