Religião

19/03/2019 | domtotal.com

O sentimento do mundo

Imersos numa lógica conservadora, preconceituosa e segregacionista, indivíduos e grupos organizam-se num submundo de maldades contra quem eles julgam inferiores e inimigos.

'Juntemos nossas vozes e demo-nos as mãos, assim ninguém nos poderá vencer'.
'Juntemos nossas vozes e demo-nos as mãos, assim ninguém nos poderá vencer'. (Perry Grone/Unsplash)

Por Tânia da Silva Mayer*
 
“Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo” são os versos que abrem o terceiro livro de poemas do nosso conterrâneo, Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1940. Sintonizado com as questões de seu tempo, no entanto, o livro é espelho para todas as épocas nas quais o ser humano transita entre o mal-estar de desumanidade e a esperança por outras realidades mais humanizadas. Não sem razões, os versos do poema “Sentimento do mundo” parecem dizer mais de nós e das coisas todas que estamos vivendo do que propriamente do contexto pós Primeira Guerra Mundial no qual foi escrito. Isso porque nossos semelhantes não param de nos surpreender tristemente com ações que atentam contra a vida humana desconsiderando seu valor e dignidade imensuráveis.

Passadas as duas grandes guerras entre nações, entramos na terceira grande guerra mundial, na qual indivíduos e grupos, imersos numa lógica conservadora, preconceituosa e segregacionista, organizam-se num submundo de maldades para armar atentados contra a honra e contra a vida das pessoas que julgam como inferiores e inimigas. Trata-se, porém, de uma guerra assimétrica, uma vez que apenas um dos lados se posiciona conscientemente no campo de batalhas e empunha suas armas, enquanto o outro lado não espera e não deseja que as coisas se resolvam assim.

O fato é que as barbaridades cometidas nos chocam e nos deprimem. E esses efeitos são concatenados num sentimento de mal-estar diante da vida e das relações. E o pior é que não temos tido tempo para nos recuperarmos entre uma dose e outra de maldades. Parecemos titubear ao longo dos dias esperando a nossa vez de cair. O mundo se torna um peso para nossos ombros. Por isso, já não há mais alegria e nossos rostos transmitem a angústia que se hospedou em nós e não quer passar. É um prato cheio para as crises de medo e de pânico. Um caminho sem voltas para o suicídio. O sentimento do mundo pode ser bastante grave e fatal para algumas pessoas, para uma maioria, pode se configurar como culto à desilusão do nada.

A percepção de que somos pequenos e frágeis não nos impede de reunir em nós os sentimentos do mundo. Por isso, mesmo sabendo que temos “apenas duas mãos” para operar as transformações necessárias nas duras realidades, qualquer sinal de que outro mundo é possível a começar de nós já deve ser recebido como combustível para o novo que construiremos. O individualismo só faz propagar o mal-estar diante da vida, pois nos vemos incapazes de mudar o mundo. Por isso, é preciso uma reorganização de nossas experiências a fim de que elas ganhem sempre mais um espírito comunitário. A sensação de que não estamos sós na resistência nos dá coragem porque é esperança renascendo no lugar do medo. Temos apenas duas mãos e o sentimento do mundo, mas, que tal fazermos diferente: “juntemos nossas vozes e demo-nos as mãos, assim ninguém nos poderá vencer [...] libertaremos esse mundo pelo amor”! Você vem com a gente?

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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