Mundo

17/03/2019 | domtotal.com

Bolsonaro chega aos EUA em meio a protestos em Washington

'Um encontro entre Bolsonaro e Trump legitima o fascismo da nova ultradireita que está crescendo no mundo', criticaram manifestantes.

Destaque da visita será a assinatura de um acordo que permitirá o lançamento de satélites americanos a partir da base de Alcântara, no Maranhão.
Destaque da visita será a assinatura de um acordo que permitirá o lançamento de satélites americanos a partir da base de Alcântara, no Maranhão. (Planalto/Divulgação)

Por Lisandra Paraguassu

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro chegou neste domingo a Washington para uma visita oficial de três dias e comemorou, em sua conta no Twitter, a proximidade com o governo do presidente norte-americano, Donald Trump, enquanto um pequeno grupo realizou um protesto contra a visita em frente à Casa Branca.

"Pela primeira vez em muito tempo, um presidente brasileiro que não é antiamericano chega a Washington. É o começo de uma parceria pela liberdade e prosperidade, como os brasileiros sempre desejaram", escreveu pouco depois de pousar na capital norte-americana.

Um grupo de 60 manifestantes realizou um protesto em frente à Casa Branca contra a visita de Bolsonaro. Eles já haviam se desmobilizado no momento da chegada do presidente brasileiro e o acesso à rua foi fechado pelo serviço secreto americano.

Muitos dos participantes do evento expressaram temores de que o relacionamento dos dois chefes de Estado possa elevar as tensões na Venezuela, com efeitos negativos para a estabilidade política na América do Sul, e se declaravam como anti-fascistas. O evento foi organizado pelo grupo "DC Unido contra o ódio", em tradução livre do título "DC United against hate."

"Bolsonaro e Trump legitimizam a extrema direita em nível global pois assumem uma retórica perigosa contra diversos setores da sociedade", comentou Michael Shallal, um dos organizadores do protesto, funcionário de um museu em Washington. Segundo ele, um dos seus principais temores é que "os EUA poderão espalhar o imperialismo pela América do Sul, sobretudo com um golpe à Venezuela, com intervencionismo militar."

Para Barbara Silva, tradutora e professora de português e espanhol na capital americana, Bolsonaro defende "um discurso de ódio", embasado em muitos preconceitos contra mulheres, negros e apoiadores do movimento LGBT. Ela também aponta que a defesa do presidente brasileiro de Juan Guaidó como presidente legitimo da Venezuela também pode aumentar a tensão entre os governos de Brasília e de Caracas. "Temo que os EUA possam utilizar a aproximação com a nova administração Bolsonaro para vender mais armas, o que certamente não é algo favorável à paz."

Barbara segurava dois cartazes, um no qual dizia "todos contra o fascimo" e outro com as fotos de Trump e de Bolsonaro com a frase "Ele não" em português e inglês. Ela apontou também que do encontro entre dois líderes podem surgir notícias positivas. "Há uma agenda que deve tratar de economia, como a exportação de carne do Brasil para os EUA, o que é favorável. Da reunião, não haverá somente pontos negativos", frisou.

Na avaliação do analista de políticas de uma organização não governamental, cujo primeiro nome é Jessi, Bolsonaro tem muitas similaridades com Trump por ter uma postura de intolerância contra "as pessoas que não pensam como ele", o que gera um ambiente de animosidade e divisão social. "Seria importante que o presidente do Brasil não adotasse um comportamento tão próximo ao de Donald Trump, mas não tenho expectativa de que Jair Bolsonaro vai mudar no curto prazo, o que é ruim."

"O Bolsonaro representa um tipo de fascismo religioso e discrimina pessoas negras, encoraja a violência policial. Desde que ele foi eleito ouvimos mais e mais notícias de homossexuais e negros mortos pela polícia. Estou aqui não por condenar Bolsonaro, mas o fascismo", afirmou Rhys Baker, inglês de 31 anos, que trabalha em comunicação digital em uma rede de TV. Ele disse ter ficado sabendo da situação do Brasil através do jornalista americano Glen Greenwald.

 DC United Against Hate DC United Against HateJá Ben, americano ativista que não quis dizer o sobrenome, fez uma pós-graduação em estudos latino-americanos e disse ter muitos amigos brasileiros em Washington. "Bolsonaro representa tudo o que sou contra: sexismo, racismo, homofobia, transfobia. É terrível em todas as esferas", disse.

A convocação para o ato foi feita através de redes sociais pelo movimento intitulado DC United Against Hate. A chamada para a movimentação trazia os dizeres: "sem Bolsonaro em DC! Solidariedade com o anti-fascismo internacional".

