Religião

29/03/2019 | domtotal.com

Mulheres amordaçadas pelo clericalismo na Igreja Católica

Demissão voluntária de 11 mulheres do Jornal do Vaticano é a ponta do iceberg do problema na Igreja.

Demissão seria uma resposta à nova direção do jornal de tolher-lhes a liberdade editorial.
Demissão seria uma resposta à nova direção do jornal de tolher-lhes a liberdade editorial. (AFP/Gabriel Bouys)

Por Mirticeli Dias de Medeiros*
 
O papa tem boas intenções ao destacar a importância da mulher para a Igreja, mas, pelo jeito, a conversão de mentalidade dentro da instituição que ele conduz acontece a duras penas. A demissão voluntária apresentada pelas 11 mulheres encarregadas do caderno mensal Mulher, Igreja e Mundo, do jornal vaticano L’Osservatore Romano, ocorrida esta semana, nos coloca mais uma vez em atitude de alerta. A seção de 44 páginas, criada durante o pontificado de Bento XVI, traz uma série de reflexões a respeito do papel da mulher na Igreja e na sociedade.

Como o objetivo do presente artigo é ir além dessa polêmica recente, não entrarei nos pormenores da situação. Uma vez que não se trata de uma reportagem, com o intuito de dar voz aos protagonistas do caso -, Lucetta Scaraffa, a diretora da revista, e Andrea Monda, editor-chefe do jornal oficial da Santa Sé -, me limito somente a ampliar reflexão a partir daí, com a total liberdade que um texto de caráter opinativo me permite.

As denúncias do periódico de Scaraffia que abalaram o Vaticano

Papa Francisco é enfático ao dizer que por trás dos escândalos de pedofilia, está, sobretudo, o abuso de poder - ou, como ele costuma dizer, o clericalismo. E foi justamente nesse abuso de poder, já identificado e condenado pelo atual pontífice, que a jornalista francesa Marie-Lucile Kubacki pautou sua denúncia a respeito da exploração de religiosas, publicada pelo periódico vaticano em 2018. Kubacki entrevistou freiras de todos os continentes, as quais relataram, entre outras coisas, as humilhações sofridas na condição de “empregadas” de clérigos.

“O eclesiástico pede que sirvamos o seu prato e depois nos deixa comer sozinhas na cozinha. É normal que um consagrado trate assim a uma outra consagrada? [...] Nossa consagração não é igual à deles?”, disse uma das freiras entrevistadas que, na ocasião, não quis se identificar.

Outra freira, que usou o nome fictício de Irmã Cécile, disse à jornalista francesa: “Uma irmã da minha congregação dá conferências de quaresma sem receber um centavo por isso. Enquanto o padre, que vem para celebrar a missa, nos pede 15 euros. Muitas vezes, criticam as religiosas, o seu mau humor, o seu caráter. Todavia, por trás de tudo isso, há muitas feridas”.

Talvez tenha soado com algo novo para quem não vive na cidade eterna. No entanto, para nós, veteranos dentro desse “universo romano”, é evidente a disparidade que existe entre os padres diocesanos, que possuem total autonomia de ir e vir, e as pobres freiras submetidas a uma estrutura coletiva que as impede de exercer a mínima liberdade. Eu, por exemplo, conheci uma religiosa a qual não foi lhe dado o direito (hoje, básico!) de possuir um celular. Se quisermos entrar em contato com ela, é necessário enviar um e-mail que, além de tudo, não é pessoal.

“Algumas religiosas consideram que a sua experiência de pobreza e submissão, por livre escolha, poderia se transformar em uma ocasião de riqueza para toda a Igreja, desde que a hierarquia masculina também considerasse uma ocasião para refletir sobre o exercício do poder”, disse Irmã Cécile.

A demissão coletiva apresentada por Scaraffia e suas colegas, as quais alegaram a tentativa da nova direção do jornal de tolher-lhes a liberdade editorial, é, sim, a ponta do iceberg, cuja profundidade ainda não conhecemos. Apesar de Monda já ter se pronunciado, afirmando que em nenhum momento desrespeitou o trabalho das jornalistas envolvidas, é hora de refletirmos, para além do ocorrido, o que levou 11 mulheres tão entusiasmadas com a publicação a simplesmente desistir de tudo. Se Lucetta Scaraffia exagerou ou não, o tempo dirá. Se Andrea Monda, recém-nomeado editor-chefe, tentou realmente calá-las, teremos que mais uma vez confiar ao tempo a resposta. Uma coisa é certa: para além das belas metáforas inspiradas nas feminilidade, as quais têm ocupado grandes discussões teológicas, é hora de vermos, na prática, até quando a mulher será considerada “uma serva de segunda categoria” dentro de uma religião, cujo fundador, Jesus Cristo, a escolheu para testemunhar, por primeiro, o maior evento de sua trajetória nesta terra: a sua ressurreição.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas