Brasil Cidades

20/03/2019 | domtotal.com

Loucura e um pouco de paciência

Tudo bem, a gente, eu e você, todo mundo é um pouco maluco.

Aquela cena lá no bar ficou dias na minha cabeça, não conseguia esquecer.
Aquela cena lá no bar ficou dias na minha cabeça, não conseguia esquecer. (Reprodução / Google)

Por Pablo Pires Fernandes*

Já tinha visto o sujeito no bar, três ou quatro vezes. Magro e muito branco, estava sempre de calça preta e camiseta, nada formal. Discreto e educado, sempre estava sozinho. Pedia uma cerveja, no máximo duas, e ia embora descendo pela Rua Palmira como se tivesse algum compromisso urgente. Caminhava gesticulando e cheguei a cogitar que não batia bem da cabeça. Depois, vi que era apenas o jeito dele.

Numa tarde de quinta-feira, chegou com o ar tímido de sempre, pediu uma cerveja no balcão e se sentou no salão, de frente para a televisão que passava um jogo da Champions League. Tinha pouca gente no bar, me lembro bem.

Sérgio já tinha tomado umas e se dirigiu ao sujeito com sua maneira brincalhona e entusiasmada. Pensei comigo que ele ia achar ruim, mas foi muito educado e respondeu com a maior boa vontade.

Antes, preciso falar sobre Sérgio, freguês de todo dia lá do bar. Conhece todo mundo, toda a malandragem da Serra, do morro e do asfalto. Morou no bairro mais de 40 anos. Atualmente, lava carros perto do bar e se mudou dali depois de construir um barraco no bairro São Marcos. Atleticano fanático, é gente boa e inofensivo. Vai lá no bar até no fim de semana para tomar sua cervejinha sagrada.

O caso seria simples se fossem só os dois conversando. Daí, nem estaria tomando seu tempo, isso é coisa de todo dia. É que garçom está acostumado a ver de tudo, você sabe, né? Acontece que tinha outra figura sentada na mesa do Sérgio.

Sobre Márcia – devia ter uns 50 e poucos anos, estava com o cabelo despenteado – eu não tive dúvidas. Desde que entrou no bar e se instalou na mesa de Sérgio, vi que era diferente. Tinha alguma espécie de problema, percebi no seu modo de falar repetitivo e meio inconveniente.

Quando ela dirigiu a palavra para aquele sujeito ali, se apresentando como moradora de Lagoa Santa, parente do prefeito e o convidando para fazer uma visita, achei que o cara ia perder a paciência. Foi aí que me enganei. E olha que sou bom de reparo nessas coisas!

O sujeito foi totalmente simpático, trocou ideias e prestava a maior atenção no que ele dizia. Nem se incomodou quando Márcia disse, pela quinta vez, onde morava e que ele deveria procurá-la se fosse a Lagoa Santa. Depois de um tempo ouvindo a falação daquela mulher, ele pediu licença e saiu para fumar.

Fiquei pensando naquilo, sabe? De como que as pessoas lidam com os loucos e que, se a gente tivesse um pouco mais de educação e paciência, se a gente desse um pouco de atenção, as coisas seriam diferentes. Aquela cena lá no bar ficou dias na minha cabeça, não conseguia esquecer.

Tudo bem, a gente, eu e você, todo mundo é um pouco maluco. Agora, tem uns mais doidos do que outros, né? Mas isso não é o ponto. O ponto é que aquele sujeito foi apenas gentil, nada demais. Ele só teve paciência com ela e escutou. Isso foi diferente e achei bem bonito, por isso fiquei pensando tanto. Acho que as pessoas estão precisando de atenção, de falar menos e escutar com paciência. Não sei. Quer outra gelada aí, parceiro?

*Pablo Pires Fernandes é jornalista há mais de 20 anos, trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais O Tempo e Estado de Minas, onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do Dom Total.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas