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02/04/2019 | domtotal.com

Política e comédia em VEEP

A falta de noção de Bolsonaro é tamanha que poderia muito bem ser um dos personagens desmiolados, arrogantes e vaidosos do seriado.

Nada ou ninguém é poupado pela língua ferina da política profissional interpretada por Julia Louis-Dreyfus.
Nada ou ninguém é poupado pela língua ferina da política profissional interpretada por Julia Louis-Dreyfus. (Divulgação HBO)

Por Alexis Parrot*

Muito a propósito a estreia da sétima e última temporada de VEEP justamente no domingo passado, 31 de março, aniversário macabro do golpe de 64 no Brasil. O seriado tem muito em comum com a cena política brasileira atual.

Tanto o programa da HBO quanto o governo verde-oliva e amarelo oferecem um escrutínio sobre a incapacidade, a ignorância e a incompetência, enquanto revelam a que ponto pode chegar a mesquinharia da alma humana. Comparáveis no conteúdo, na forma não poderiam estar mais distantes - o que é ficção e comédia na TV, assume ares de tragédia anunciada no mundo real de Brasília.

O vídeo divulgado pelo presidente homenageando a ditadura e o golpe militar não causa risos, apenas revolta. A vergonhosa tentativa de reescrever e rasurar a história com uma caneta Bic é mais um passo rumo aos círculos do inferno para onde todos nós (e nossa balança comercial, de lambuja) estamos sendo tragados.      

Como a protagonista de VEEP, a ex-presidente na luta para voltar a ser presidente, Selina Meyer (Julia Louis-Dreyfus), Bolsonaro também não sabe o que está fazendo. Se a personagem fictícia já provocou pequenos escândalos diplomáticos em temporadas passadas, o comandante em chefe brasileiro é verdadeira torrente de incidentes internacionais.

Fala demais e, como depois é obrigado a voltar atrás, acaba desagradando a gregos e troianos (no caso mais recente, da promessa não cumprida de transferir a embaixada brasileira para Jerusalém, conseguiu o impossível, ao unir na decepção israelenses e o mundo árabe).

A falta de noção do mandatário brasileiro é tamanha que poderia muito bem ser um dos personagens desmiolados, arrogantes e vaidosos de VEEP, um seriado que ri, sem medo e sem limites, da desumanidade que habita os bastidores do poder.      

Selina, novamente em campanha, é incapaz de dizer o porquê de querer ser presidente. Ou melhor, ela sabe sim, mas seus motivos são impublicáveis.

Nada ou ninguém é poupado pela língua ferina da política profissional interpretada por Louis-Dreyfus. Neste primeiro episódio, ao ser comparada a Kennedy pelo fiel escudeiro Gary (interpretado pelo gigante da comédia Tony Hale, de Arrested Development), pontua com muita clareza: "Sim, mas o John. Não o Teddy, nem o Kennedy estuprador ou aquele que matou a menininha." Em VEEP, todos os ídolos têm pés de barro.

Nem a própria descendência da personagem escapa. Sua filha, sempre relegada a segundo plano, está passando por uma depressão pós-parto, após ter dado a luz a um bebê gerado por inseminação artificial. Quando a companheira lésbica da moça tenta explicar para Selina como isso vem atrapalhando até a relação sexual do casal, a política dá um jeito de escapar da conversa e se vangloria para a assessora, chamando a nora de "azul é a cor mais irritante".

O veneno que escorre pelos cantos da boca da eterna candidata sai assim, fácil e inesperado. E a atriz brilha ao dizer estas maldades como quem não quer nada, como se não passassem de meras trivialidades. A crítica ácida do texto, sempre ágil, não baixa a guarda um minuto sequer; um dos trunfos da atração, desde o episódio piloto.

Quando vaza a informação que Jonah (Timothy Simons), também candidato a presidente, casou-se com a filha de seu ex-padrasto, a imprensa identifica de imediato um prato cheio para fomentar reações indignadas, dada a moral hipócrita com que os EUA são reconhecidos mundialmente.

Na tentativa de controlar a narrativa da notícia, é organizada uma entrevista onde, em primeira mão, as explicações necessárias serão dadas. Ladeado pela esposa e pela mãe, Jonah, como de costume, perde as estribeiras e se defende atacando: "Eu fiz exatamente o que Woody Allen fez. Eu não sou mais pervertido que ele. E se vão nos criticar, é melhor que estejam prontos para criticar também o Woody Allen e aquela chinesinha dele."

Após a exibição das declarações tresloucadas, por incrível que pareça, suas intenções de voto sobem três pontos percentuais. Como explica o coordenador de campanha de Selina (Kevin Dunn), o candidato "atingiu em cheio homens brancos sem ensino superior e homens brancos com ensino superior. Basicamente, homens brancos".

Dunn, ótimo ator, que nos oferece neste trabalho o retrato irretocável de um velho político de gabinete conformado com a desilusão da profissão, é um dos muitos nomes excepcionais que integram o programa. VEEP tem a escalação de elenco mais perfeita da TV dos EUA desde Seinfeld e The Office.

A começar pela iconoclasta e despudorada protagonista (ela poderia ser a irmã mais engraçada do Frank Underwood de House of Cards), uma personagem inesquecível à altura de Elaine Benes, a amiga inseparável de Jerry, George e Kramer. Com Selina Meyer, Louis-Dreyfus estabelece um marco que nenhum de seus antigos companheiros conseguiu alcançar na vida pós-Seinfeld.

Enquanto a genial série reduz a pó e desmoraliza a classe política norte-americana, por aqui, nos nossos cada vez mais tristes trópicos, políticos se debatem em praça pública com militares travestidos de políticos. Podia ser um filme dos três patetas; mas não é um filme e os patetas se multiplicaram exponencialmente.

No meio do fogo cruzado (e atirando para todos os lados, exatamente como a protagonista de VEEP), um bufão com a faixa presidencial e uma conta do twitter à disposição. Reverenciado na mesma medida que rejeitado, Bolsonaro é um novo tipo de Macunaíma, porém, cindido ao meio: herói para uns e somente sem caráter para outros tantos.

Em novembro passado, Julia Louis-Dreyfus foi agraciada com o prêmio Mark Twain, a maior homenagem que um comediante norte-americano pode receber. Concedido anualmente pelo Kennedy Center, uma fundação de apoio às artes baseada em Washington, é o reconhecimento da importância do humor como contraponto indispensável ao poder.

É este o papel indispensável de um seriado como VEEP: ao ridicularizar a política, dessacraliza o poder e nos lembra que governos e gabinetes são feitos de pessoas de carne e osso, muitas vezes tão ou mais imbecis que nós mesmos.

Em alguns casos, mais imbecis que qualquer um.    

(VEEP: última temporada em exibição na HBO.)

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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