Pauta

Bolsonaro anunciou esta semana que o destaque da visita será a assinatura de um acordo que permitirá o lançamento de satélites americanos a partir da base de Alcântara, no Maranhão (nordeste).

Espera-se também que ambos os líderes discutam medidas para aumentar o comércio bilateral e a entrada do Brasil na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Também vão abordar a crise na Venezuela. A oposição ferrenha ao que os dois governos consideram uma "ditadura" no país caribenho é um dos temas que mais une os presidentes.



Os Estados Unidos estão à frente dos mais de 50 países - entre eles o Brasil - a reconhecer o líder opositor Juan Guaidó como presidente interino, e aplicou sanções econômicas e um embargo ao petróleo venezuelano, crucial para a sua economia, que começará a vigorar em 28 de abril.

- Comitiva presidencial -

O presidente decolou da base aérea de Brasília por volta das 8h00 com seis ministros, incluindo o chanceler Ernesto Araújo; o ministro da Economia, Paulo Guedes; e o da Justiça e Segurança, Sérgio Moro.

Seu filho e deputado federal Eduardo Bolsonaro - muito ativo nas articulações com representantes da onda neoconservadora mundial - já está nos Estados Unidos.

Além de manter uma "reunião privada" com Trump na terça-feira no Salão Oval, Bolsonaro vai aproveitar sua estadia na capital americana para se reunir com o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, e participará em vários fóruns sobre as oportunidades que oferece a economia brasileira.

Domingo à noite, vai participar de um jantar na residência do embaixador brasileiro, com "vários formadores de opinião" que, de acordo com relatos da imprensa, contará com a participação de Olavo de Carvalho, considerado guru de Bolsonaro, e Steven Bannon, o polêmico ex-assessor do presidente dos Estados Unidos.

Após sua viagem aos Estados Unidos, Bolsonaro visitará o Chile e viajará a Israel no final do mês, em um sinal claro de sua tentativa de se aproximar de governos que ele considera comprometidos com suas opções ideológicas conservadoras e economicamente liberais.

Agenda


Bolsonaro chegou nesta tarde a Washington, onde ficará até a noite de terça-feira. Ele irá se hospedar na Blair House, residência de hóspedes do governo americano, em frente à Casa Branca. O primeiro compromisso do brasileiro será um jantar com representantes do movimento conservador americano. A segunda-feira será destinada a encontros com empresários e investidores e, na terça-feira, Bolsonaro terá um encontro bilateral com o presidente americano Donald Trump.

Em uma sequência, o presidente afirmou que uma parceria entre Brasil e Estados Unidos assusta os "defensores do atraso e da tirania ao redor do mundo". "Os quem tem medo de parcerias com um país livre e próspero? É o que viemos buscar!", escreveu.

Bolsonaro é o 16º presidente brasileiro a ser convidado para uma visita oficial aos Estados Unidos. Fernando Henrique Cardoso fez a última visita de Estado --que inclui conversas com os presidentes das Casas Legislativa e do Judiciário--, em 1995, mas voltou a Washington ainda em 2001, em seu segundo mandato.

Luiz Inácio Lula da Silva foi recebido três vezes como presidente e, ainda em 2002, como presidente eleito. Dilma Rousseff esteve na capital norte-americana em 2012 e 2015.

O avião presidencial pousou nos Estados Unidos às 15h40 (horário local), um pouco antes do previsto inicialmente, e Bolsonaro foi recebido pelo embaixador Sean Lawler, chefe do cerimonial do governo dos EUA. Da base aérea, o presidente foi direto para a Blair House, a casa de hóspedes do governo norte-americano, a poucos passos da Casa Branca.

Com o entorno da residência cercado por grades e seguranças, o presidente entrou direto, sem ver alguns curiosos que esperavam por perto e nem falar com a imprensa.

O presidente ainda comemorou pelo Twitter o fato de ter sido convidado a se hospedar na Blair House, um complexo de quatro imóveis e 110 aposentos em que a Casa Branca coloca mandatários quando quer atribuir um certo grau de importância à visita. FHC, Lula e Dilma também ficaram hospedados no local.

"Nos hospedaremos na Blair House. É uma honraria concedida a pouquíssimos chefes de Estado, além de não custar um centavo aos cofres públicos. Agradecemos ao governo americano a todo respeito e carinho que nos está sendo dado", escreveu o presidente.

O governo norte-americano tem um orçamento anual para manutenção da Blair House e de 18 funcionários permanentes do complexo. Já a restauração e decoração da casa histórica é financiada por um fundo não governamental criado em 1985.


Reuters, Agência Estado e AFP. Edição de DomTotal

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!

Comentários


Outras Notícias

Não há outras notícias com as tags relacionadas.

Instituições Conveniadas