Religião

28/02/2019 | domtotal.com

Paulo Freire: não se pode falar de educação sem amor

O problema da educação não é o suposto "marxismo cultural" nas escolas, mas o descaso com o qual é tratada e a luta por poder por trás disso.

O sistema educacional brasileiro nunca adotou afamada pedagogia de Paulo Freire.
O sistema educacional brasileiro nunca adotou afamada pedagogia de Paulo Freire. (Nikhita S/ Unsplash)

Por Élio Gasda*

Dados divulgados, em dezembro de 2018, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam: mais de 2,8 milhões de crianças e adolescentes estão fora da escola. Quatro em cada dez jovens de 19 anos não concluíram o ensino médio. Em Minas Gerais, 20% dos jovens entre 15 e 29 anos não estudam e não trabalham. No Brasil, 62% destes abandonaram a escola e 55% pararam de estudar ainda no ensino fundamental. Entre os estudantes do ensino médio, sete em cada dez alunos que estavam concluindo esta etapa não tinham níveis suficientes de compreensão e leitura em português. Não entendem o que leem! “Descobri que o analfabetismo era uma castração dos homens e das mulheres, uma proibição que a sociedade organizada impunha às classes populares” (Paulo Freire).

Prédios sucateados, bibliotecas fechadas, evasão escolar! Lâmpadas queimadas, janelas e carteiras quebradas, goteiras, banheiros entupidos e sem água. Dados do Censo Escolar 2017 mostram que entre as instituições de Ensino Fundamental, apenas 41,6% contam com rede de esgoto, e 52,3% apenas com fossa. Turmas superlotadas. Professores com meses de salários minguados e atrasados, jornada de trabalho extenuante. Stress e depressão. A merenda escolar como única refeição do dia muitas vezes em falta, roubada por agentes públicos. Quanto maior a pobreza e a fome, maior é a probabilidade de problemas de aprendizagem. Jovens reprovados por não conseguirem acompanhar o ritmo escolar. Entram mais cedo no mercado de trabalho, abandonam a escola para ajudar nas despesas da família.

Dentro desse contexto o Ministério da Educação enviou um e-mail para os diretores de escolas do país pedindo a leitura de uma carta do ministro Ricardo Vélez Rodríguez. Depois da leitura, que se execute o Hino Nacional, tudo deveria ser filmado e encaminhado ao MEC. Tempos insanos e nebulosos.

Neoliberalismo autoritário. As incontáveis deficiências - da educação infantil ao ensino superior - não preocupam o titular da pasta da educação, um colombiano. O espectro do “marxismo cultural” é mais alarmante que garantir o direito universal e constitucional à educação. Logo nos seus primeiros dias, o atual governo extinguiu o Ministério da Cultura e desmantelou o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. “Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino” (Paulo Freire).

Enquanto isso, o mundo já ingressou na quarta revolução industrial, na ‘era do conhecimento’ e da informação. Na contramão, mentalidades pré-civilizatórias condenam o país ao atraso, cortam recursos federais em cultura, ciência, tecnologia e pesquisa. Gerar e difundir conhecimento é coisa de comunista! Patriotismo é cantar o hino e prestar continência (a Trump). “O autoritarismo é uma das características centrais da educação no Brasil, do primeiro grau à universidade” (Paulo Freire).

A Constituição determina pisos de gastos com a educação para o Executivo federal, estadual e municipal. A União deve destinar 18% de sua receita líquida para essa área, enquanto estados e municípios devem alocar 25%. Em 2014 foi sancionada pela presidenta Dilma uma lei que colocava como meta, para o governo, gastos equivalentes a 10% do PIB em educação, no prazo de dez anos. Mas, em 2017, Temer cortou R$ 4,3 bilhões do orçamento do MEC. Em 2018 deputados e senadores aprovaram o corte da metade de uma das fontes de recursos do Fundo Social do Pré-Sal, destinado a investimentos em saúde e educação. Um golpe mortal na educação.

Milicianos do ódio instalados no poder! “Vou entrar com um lança-chamas no MEC e tirar o Paulo Freire lá de dentro”, bradou o presidente em campanha eleitoral. Ele jamais leu uma linha escrita pelo educador. Talvez por isso tenha escolhido como ministro da educação alguém que ignora conhecimentos básicos em pedagogia.

Paulo Freire, patrono da educação brasileira, é o terceiro pensador mais citado do mundo em universidades da área de humanas. Uma vida dedicada a superar a educação autoritária e castradora do pensar. Brasileiro mais homenageado da história, com 35 títulos de Doutor Honoris Causa por todo o mundo. Freire também era um cristão de profundo compromisso ético com a defesa da vida. Suas raízes evangélicas sustentam sua Pedagogia do oprimido: “Assumo apaixonadamente, corporalmente, com todo meu ser, uma postura cristã, porque ela me parece plenamente revolucionária, humanista e libertadora”.

Educação como Prática da Liberdade, título de um dos seus livros. Sim, “libertação” como exercício da liberdade, elemento central do processo de humanização plena da pessoa. A educação deve ensinar a respeitar o outro, a conviver em comunidade, forjar cidadãos. Educar é encaminhar o aluno em direção às múltiplas escolhas da liberdade. Ser pensante é ser transgressor. “Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho” (Paulo Freire).

Freire acreditava que os mais pobres poderiam recuperar sua plena dignidade e humanidade através da educação. Infelizmente, seu país não se importa com a educação como ele se importava. O sistema educacional brasileiro nunca adotou sua afamada pedagogia. Ao contrário, “não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente” (Paulo Freire). Liberar armas é mais urgente que construir escolas e valorizar professores. Faz sinal de arminha e canta o Hino que a educação melhora!

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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