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29/03/2019 | domtotal.com

A saga do passaporte

Quando solicitei o reconhecimento da cidadania as coisas eram muito simples.

Atentos às fraudes crescentes, as autoridades italianas redobraram a vigilância na análise da documentação
Atentos às fraudes crescentes, as autoridades italianas redobraram a vigilância na análise da documentação (Divulgação)

Por Fernando Fabbrini*

Nascido de uma família originária de Pitigliano, uma pequena vila da Toscana, obtive minha cidadania italiana há muitos anos. Na verdade, naquela época fiz isso de puro sentimentalismo, movido pela paixão típica dos portadores desse DNA tão característico. Na sequência, estendi o direito às minhas filhas – medida que, mais tarde, abriu para elas boas oportunidades de estudo e trabalho em países da União Europeia.

Quando solicitei o reconhecimento da cidadania as coisas eram muito simples. Resgatados os documentos de meus antepassados, segui o protocolo burocrático e em pouco tempo tudo se resolveu. No entanto, o acúmulo de solicitações nos Consulados por todo o Brasil faz com que o requerente hoje espere, no mínimo, uns dez anos até a conclusão.

O que aconteceu? Por que tanta gente na fila? Certamente, teremos ali poucos indivíduos mobilizados pelo sentimentalismo, pelo retorno às raízes – como foi o meu caso. A maioria acachapante dos requerentes anda à procura de novas chances fora do país, é claro. Famílias oriundas acenderam a luz de alerta, reviraram seus antigos documentos e engrossaram as filas, pensando no futuro das próximas gerações. Comenta-se que, em Portugal, a segunda maior categoria de imigrantes é composta de... italianos. Porém, não são italianos natos, e sim brasileiros detentores da nova cidadania.  

Essa busca exagerada logo se encaixou na eterna relação de mercado, na balança sutil onde num dos pratos está a oferta e, no outro, a procura. E se isso acontece, logo aparecem também os oportunistas, os atalhos ilegais e as falcatruas de todo tipo. Verdadeiras quadrilhas especializadas na venda ilegal de cidadania pipocaram. Se o interessado tivesse dinheiro, tudo se arranjava. Nem era preciso ter antepassados italianos.

Atentos às fraudes crescentes, as autoridades italianas redobraram a vigilância na análise da documentação; apertaram o cerco aos intermediários e puseram muitos na cadeia. Assim, aqueles que realmente tinham direito não seriam prejudicados.

Esta semana, estourou a bomba de uma nova modalidade fraudulenta que crescia na surdina. Uma megaoperação dos Carabinieri desbaratou na região do Piemonte uma rede criminosa associada a agências de turismo que providenciava documentos ilícitos para estrangeiros. O pacote incluía atestados falsos de residência, passeios pelos lagos italianos e até degustação culinária com direito a vinhos finos, imaginem.  

Por cerca de R$ 30 mil, o pretendente se apoiava num esquema de simulação de residência nas pequenas comunes para solicitar a nacionalidade via permesso di soggiorno. Deu zebra: as autoridades logo desconfiaram do elevado número de brasileiros “residentes” nas cidades de Verbana e Novara. E pronto: os 800 brasileiros pegos terão seus processos anulados e nunca mais poderão requerer a cidadania. Os de lá – incluindo um padre - foram em cana.

Além dessa vigilância rigorosa, recentemente, o governo italiano acrescentou uma nova exigência para concessão da cidadania: conhecimento básico/intermediário da língua – o que me parece bastante justo.

Sem melhores horizontes, cresce o número de jovens talentosos que hoje deixam o Brasil rumo à Europa e aos EEUU na busca da excelência do ensino, da formação profissional à altura do mercado global e de um futuro digno. Uma recente pesquisa do Datafolha revelou que, caso pudessem, 62% dos jovens deixariam o país. Estamos falando de aproximadamente 70 milhões de pessoas - ou algo próximo à população somada dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. Mamma mia! 

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

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