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18/03/2019 | domtotal.com

A TV que incita a violência

Os titulares dessas atrações são 'comunicadores' do que mesmo?

Datenistas e bolsonaristas têm mais semelhanças do que supõem nossas rasas avaliações.
Datenistas e bolsonaristas têm mais semelhanças do que supõem nossas rasas avaliações. (Agência Brasil)

Por Ricardo Soares*

Já tinha pronta uma crônica sobre o tema quando percebi que tinha colocado Datena como protagonista do fenômeno e aí resolvi remodelar tudo, ainda mais após uma excelente reportagem a respeito divulgada pela Intercept Brasil e assinada por João Filho. Mesmo assim, arrisco seguir na seara com receio de não ter muito a acrescentar sobre o assunto a não ser deixar esse prato girando.

O texto anterior era quase uma "carta aberta" ao Datena, mas aí percebi que seria dar muita importância a quem já se acha assaz importante. Seria , como diz o vulgo, acender muita vela para um mau defunto. Afinal, Datena não inventou o deplorável gênero, apesar de ser, hoje em dia, o mais reluzente representante daquilo que nem de longe podemos chamar de jornalismo.  Anda-se  lembrando do Datena e de suas bravatas televisivas por conta da tragédia recente em Suzano e tantas outras. O que ele faz é tocar adiante uma triste escola midiática, na qual se julga sem provas, se opina a esmo, se "coisifica" o cidadão e em que são transmitidas todos os dias imagens e situações degradantes para encher os bolsos desses "comunicadores" ou seus patrões.

Esses paladinos da justiça vêm desde os tempos de o "Povo na TV" , do "Aqui e Agora" e do deplorável e já falecido Alborguetti lá em Curitiba, que, num cenário tosco e com uma toalha suja pendurada no pescoço, dava porretadas na mesa praticamente incitando linchamentos reais  e acusando sem provas. A "escola" se sofisticou , vestiu terno e gravata, se emoldurou numa aura de respeitabilidade, ordenhando autoridades policiais e por elas sendo ordenhados. Isso faz com que os Datenas da vida se sintam os tais "reis da cocada preta".

É bem provável que ele e todos os demais praticantes do gênero depositem todas as noites as cabeças cheias da tosca razão que defendem em confortáveis travesseiros e durmam tranquilos como patos nas lagoas. Aliás, os patos aqui não entram de gaiato, pois datenistas e bolsonaristas têm mais semelhanças do que supõem nossas rasas avaliações. Todos em comum imersos nos desejos de ódio, vingança e revanchismo. Todos fazendo os programas com o fígado. E não me venham dizer que isso é coisa de esquerda. É coisa de civilização contra a barbárie.

É mais do que sabido que programas como esses mundo afora são nefastos e não ajudam em nada o desarmamento de espíritos e, em alguns lugares, como o Uruguai, o Mujica vetou a exibição de atrações similares ao "Cidade Alerta" das 6h até 22h, justificando que tais programas promovem atitudes violentas. Disso não tenho dúvida, muito embora seria simplista afirmar que tragédias como a de Suzano ocorram só por conta do culto ao ódio promovido pelos programas policiais.

Os titulares dessas atrações são"comunicadores" do que mesmo ? Quem deu a eles autoridade para posarem de policiais, advogados, juízes, donos da verdade? Tudo podem em nome de audiência? Perdoem-me os Datenas da vida. Mas vocês já pararam para pensar que emissoras de televisão são concessões públicas que estão sendo utilizadas por vocês e seus patrões para disseminar rancor, ódio e intolerância? Vocês acham mesmo que não tem nada a ver com toda essa sociedade dividida , armada e conflagrada?

Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista. Publicou 8 livros e dirigiu 12 documentários.

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