Cultura TV

19/03/2019 | domtotal.com

Roleta russa no Netflix

Nos menus dos Netflix da vida, 'navegar é preciso, viver não é preciso', como disse o poeta.

Se há tanto a experimentar, o descarte é inevitável - e deve ser exercido sem piedade.
Se há tanto a experimentar, o descarte é inevitável - e deve ser exercido sem piedade. (Pixabay)

Por Alexis Parrot*

É certo afirmar que não viveremos tempo suficiente para assistir a todas as séries e filmes disponíveis na TV aberta, a cabo e nos serviços de streaming. Além disso, haveria a necessidade de termos duas vidas se incluíssemos na equação a pirataria que grassa internet afora, com downloads ilegais de programas obscuros ou novos em folha.

Ter este arsenal de produtos ao alcance das mãos é o Eldorado para pesquisadores, profissionais do ramo ou simples viciados em TV. E, para aqueles que ainda não participavam desta última categoria, o acesso simplificado vem mudando o perfil do consumo televisivo, tornando-o indiscriminado e sorvido em doses cada vez maiores.

Gastamos cada vez mais tempo em frente à TV ou da tela de computadores e tablets, na mesma medida em que também perdemos mais tempo - buscando sofregamente o que assistir, tamanha é a oferta. Nos menus dos Netflix da vida, "navegar é preciso, viver não é preciso", como disse o poeta.   

Com este estado de coisas estabelecido, é necessário que escolhas duras sejam feitas. Se há tanto a experimentar, o descarte é inevitável - e deve ser exercido sem piedade.

Para tanto, proponho um exercício simples: cada série terá a chance de um único episódio para convencer que merece mesmo a nossa atenção - e devoção. É o método da roleta russa. Ou tudo ou nada, logo de cara.

Fiz o teste com o primeiro episódio da primeira temporada de oito séries escolhidas aleatoriamente (entre o menu de lançamentos e as sugestões para o meu perfil) do catálogo do Netflix. O resultado foi esse:

Se joga Charlie

Logo Idris Elba, o carismático ator que recusou ser o novo James Bond argumentando que o papel iria limitar suas chances para conseguir novos personagens, decide assinar com o Netflix para viver um dj em baixa que acaba se tornando babá da filha incontrolável de um amigo bem-sucedido. Quem o conhece de Luther vai achá-lo fora de lugar nesta pretensa comédia sem muitas risadas ou mesmo novidades. Já vimos este plot bem e mal executado inúmeras vezes. "Constrangimento" poderia ser o título da série no Brasil - que só aumenta para Elba, ao descobrirmos que o ator é também cocriador do programa. 

Campeões

O dono de um ginásio de treinamento esportivo em Nova York recebe a incumbência de tomar conta do filho gay de 15 anos que nunca viu. À primeira vista, parece tão bobo quanto Se joga Charlie, mas o nonsense acaba salvando o dia. Personagens completamente sem noção extrapolam o senso de humor corriqueiro para construir uma nova família que convence e diverte. Os dois irmãos incumbidos da missão de olhar pelo adolescente terão que virar adultos do dia para a noite; o que seria outro lugar comum, não fossem três detalhes que a série tira de letra: excelente texto, bom timing de comédia e situações de fato interessantes; uma espécie de Two and a Half Man sem o machismo. Produção original da NBC, arrendada pelo Netflix e cancelada após a primeira temporada. O que é bom pode mesmo durar pouco.

Santa Clarita Diet

Drew Barrymore, mãe de família, dona de casa e corretora de imóveis torna-se uma morta-viva comedora de carne humana. Timothy Olyphant, no papel do marido, é uma das decepções da série. Alguém precisa avisá-lo que imitar as caretas de Jim Carrey já não funciona mais nem para o próprio Jim Carrey. Pior que a tentativa de ser engraçado do caubói moderno de Justified é a total falta de respeito (ou de conhecimento de causa) que o programa demonstra por um tema tão cultuado quanto os zumbis. Para quem desejar um olhar cômico sobre o tema, sugiro ver ou rever o filme Todo Mundo Quase Morto, este sim uma pequena jóia.   

