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29/03/2019 | domtotal.com

Lição de resistência

Já são sete anos de briga renhida, de embates e de mobilização.

Luta incansável em prol da não destruição de um conjunto notável de armazéns na área central da capital pernambucana, que desde 2012 tem gerado polêmicas e discussões apaixonadas.
Luta incansável em prol da não destruição de um conjunto notável de armazéns na área central da capital pernambucana, que desde 2012 tem gerado polêmicas e discussões apaixonadas. (Reprodução)

Por Eleonora Santa Rosa*

Acompanho há um bom tempo a importante e referencial ação de preservação do Cais José Estelita, em Recife.

Luta incansável em prol da não destruição de um conjunto notável de armazéns na área central da capital pernambucana, que desde 2012 tem gerado polêmicas e discussões apaixonadas.

De um lado, a incansável, implacável, especulação imobiliária, representada por um grupo que quer cravar 13 torres comerciais e residenciais, de até 38 andares, no local; de outro, movimentos organizados da sociedade civil que lutam contra essa aberração. O terreno em disputa ocupa 10,1 hectares de espólio remanescente da antiga Rede Ferroviária Federal, integrado por galpões e estações ferroviárias históricas.

Conheço bem a área, de 2013 a 2014 viajei inúmeras vezes ao Recife na tentativa de viabilizar um projeto de implantação de um museu de expressão internacional, em outra zona da cidade. Ademais, por muitos anos, em época ainda mais recuada, fui professora de cursos de capacitação e formação cultural, promovidos pela ilustre Fundação Joaquim Nabuco.  Sempre me impressionou, desde então, a degradação desse patrimônio e suas óbvias potencialidades no campo da economia criativa, da indústria cultural. Sou também admiradora da garra e da gana dos recifenses, que não desistem fácil do que acreditam.

Esses armazéns apresentam todas as condições de uso cultural, turístico e de entretenimento, aptos a sediar iniciativas arrojadas e transformadoras, tais como: parque audiovisual, de tecnologias e novas mídias, de design e produção multimídia, de estúdios e centros culturais polifuncionais, portanto, conectado a ocupações e usos contemporâneos, sem os impactos ambiental, urbano e viário provocados por complexos imobiliários dessa natureza e dimensão.

Inacreditável a proposta de ocupação propugnada pelo Consórcio Novo Mundo, vencedor do leilão (único participante!), em 2012, centrada no ganho de poucos em detrimento do uso e usufruto público de um espaço único e fundamental para a cidade.

A pugna de artistas, ambientalistas, urbanistas, arquitetos, historiadores, estudantes, profissionais liberais, professores e uma extensa gama de participantes dos mais variados setores contra a Prefeitura e o referido Consórcio, “primos-irmãos” nesse questionável empreendimento, está longe de terminar.

Afinal, já são sete anos de briga renhida, de embates e de mobilização. Mesmo a recente repentina autorização de demolição, expedida por meio de alvará da Municipalidade, foi prontamente contestada e paralisada. Ativistas ocuparam novamente o local, assegurando, por meios legais, o estancamento da destruição de dois dos armazéns.  

As ações levadas a cabo pelo movimento Ocupe Estelita, como disse antes, composto por entidades diversas da sociedade civil, tem servido de exemplo ao trabalho de inúmeros coletivos em todo o Brasil, renovando e alimentando as esperanças na participação da população  em torno de outros modelos de concepção e desenvolvimento das cidades, a partir da  preservação e ressignificação de espaços urbanos, históricos, simbólicos na vida afetiva e efetiva dos cidadãos, da adoção de alternativas de geração de empregos e divisas, de outra visão de planejamento urbano, de outra lógica de empreendimentos imobiliários.

O legado dessa contenda, com muitos rounds, decisões judiciais, suspensões, reintegrações, proibições, concessões, confrontos policiais, manifestações de resistência, alvarás, preocupações, já se inscreve nos anais da história dos movimentos sociais no campo da preservação do patrimônio.

Que o espírito e a prática do Ocupa Estelita se alastrem por todo país, estimulando a sociedade civil a lutar por seus direitos, por uma cidade mais justa, criativa, democrática, generosa e compartilhadora de bens culturais no seu mais amplo sentido.

*Jornalista, produtora, gestora, empreendedora cultural, foi secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais.

EMGE

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