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18/03/2019 | domtotal.com

Michael Cohen: pode acreditar-se num mentiroso?

No estado atual do governo americano, não há histórias simples e lineares.

Tudo pode ser mentira ou verdade, e vai aparecendo como numa novela negra cheia de personagens suspeitas.
Tudo pode ser mentira ou verdade, e vai aparecendo como numa novela negra cheia de personagens suspeitas. (BRENDAN SMIALOWSKI / AFP)

Por José Couto Nogueira*

Só quem gastou os últimos dias a seguir o Festival RTP da canção não terá reparado num espetáculo de consequências muito mais abrangentes, do outro lado do Atlântico: o testemunho público de Michael Cohen, ex-advogado e homem de mão de Donald Trump, na Comissão de Supervisão e Reforma da Câmara dos Representantes dos EUA.

O Sapo24 noticiou sucintamente no próprio dia 27 de fevereiro a sessão da comissão, agora dominada pela maioria democrata na Câmara Baixa do Congresso. Mas, para lá do espetáculo mediático que foi a audição, há duas situações que é impossível ignorar. Uma é a atitude de Cohen, ao se mostrar arrependido dos seus crimes e disposto a cooperar candidamente com a justiça; afinal o ex-advogado (foi expulso pela Ordem) tem um histórico das falcatruas e é um mentiroso notório.

A outra situação, que independe da categoria moral de Cohen, é o efeito das suas declarações, que por um lado reforçam muitas suspeitas sobre o comportamento do presidente, e por outro abrem novas vias de inquirição sobre as várias trapalhadas praticadas por membros do governo (“Administração”, na terminologia americana).

Michael Cohen, advogado de 52 anos, trabalhou para o então empresário Donald Trump desde 2006, chegando a ser vice-presidente da Organização Trump e dando apoio jurídico, a título particular (ou seja, nunca fez parte do Governo) e servindo de “resolvedor de problemas” (fixer, na gíria americana). A categoria de fixer, que ele próprio reconheceu, aplica-se aqueles assessores que resolvem problemas do patrão duma maneira pouco ortodoxa, podendo envolver algumas tangentes com a ilegalidade.

Além do seu trabalho na Organização Trump, Cohen tinha negócios particulares. Movia-se num setor ligado a operações duvidosas, o chamado “gang das frotas de táxis”, que em Nova York é dominado por imigrantes russos com pouca paciência para legalidades. Casado com uma ucraniana, filha de um dos chefes de frotas, com ligações à máfia da família Lucchese, levava uma vida luxuosa em apartamentos caros e guiava carros topo de gama.

Apesar de se saber que fazia “operações” sombrias em nome de Trump, a Comissão Muller não conseguia obter prova de situações específicas, até que deu com várias irregularidades no negócio dos táxis. Passou a informação para o Procurador Geral do Estado de Nova York, que rapidamente juntou um conjunto de provas para o acusar de vários crimes, com a certeza de vários anos de prisão efetiva.

Para aliviar a pena inevitável, Cohen, que anteriormente dizia que “levaria um tiro” para proteger o Presidente, mudou de ideias e fez um acordo de denúncia (plea bargain) com a Procuradoria. Mas o seu testemunho tinha várias incongruências, o que lhe agravou a situação. Agora tinha pela frente longos anos de prisão. Resolveu então “contar” tudo à Comissão Muller, em depoimentos à porta fechada.

Com a maioria dos democratas na Câmara dos Representantes nas eleições intercalares do ano passado, e consequente controle das comissões especiais, era uma questão de tempo até ser chamado à Comissão de Supervisão e Reforma, que investiga atividades ilegais do governo.

Entretanto, já havia várias provas de irregularidades que o envolviam, como por exemplo o pagamento a duas namoradas de Trump para que os casos não viessem a público. O sistema, de que já aqui falamos a propósito do caso Bezos/Pecker consistia em pagar às raparigas artigos a contar as suas histórias na revista National Enquirer, artigos esses que nunca seriam publicados. A questão era de onde tinham vindo os fundos para a Enquirer comprar e matar (catch and kill) as histórias – para lá do lado imoral, que parece não afetar Trump – havia a possibilidade do dinheiro vir da Comissão Eleitoral do futuro presidente, o que constitui um crime.

Quanto ao papel de Cohen ao serviço de Trump, percebe-se bem pela seguinte história, contada pela revista online Daily Beast. Em 2015, a revista estava a investigar uma biografia de Trump de 1993, “The Lost Tycoon” em que a sua ex-esposa, Ivana Trump, o acusava de violação. Um dos repórteres telefonou ao Gabinete de Imprensa da campanha de Trump, mas o que recebeu de volta foi um telefonema de Cohen:

“Estou a avisá-lo, vá com muito cuidado, senão vou-lhe fazer uma coisa f... horrível. Está a perceber bem?”

Numa outra situação, Cohen enviou cartas às escolas que Trump tinha frequentado, ameaçando com “coisas horríveis” caso publicassem as notas e classificações obtidas pelo Presidente.

Quando Cohen se apresentou perante a comissão, no dia 27, muitas histórias já eram do domínio público, inclusive as dos pagamentos às raparigas. O que não se esperava era que Cohen, por sua própria conta, lesse uma declaração sobre o caráter de Trump. Entre outras coisas disse:

“O presidente é um racista, um criminoso e um aldrabão” – assim, sem poupar palavras. E elaborou em vários temas:

“O Sr. Trump costumava dizer muitas vezes que a sua campanha ia ser a maior campanha comercial da história da política. Nunca esperou ganhar as primárias. Nunca esperou ganhar a eleição presidencial. Para ele, as campanhas não passavam de oportunidades comerciais.”

