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28/03/2019 | domtotal.com

Viajar a pé, que bom que é

Em compensação, fiz a pé o caminho de outro santo, o de São José.

Nunca badalado e muito mais curto, é verdade, mas um caminho a lembrar. Caminho e caminhada.
Nunca badalado e muito mais curto, é verdade, mas um caminho a lembrar. Caminho e caminhada. (Google Maps)

Por Afonso Barroso*

Não fiz, como tantos já fizeram, um dos caminhos de Santiago de Compostela. Também gostaria de ter chorado à beira do Rio Piedras, como fez Paulo Coelho, o alquimista. Mas não choro por não ter caminhado e chorado naquelas bandas porque, em compensação, fiz a pé o caminho de outro santo, o de São José. A saber, São José do Jacuri. Nunca badalado e muito mais curto, é verdade, mas um caminho a lembrar. Caminho e caminhada.

Fizemos essa viagem pedestre num dia de julho, eu e um amigo, o Silvininho, nós ambos aos 15 anos de idade, estudantes do Colégio Peçanha.

Foi uma tomada rápida de decisão. Acabávamos de chegar do último dia de aula no semestre e estávamos almoçando na sala da pensão onde morávamos, a casa de dona Maria Antônia, mulher do seu Zequinha Pinto. De repente, entre duas garfadas, eu falei pro Silvininho: Vamos pro Jacuri a pé, amanhã? Como se já esperasse há muito tempo a pergunta, ele respondeu no ato: Uai, sô. Vamos.

Fomos dormir cedo naquela noite e acordamos também cedo no dia seguinte. Em verdade, de madrugada. Iniciamos a caminhada às cinco da manhã. No ombro, a matutagem dos matutos: um saco contendo queijo, rapadura, farofa, biscoitos de goma e uma garrafa de guaraná.

Conga no pé, boné na cabeça, saudade de casa no coração.

Ganhamos a estrada, deixamos Peçanha para trás e tocamos em frente. O frio daquela manhã de inverno foi logo substituído por um calorzinho indeciso, e na sequência das horas, por um sol que subia sem força e sem pressa.

E lá fomos nós, andando devagar e conversando fiado. Às vezes correndo de vacas que nos queriam saudar com seus chifres, às vezes parando para nadar em um córrego qualquer que nos convidava a um banho, às vezes sentando-nos sob uma árvore que nos oferecia sombra para uns minutos de descanso e para comer um pedaço de queijo com rapadura. Soube logo que o Silvininho, pré-cachaceiro como eu, levava também uma garrafinha com pinga. Naquele tempo bebia-se com qualquer idade, assim que brotasse o primeiro esboço de bigode. Os bares e botequins não negavam uma dose de cachaça ou de Cinzano a qualquer rapazinho. Uma cachacinha servia pra esquentar os dois papos: o papo-garganta e o papo-conversa.

Percorremos em doze horas, das 5 da manhã às 5 da tarde, os 49 quilômetros daquela estrada de terra. Devo dizer que durante todo o percurso não passou um jipe sequer por nós. Veículo automotor de quatro rodas era raridade por ali naquele tempo, não dava pra gente sequer pensar em carona.

Comemoramos com um aperto de mão quando alcançamos o alto da chapada. É onde fica o campo de aviação do Jacuri, cheio de bosta de boi, e de onde se avista toda a cidade lá embaixo.

Depois de vencer a longa descida que vai dar na entrada da Rua da Grota, caminhamos até a igreja no Largo da Matriz, na qual entramos para agradecer a São José o sucesso da viagem.

Só então, depois de um Pai Nosso e uma Ave Maria rezados com fé adolescente, demos por iniciadas, oficialmente, nossas férias de julho. Foi um dia memorável.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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