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31/03/2019 | domtotal.com

Irmã morte

Trágica é a morte quando fruto da imprudência, da violência, da irresponsabilidade dos humanos.

A morte, em si, não é uma tragédia. Trágicas são certas formas pelas quais ela acontece.
A morte, em si, não é uma tragédia. Trágicas são certas formas pelas quais ela acontece. (Pixabay)

Por Evaldo D' Assumpção*

No penúltimo verso do Cântico das Criaturas, composto por São Francisco de Assis, ele exalta: “Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã nossa, a morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar”. E por ela ser um fato humano, uma realidade inexorável, em seu cântico ele a coloca junto com seus outros “irmãos e irmãs”, porquanto obras do mesmo criador: o sol, a lua, a terra com suas flores e frutas, as estrelas e o vento, a água cristalina e cantante. Para ele, a morte não é um mal, nem uma inimiga execrável, da qual não se deve nem falar. “Dá azar!” alguns acreditam. “Falar dela, a atrai”, afirmam outros.                      

Quando em 1978 tive meu primeiro contato com a Tanatologia, ciência que estuda os comportamentos diante da morte, com aplicação prática no cuidado dos enfermos em fase terminal de sua doença e na assistência aos enlutados, fiquei fascinado com esse trabalho, especialmente na importância que tinha para a melhora significativa da relação médico-paciente, e nos cuidados dos médicos para consigo mesmos. Aprofundei-me no seu estudo e tornei-me um dos pioneiros nesse campo, em nosso país. Nos Estados Unidos e na Europa, ele já era feito e crescia geometricamente, desde o final dos anos 60.

Comecei a divulgá-lo através de artigos publicados em revistas leigas e médicas, em palestras e cursos, e em diversos livros, como o “Sobre o viver e o morrer” e “O Luto” (Ed. Vozes). Pouco tempo depois, alguns colegas passaram a comentar jocosamente essa minha dedicação à Tanatologia (tanatos = morte, logia = estudo), apelidando-me de “Doutor Morte” ou então de “O médico amigo da morte”. Uma evidente ironia para disfarçar seus próprios medos. Descobri então que médicos e sacerdotes costumam ser mais temerosos da morte do que qualquer outro. Fazendo palestras em hospitais, com auditórios lotados de enfermeiras e assistentes sociais, observava a pequena presença de médicos. Geralmente estavam ausentes aqueles dos comentários irônicos. Perguntando-lhes por que não participavam, sempre tinham uma desculpa. E, como o desconhecimento é o maior responsável pelos medos e angústias, eles se privavam de superar o verdadeiro pânico de que padeciam com relação a nossa irmã morte. Por outro lado, os que estavam presentes nos seminários e palestras, frequentemente davam-me gratificantes retornos, dizendo o quanto aprenderam, e como fora libertador para eles eliminar preconceitos e temores, em sua convivência quase diária com situações de perdas e morte.

A morte, em si, não é uma tragédia. Trágicas são certas formas pelas quais ela acontece. Trágicas são as mortes precoces; trágicas elas são quando fruto de omissões dos poderes públicos, da carência ou ausência de cuidados médico-hospitalares adequados; trágicas são as decorrentes da fome e da miséria. Enfim, trágica é a morte quando fruto da imprudência, da violência, da irresponsabilidade dos humanos. Já a morte como fase final do transcorrer da vida, essa não deve ser estigmatizada, pois a vida é um dom imensurável, contudo já vem com data de vencimento. Não falo de destino nem de predeterminação, pois neles não acredito, mas das naturais etapas que temos de percorrer. Nascemos, aproveitamos nossa infância, saboreamos a juventude com suas dúvidas e naturais limitações, chegamos à fase adulta, quando podemos compartilhar tantos frutos que colhemos das semeaduras feitas ao longo de nossa caminhada. Entramos então no período da envelhecência, quando desfrutamos da sabedoria que somente os anos conseguem nos proporcionar, até chegar à senescência, que para alguns pode durar vários anos, e para outros nem tanto. Mas toda forma de vida tem, natural e inevitavelmente, as etapas do nascer, desenvolver e morrer. Sendo assim, não devemos encarar nenhuma delas como anormal. Pelo contrário, devemos aproveitar intensamente cada uma, e quando completar o ciclo, abraçar a irmã morte como a plena realização de uma vida. Quem o faz, tem uma passagem, uma transformação, um encantamento, como disse Guimarães Rosa – dê a ela o nome que quiser – tranquila e sem maior sofrimento pela sua ocorrência. O sofrimento, geralmente é devido a enfermidades dolorosas, deformantes, limitantes, mas não pela morte em si.

Sofrimentos maiores decorrem do apego desmedido que muitos desenvolvem, acreditando que são donos de tudo, controladores de tudo, senhores de tudo. Mas a morte não toma o menor conhecimento de nossa tecnologia sofisticada, de nossas veleidades, desse nosso pavor de perder o que tolamente julgamos ser posse inteiramente nossa. Ela reina absoluta, no seu tempo.

Mas existe também o sofrimento pela perda do outro. Esse, também causado pelo apego – pois temos o péssimo hábito de confundi-lo com o amor – e quanto maior o sentimento de posse, maior será a dor da perda. Para quem assimilou a essência do amar, quem tem a certeza de que amar é querer o bem do outro, é fazer o possível para que o outro seja feliz, tendo a certeza de que a felicidade do outro é a minha felicidade, esse sofre sim, a perda de quem ama. Mas é um sofrimento que rapidamente se transforma, de uma saudade dolorosa, numa saudade gostosa. Iremos nos lembrar sim, da pessoa amada, mas nem por isso deixando de usufruir plenamente a nossa própria vida que continua, pois para sermos felizes é que fomos criados, e existimos.

Nesse tempo de quaresma, em que os que creem meditam sobre o maior ato de amor da história, que foi o doar da própria vida pela vida dos outros, temos uma ótima oportunidade para refletir sobre tudo isso. Refletir sobre qual é o nosso relacionamento com a irmã morte, superando assim nossos medos e angustias, nossa dor e sofrimento pelas perdas que tivermos.

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

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