Religião

13/03/2019 | domtotal.com

Jesus, o revolucionário que muitos cristãos não querem admitir

A pregação de um evangelho alinhado ao poder se distancia do Evangelho de Jesus Cristo.

Jesus foi um revolucionário em seu tempo, quebrando leis que feriam e oprimiam a vida humana.
Jesus foi um revolucionário em seu tempo, quebrando leis que feriam e oprimiam a vida humana. (Jon Tyson/ Unsplash)

Por Fabrício Veliq*

O movimento de Jesus foi um movimento revolucionário. Qualquer pessoa que pegue o texto bíblico para ler com um olhar atento, especialmente o Novo Testamento, perceberá que o que Jesus trazia em seus discursos e em suas ações era muito mais do que somente um repetir da cartilha judaica presente em seus dias. Muito pelo contrário, ele desafiou e foi contra diversas leis instituídas pelos líderes religiosos de seu tempo, não aceitando se aliar ao poder que esses exerciam, antes, denunciando a hipocrisia de vários que se diziam santos e cujas atitudes estavam a milhares de léguas daquilo que o Deus de Israel pedia na Torá.

É fato que muitas pessoas têm grande dificuldade em ver Jesus dessa forma. Preferem ver um Jesus à la filmes hollywoodianos, em que ele aparece como um branco do olho azul, falando calmamente às pessoas que chegam até ele, sem nenhum embate, totalmente submisso àquilo que lhe advinha. Que um Jesus que apareça assim seja perfeito para justificar as dominações por parte dos poderosos e a exploração das pessoas mais fracas por meio do discurso, não resta dúvida. Afinal, se o exemplo de pessoa cristã é aquela que seja passiva, somente olhando para o céu, esperando que algo desça de lá e resolva todos os problemas da sociedade, é óbvio que toda luta contra a dominação e exploração será vista como algo que deva ser evitado e, em alguns casos, até mesmo considerado como pecado.

No entanto, os Evangelhos mostram que Jesus foi considerado alguém indigno pelos líderes religiosos de seu tempo. Alguém que deveria ser morto porque se levantou contra a autoridade do templo e a autoridade de Roma, assim como vários o fizeram, dentre eles os dois bandidos que foram crucificados juntamente com Jesus. Essa característica marcante do ministério de Jesus foi e ainda é muitas vezes escondida nas diversas pregações e homilias que se fazem nas igrejas católicas e protestantes nos domingos.

Seguindo na linha de uma igreja que se aliou ao poder (algo que desde Constantino podemos dizer que, infelizmente, é uma realidade), são vários pregadores e pregadoras que continuam dizendo que o seguimento de Jesus tem a ver somente com uma vida que busca o céu, que se encontra no além e, nesse sentido, todo e qualquer envolvimento com as questões terrenas deve ser somente para suprir o necessário para se viver. Ao mesmo tempo, são vários os discursos que colocam que as mazelas do mundo são da vontade de Deus que tem o intuito de que as pessoas cheguem ao arrependimento e à conversão dos seus caminhos.

Em falas desse tipo, que revelam um deus sádico, que gosta de fazer as pessoas sofrerem para mostrar que ele é deus e exige obediência, pode-se também perceber o fomentar de certa apatia social por parte daqueles e daquelas que se aliam ao poder para dominar o próprio povo para que não se revoltem contra a desigualdade social, a injustiça e as mortes que ocorrem diariamente em nossas cidades, estados e país.

Com isso, pelas mãos destes pregadores e pregadoras que se aliam aos poderosos e poderosas de nosso tempo, o seguimento de Jesus Cristo marcado pela luta em favor dos marginalizados, pobres, dos chamados escória da humanidade é substituído por um evangelho que visa somente um céu (que, na maioria das vezes, não tem nada a ver com o céu do texto bíblico), e ainda não toca a realidade humana em seus sofrimentos cotidianos. Esse evangelho pregado, por sua vez, mostra-se mais preocupado em encher templos, angariar fundos para grandes construções e investimentos, shows pirotécnicos, lançamentos de cartão de crédito que usam conceitos bíblicos como marca, do que em promover a justiça social, a paz e a harmonia entre os povos.

Fazendo isso, esquecem-se de que Jesus e seu movimento visavam uma nova sociedade, onde o Reino de Deus pudesse ser vislumbrado até que viesse em sua plenitude da parte do próprio Deus. Nesse sentido, é sempre importante lembrar daquilo que a história nos mostra, a saber, que toda vez que a igreja se alia ao poder dominante, ela se afasta do caminho de Jesus Cristo, deixando, assim, de ser realmente Igreja.

Jesus foi um revolucionário em seu tempo, quebrando leis que feriam e oprimiam a vida humana, ainda que, por fazer isso, tenha sido considerado pecador e digno de morte por parte dos religiosos de seu tempo.

Assim, se alguém se diz seguidor/a de Jesus e, ao mesmo tempo, apoia leis e comportamentos que diminuem, oprimem, ferem e geram morte a qualquer ser humano, não passa de um hipócrita, tal qual aqueles que Jesus condenou em seu tempo. Seguir Jesus é estar disposto a assumir seu modo de viver e sua disposição de se entregar ao próximo, mesmo que, para isso, sejamos considerados/as pecadores/as e, como ele, dignos de morte por parte dos religiosos e políticos de nosso tempo.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE) e Doctor in Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven). E-mail: fveliq@gmail.com

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