“O Sr. Trump sabia das negociações para a construção da Torre Trump em Moscovo, dirigiu-as pessoalmente, e mentiu a toda a gente sobre isso. Mentiu porque não esperava ganhar as eleições e também porque acreditava que ia fazer centenas de milhões de dólares com aquele projeto imobiliário.”

“O Sr. Trump soube de Roger Stone, com antecedência, sobre os e-mails (da Comissão Eleitoral Democrata) revelados pelo WikiLeaks. O Sr. Stone disse ao Sr. Trump que tinha acabado de falar ao telefone com Julian Assange e que Assange tinha lhe contado que dentro de poucos dias seria publicada uma enorme quantidade de e-mails que iam causar estragos à campanha de Hillary Clinton. O Sr. Trump disse qualquer coisa como “Não vai ser fantástico?”

Por outro lado, Cohen afirmou que não sabia nada sobre um possível conluio entre os próximos de Trump e os russos. Apenas ouviu uma troca de palavras entre Trump Jr. e o pai que o levam a pensar que se referia ao famoso encontro na Trump Tower em que ele e Michael Flynn teriam aceite a influência dos russos nas eleições.

No que toca aos pagamentos a Stormy Daniels, não fica nenhuma dúvida. O depoimento de Cohen, reforçado com fotocópias de cheques assinados por Trump, não deixa margem para dúvidas sobre o envolvimento de do Presidente.

A comissão é constituída por 24 democratas e 18 republicanos. Estes, muito logicamente, atacaram a credibilidade de Cohen, um auto-confesso mentiroso com um passado de criminalidade. Também salientaram que Cohen, embora tenha pelo menos três anos de prisão pela frente, já está a precaver o seu futuro, pois terá assinado acordos para um livro e um filme sobre a sua história.

Os democratas retrucaram que estas comissões sempre ouviram e usaram o testemunho de criminosos confessos, pois esses testemunhos, corroborados por outras provas, levaram à condenação de muitos bandidos, sobretudo mafiosos.

De fato, as afirmações concretas de Cohen – e não as suas opiniões de que Trump é racista, por exemplo – poderão ser confirmadas por outros testemunhos, ou não. Para já, a comissão mandou chamar nada mais nada menos do que 81 indivíduos para esclarecer afirmações de Cohen e o que delas pode ser deduzido. Um dos testemunhos mais esperados é o de Allen Veisselberg, contabilista de Trump há 30 anos, e que já disse que colaboraria.

Os democratas não estão interessados, por hora, em falar de um possível impeachment do presidente. Sabem que se precipitarem, isto é, se não tiverem provas válidas, múltiplas e indesmentíveis, o processo poderá arrastar-se e, em última análise, favorecer Trump. Vão cozinhá-lo em fogo lento, digamos assim, com todas as comissões da Câmara dos Representantes a investigar todos os casos dúbios que o envolvem – a começar pelas declarações de IRS, que Trump nunca quis mostrar, e que agora é inevitável que apareçam.

Ao voltar de Hanói, onde tinha ido para se encontrar com Kim Jong-un, Trump concentrou-se no livro que Cohen eventualmente irá publicar: “O Congresso deve exigir a transcrição do livro de Cohen, que foi entregue à editora há pouco tempo. As cabeças vão andar à volta quando virem as mentiras, interpretações e contradições com o que declarou na comissão. É como se fosse outra pessoa! Completamente desacreditado!” E acrescentou outro tuíte:

“O manuscrito vai mostrar que Cohen cometeu perjúrio numa escala nunca vista. Deve se ter esquecido do livro quando prestou depoimento. O que tem a dizer sobre isto o advogado de Hillary Clinton, Lanny Davis? (Cohen) estará a ser pago pela Crooked Hillary, através do seu advogado?”

A única coisa concreta que se fica a saber por estes tuíte é que Trump sabe o que está no futuro livro de Cohen, o que não deixa de ser estranho.

No estado atual do governo americano, não há histórias simples e lineares. Tudo pode ser mentira ou verdade, e vai aparecendo como numa novela negra cheia de personagens suspeitas.

O que é certo, sem sombra de dúvidas, é que os republicanos estão dispostos a defender Trump até o fim. Fazem-no por múltiplas razões – satisfazer as suas bases, manter o partido no poder, agradar a Trump – e nada parece abalá-los.

Quando estavam a atacar a credibilidade de Cohen na comissão, o republicano Jim Cooper perguntou a Cohen como é que tinha trabalhado para Trump durante dez anos, sabendo que ele é uma pessoa tão má. A resposta de Cohen, que pode ser desprezível, mas não é parvo, resume numa frase a situação do Partido Republicano:

“Fiz o mesmo que vocês andam a fazer há dez anos. Protegi-o durante dez anos, como vocês ainda o protegem agora.”

E arrematou com um aviso:

“Vejam o que me aconteceu a mim!”

A investigação do procurador especial, Robert Muller, que pretende averiguar se houve ou não “conluio” entre o grupo de Trump e os russos, não obteve nenhum detalhe concludente neste testemunho de Michael Cohen. Mas a investigação têm levantado muitas outras delinquências (o próprio Cohen foi apanhado), algumas das quais poderão ser até mais perigosas para Trump. Até agora, já houve acusações e/ou confissões de 37 pessoas, cinco delas muito próximas do presidente. A “caça às bruxas”, como Trump lhe chama, tem mostrado com clareza que bruxas não faltam na atual administração. Veremos que outros bruxedos saltarão para a luz do dia.

EMGE

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