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03/04/2019 | domtotal.com

Lições de um sábio borracheiro

Pedi licença para acompanhar seu trabalho. Ao observar os gestos meticulosos daquele homem, tive a impressão de que sentia enorme prazer no ofício.

Nunca havia conversado com Ademir, não sabia nada sobre ele. No entanto, espontaneamente, entre nós foi se instaurando uma cumplicidade.
Nunca havia conversado com Ademir, não sabia nada sobre ele. No entanto, espontaneamente, entre nós foi se instaurando uma cumplicidade. (Pablo Pires Fernandes)

Por Pablo Pires Fernandes*

O carro estacionou diante da borracharia com o pneu vazio. Ademir se levantou sem pressa, trocou umas palavras com o motorista e começou seu trabalho. Com uma calma de dar inveja, posicionou o macaco sob o veículo, retirou a roda, colocou-a num suporte e começou a encher o pneu de ar.

Pedi licença para acompanhar seu trabalho. Ao observar os gestos meticulosos daquele homem, tive a impressão de que sentia enorme prazer no ofício e me senti à vontade para especular e aprender um pouco sobre a rotina de um borracheiro.

Gentil e solícito, respondia a todas as perguntas de um curioso que sequer sabe dirigir. Explicou-me que coloca a pressão, ou calibragem, do pneu a 70 para detectar o vazamento. Mostrou-me o remendo e colocou o pneu no tanque de água suja para verificar o tamanho do estrago analisando o tanto de borbulhas que subiam à superfície. Em seguida, ativou a máquina para soltar o pneu da roda.

Nunca havia conversado com Ademir, não sabia nada sobre ele – se era casado, se tinha filhos, onde morava e se era da cidade. No entanto, espontaneamente, entre nós foi se instaurando uma cumplicidade. Vez ou outra, interrompia seu trabalho para retrucar um “oba!” ou um “ei!” a algum motorista que buzinava ou acenava diante da borracharia.

Para manter a conversa, perguntei a ele o que era vulcanização, enquanto fotografava as letras verticais no portal do estabelecimento lotado de pneus e outras coisas de difícil identificação para um leigo como eu. Tranquilamente, Ademir começou sua explanação. “Pense na palavra completa. Vou pegar a palavra vulcão – uma pedra derretida que se derrama sobre outra pedra e ela vai virar uma pedra só. Aqui, pego uma borracha, derramo em cima do pneu e eles vão virar uma borracha só”, explicou em tom professoral no momento em que chegou João, meu amigo de 10 anos.

Apresentei um ao outro, dizendo ao meu amigo que estava tendo uma aula. Sem parar de trabalhar, Ademir falou: “Eu sou um borracheiro, entendeu? Tem a roda, isto aqui é um macaco, esta máquina é de desmontar pneu”. E, atiçando a curiosidade do menino, continuou: “Lá na Argentina, macaco se chama gato, essa roda se chama jante, o pneu se chama neumático, a borracharia se chama gomeria e o borracheiro lá se chama gomero.”

João ouvia Ademir com a maior atenção, enquanto o borracheiro aplicava um produto no objeto negro. “Para mim, a língua espanhola é uma das que mais se parecem com o nome do objeto. Por exemplo, óculos vem de ocular, de visão e, em espanhol, é anteojos, o que vem anterior aos olhos”, afirmou, fazendo-me lembrar das aulas de semiótica de Júlio Pinto.

Ademir falava mal do remendo anterior no pneu quando João e eu nos despedimos dele e ele disse: “É muito interessante a gente viajar porque aprende muitas coisas diferentes”. Saí da borracharia com a certeza de ter conhecido uma pessoa gentil, mas, sobretudo, um sábio.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista há mais de 20 anos, trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais O Tempo e Estado de Minas, onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do Dom Total.

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