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20/02/2019 | domtotal.com

Zé se sentiu muito só

Foi inevitável me lembrar do Zé, o buldogue carinhoso que fazia companhia a Fernando havia mais de 10 anos.

Mal comia e, quando tomado pelo enfado, deitava-se na cama do amigo, desolado. O cão era só solidão.
Mal comia e, quando tomado pelo enfado, deitava-se na cama do amigo, desolado. O cão era só solidão. (Pixabay)

Por Pablo Pires Fernandes*

A chuva estava rala e triste naquela tarde de segunda-feira quando o telefone tocou soando má notícia. De fato, era. André me relatou o que sabia. Fernando se sentiu mal pela manhã e foi parar no hospital e ainda não havia qualquer diagnóstico. Caso delicado, achava. Preocupei. Apressei os afazeres, pois a aflição me obnubilava.

Livre das obrigações, corri para o hospital. Cheguei bufando e pedi ao senhor atrás de uma bancada de fórmica bege para ver meu amigo na enfermaria, O procedimento me impôs uma espera de oito minutos – uma eternidade, me pareceu – até Armando surgir caminhando na luz branca. Ele estava sério, o que me causou enorme alívio, pois não havia sinais de desespero em seu semblante. Trocamos abraços e, enfim, soube um pouco sobre o doente. Ainda era um quadro impreciso, algo no pulmão, mas Fernando estava estável.

Recebi uma pulseira roxa que me autorizava chegar até meu amigo na enfermaria no subsolo. Cruzei com caras pálidas e expressões de dor e apreensão até encontrá-lo cheio de tubos e apetrechos eletrônicos que eu, tenso, torcia para não apitar. Estendeu-me a mão antes de eu lhe dar uma bronca carinhosa e necessária. Não falamos muito, cumplicidades são implícitas.

Fora da luz branca, uns quatro amigos fumavam frenéticos aos celulares. Praguejamos as doenças, maldizemos o doente, ocupando-nos com questões práticas para evitar aventar a possibilidade do pior. Nem era o caso, mas exageros são comuns aos que têm afetos de verdade.

Andei sem rumo por um bom tempo até estacionar na mesa em que Fernando e eu costumávamos falar sobre a vida a levar, um pouco sobre política e um pouco sobre futebol. O bar ficava bem em frente ao apartamento dele. Foi inevitável me lembrar do Zé, o buldogue carinhoso que fazia companhia a Fernando havia mais de 10 anos.

Imaginei o Zé olhando horas para a porta fechada e, depois, caminhando lentamente até se deitar na cama do parceiro com sua boca enorme. Naquela segunda-feira, Zé não tinha quem acordar com dóceis afagos nem com quem desfiar resmungos. O vazio batia em cada canto da casa e, mais fundo ainda, no peito do Zé. Faltavam-lhe as broncas, os cafunés e os olhares com os quais conversava com o amigo de um modo que apenas eles compreendiam.

Por quatro dias, Zé ficou horas diante da porta. Buscava o ruído dos passos familiares e tão peculiares de Fernando. Mal comia e, quando tomado pelo enfado, deitava-se na cama do amigo, desolado. O cão era só solidão.

Zé queria escutar a voz grave de Fernando, queria escutar a ração soando no fundo da tigela de metal, mas, sobretudo, saber-se perto do ente querido. A ausência lhe doía nos ossos e, nesses momentos, gania fininho e se escondia debaixo da cama querendo que tudo passasse, que não amasse tanto aquela pessoa, que ela não deixasse um buraco tão grande dentro dele. Zé entendeu, como poucos, o que era a solidão.

Curado da pneumonia, Fernando teve alta e voltou pra casa. Zé nunca se sentiu tão feliz.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

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