Ash Versus Evil Dead

Retomada dos filmes clássicos de Sam Raimi capitaneada pelo próprio. Agora sim, zumbis como devem ser mostram a que vieram. O astro da canastrice absoluta Bruce Campbell está de volta à pele do justiceiro Ash, ainda rindo de si mesmo com a maestria de poucos, trinta anos após a estreia do personagem. O deleite e a diversão são tão grandes que não resisti e acabei burlando as regras da proposta. Tive que assistir a dois episódios em sequência. Dentro do subgênero zumbi, é muito melhor até do que The Walking Dead - a famosa série de zumbis que, na verdade, já não é sobre zumbis há muito tempo.

After Life

Novamente, é Ricky Gervais fazendo a única coisa que Ricky Gervais sabe fazer: ser desagradável. Dessa vez, a desculpa é a morte da mulher do personagem; o que para ele serve como justificativa para destilar ressentimento e mau humor. É impossível para o público criar qualquer empatia com o protagonista, mesmo ciente de sua dor. Fosse um outro ator defendendo o papel, talvez funcionasse - vide o que Steve Carell fez na versão norte-americana de The Office, recriando com genialidade o que Gervais estabeleceu na série original britânica. Tirar comédia da morte e de suas ramificações é algo que os ingleses fazem como ninguém, mas toda regra tem sua exceção, aparentemente.

Crazy Ex-girlfriend

Aqui, os atores cantam e dançam, como se a vida fosse um musical da Broadway, mas não como em um musical da Broadway, onde a idealização é sempre a tônica. Se você não gosta de musicais, vai gostar dessa série - porque todo o cânone do gênero é subvertido - e se gosta, vai amar (justamente pelo mesmo motivo). Em tudo que o pastelão da série You erra (ao glamourizar a figura do stalker), Crazy Ex-girlfriend acerta por mostrar o risco que qualquer um de nós corre quando deixamos a obsessão tomar conta. Ousada no formato, o resultado é de um frescor que não se vê por aí em qualquer esquina.

The Umbrella Academy

Tentando fugir do díptico inevitável Marvel/DC, o Netflix decidiu investir na adaptação na HQ desenhada pelo brasileiro Gabriel Bá mas o resultado é apenas uma série de super-heróis facilmente esquecíveis. De justiceiros a perseguidos, os irmãos adotivos trafegam entre traumas de infância mal resolvidos e super poderes meio esdrúxulos, para dizer o mínimo.

Assessorados por uma mãe robótica e um macaco falante, devem superar as diferenças para desvendar juntos um mistério policial que, se não interessa nem à maioria deles, o que dirá a nós que estamos assistindo. 

Peep Show

Série inglesa já na nona temporada (com sete disponíveis no Netflix), causa certo estranhamento ao adotar nos posicionamentos de câmera, via de regra, o ponto de vista de seus personagens. Além do que é dito, ouvimos também, em off, os pensamentos dos protagonistas - com comentários impagáveis sobre o que eles mesmos disseram ou aquilo que seria inconfessável dizer. Tudo é realizado com a câmera na mão, com movimentos bruscos que fazem lembrar o documentário, trazendo mais realismo para as desventuras cotidianas de dois amigos que dividem um flat em Londres. Muito acontece, na verdade, graças à aptidão natural que ambos possuem para o fracasso. Além de divertidíssima, ainda traz o bonus track de podermos testemunhar o primeiro trabalho em TV da sempre grandiosa e recentemente oscarizada Olivia Colman. De toda a safra escolhida para a roleta russa, sem dúvida esta série foi a melhor surpresa.

Ao terminar a experiência, me alegra a possibilidade de sermos capazes de nos engajar apenas naquilo que de fato nos toca. Se querem nos oferecer uma TV onde a quantidade é o que conta, que saibamos ser responsáveis em descartar o que é descartável para cada um de nós. Afinal, quantidade não é sinônimo de diversidade.

E, certamente, cada um de nós tem mais o que fazer do que apenas ficar pendurado no Netflix.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas